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Teologia

Graça Resistivel

A RESISTÊNCIA À GRAÇA

Nas palavras do teólogo holandês Jacó Armínio…

“Aqueles que são obedientes à vocação ou ao chamado de Deus, concedem, livremente, o seu consentimento à graça, mas são previamente instigados, impelidos, atraídos e auxiliados pela graça; e, ao mesmo tempo em que dão esse consentimento, possuem a capacidade de não consentir” [1].

Segundo a Confissão de Fé Arminiana de 1621:

“(…) A graça de Deus é o começo, a continuidade e a consumação de todo bem, de modo que mesmo o homem que nasceu de novo não é capaz, sem esta graça preveniente e excitante, seguinte e cooperante, de pensar, querer, ou praticar qualquer bem, ou resistir a quaisquer tentações para o mal”. Eles diferiram de seus adversários não sobre a necessidade da graça, mas em sua crença de que uma pessoa pode “desprezar e rejeitar a graça de Deus e resistir à sua operação, de modo que quando ele é divinamente chamado à fé e obediência, é capaz de tornar a si mesmo incapaz para crer” [2].

Nos escritos de John Wesley:

“Eu creio que a graça que traz fé, e, portanto, salvação para a alma, é irresistível naquele momento. Eu creio que a maioria dos crentes pode se lembrar de alguma vez quando Deus irresistivelmente os convenceu de pecado. Eu creio que a maioria dos crentes, em outras ocasiões, viu Deus agindo irresistivelmente em suas almas [3]. Todavia, eu creio que a graça de Deus, tanto antes como após esses momentos, pode ser, e tem sido, resistida; e que, em geral, ela não age irresistivelmente; mas nós podemos concordar também ou não” [4].

“E eu não nego que, em algumas almas, a graça de Deus é tão irresistível que eles não podem senão crer e ser finalmente salvos. Mas eu não posso crer que todos aqueles em quem ela não opera assim irresistivelmente devem ser condenados, ou que haja uma alma na terra que não tenha ou nunca teve qualquer outra graça, que de fato aumente sua condenação, e tenha sido designada por Deus para isso” [5].

Segundo estes autores a graça dada por Deus não é irresistível. Portanto, a atração exercida pelo Espírito pode ser resistida pelo homem, porque a graça não é coercitiva. O texto de Gênesis 6.3 evoca a luta (contenda) de Deus no homem.

Se o Espírito luta, então como suas influências podem ser irresistíveis?

Se um homem é incapaz de resistir à graça e à operação do Espírito, então por que teríamos essas passagens (Gl 2.21 e Hb 10.29)? Está claro a partir da Escritura e da experiência que podemos lutar contra a consciência, que é despertada pela graça preveniente de Deus. “Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo 5.40). Qual seria o propósito desta afirmação se a oferta de vir não existisse para os ouvintes?
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[1] As Obras de Armínio, vol. 2, CPAD, p. 430
[2] Confissão Arminiana de 1621 – Capítulo XVII
[3] WESLEY, The works of John Wesley. Peabody: Hendrickson Publishers, 1991, vol. I, p. 427. Ênfase minha.
[4] Ibid. Ênfase minha.

[5] Todas essas citações estão em WESLEY, The works of John Wesley, vol. I, p. 427, e procedem do seu Diário com data de 23 de agosto de 1743.

Vamos ver o que diz o próprio Armínio a respeito:

Se alguém afirma que levando em consideração o fato de terem sido eleitos não é possível que os crentes, finalmente, venham a cair e se manter longe da salvação, porque Deus decretou salvá-los – eu respondo que o decreto sobre ser guardado não tira a possibilidade da condenação, mas remove a condenação em si. (…) é impossível que os crentes, desde que permaneçam fiéis, venham a perder a salvação. Porque se isso fosse possível, o poder que Deus decidiu empregar para salvar os crentes seria vencido. Por outro lado, se os crentes apostatarem da fé e se tornarem incrédulos, é impossível que eles não se desviem da salvação, ou seja, desde que continuem incrédulos” (vol. 1, p. 257, 258)

“É possível que um cristão fiel caia em algum pecado mortal, e disso Davi parece ser um exemplo. Portanto, ele pode cair em um momento tal que, se estivesse, então, prestes a morrer, estaria condenado” (vol. 1, p. 355)

“(…) basta que ele saiba que não declinará da fé por nenhuma força de satanás, do pecado e do mundo, e por nenhuma inclinação ou fraqueza da sua própria carne, a menos que ele, voluntariamente, ceda à tentação, e negligencie a busca de sua própria salvação de uma maneira consciente” (vol. 2, p. 434, 435)

“…[a opinião] que afirma que é possível que os fiéis percam a fé sempre teve mais apoiadores na igreja de Cristo que aquela que nega a possibilidade de que isso ocorra” (Vol. 2, p. 434)

“(…) enquanto durar essa continuação e confirmação, os fiéis não parecem deixar de correr o risco de cair. Pois assim como qualquer pessoa pode não estar disposta a ser edificada sobre a pedra, também é possível que o mesmo homem, se começar a ser edificado, caia, resistindo à continuação e confirmação da edificação. (…) praticamente toda a antiguidade é da opinião de que os fiéis podem cair e perecer” (vol. 3, p. 458)

“(…) enquanto a semente de Deus estiver em uma pessoa, ela não peca para a morte, mas é possível que a semente, propriamente dita, por sua própria culpa e negligência [do crente], seja removida de seu coração e assim a sua primeira criação, à imagem de Deus, foi perdida, também a segunda transmissão pode ser perdida (…) o pecado reinante não pode subsistir com a graça do Espírito Santo. Também é verdade que o pecado não reina no regenerado, pois, antes que isso possa acontecer, é necessário que ele rejeite a graça do Espírito Santo, que mortifica o pecado e restringe o seu poder” (vol. 3, p. 460, 467)

“Romanos 6 também é uma exortação do apóstolo aos fiéis, para que não mais vivam em pecado, porque, em Cristo, estão mortos para o pecado. Esta advertência aos cristãos seria em vão, se não fosse possível que eles vivessem em pecado, mesmo depois de sua libertação do seu domínio” (vol. 3, p. 460)

“Com base nessa passagens [de escritos de Agostinho], em minha opinião, ficará claro que Agostinho pensava que alguns fiéis, algumas pessoas justificadas e regeneradas, algumas a quem havia sido concedida a fé, esperança e amor, podem apostatar e se perder e, apostatarão e se perderão, com a única exceção dos predestinados” (vol. 3, p. 467)

“No início da fé em Cristo e da conversão a Deus, o fiel se torna um membro vivo de Cristo. Se ele perseverar na fé de Cristo, e mantiver uma boa consciência, permanecerá como um membro vivo. Mas se ele se tornar idolente, se não tiver cuidado consigo mesmo, se der lugar ao pecado (…) prosseguindo dessa maneira, por fim, ele morre inteiramente e deixa de ser um membro de Cristo”

(vol. 3, p. 473)
Fonte: As Obras de Armínio

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