O dom de línguas se refere a línguas humanas ou espirituais?
Primeiramente, vamos explicar brevemente os conceitos de ambos os lados. Do lado pentecostal, você já deve conhecer: são as línguas faladas em idiomas não-terrenos, ou seja, que não podem ser identificadas em nenhum dos 6.912 idiomas falados na terra hoje. São jocosamente apelidadas de “labaxúrias”. São línguas ininteligíveis que ninguém entende, a não ser que tenha o dom de interpretação de línguas, e servem apenas para edificação pessoal. Já para os tradicionais, as línguas são idiomas terrenos que Deus dava a alguém que não sabia falar aqueles idiomas, para ir pregar o evangelho às nações, nos idiomas delas. Ou seja, o dom de línguas seria uma espécie de ferramenta evangelística, em um idioma compreensível, de uma pessoa falando para outra pessoa, para a edificação do próximo.
Ainda hoje há diversas pessoas que não tem condições ou capacidade de aprender, por exemplo, dialetos africanos difíceis para ir pregar o evangelho a eles, e mesmo assim não as vemos recebendo línguas estrangeiras para evangelizar alguém. Seria bastante estranho que o modus operandi de Deus mudasse tanto através dos tempos, para julgar necessário à Igreja um dom no século I, mas não no século XXI, quando ainda há tantos descrentes para evangelizar até que o evangelho seja pregado no mundo todo. Essa é uma das razões por que não sou cessacionista (as outras você pode ver aqui).
Vamos ver agora qual dos dois conceitos a Bíblia defende.
Embora haja alguns textos em Atos e um em Marcos que mencionam o dom de línguas (falaremos desses textos mais adiante), somente em 1ª Coríntios temos uma descrição mais detalhada e prolongada a seu respeito. As outras são descrições de passagem, que podem nos indicar alguma coisa, mas é em 1ª Coríntios que temos uma clareza inconfundível, mais especificamente no capítulo 14. Primeiramente, é necessário explicarmos uma coisa: Paulo não estava ali refutando quem cria ou descria no dom de línguas. Não era isso o que estava em discussão. A igreja de Corinto falava muito em línguas e a sua natureza não estava em jogo, mas sim o modo que eles usavam, erroneamente, este dom. Vamos explicar isso versículo a versículo, para ficar mais claro:
“Sigam o caminho do amor e busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia. Pois quem fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus. De fato, ninguém o entende; em espírito fala mistérios. Mas quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens” (1ª Coríntios 14:1-3)
Só nestes primeiros versículos Paulo já liquida completamente com a ideia de que as línguas fossem idiomas terrenos. Primeiramente porque ele diz, expressamente, que quem fala em línguas não fala a homens, mas a Deus. Isso é exatamente o OPOSTO ao dom de línguas no conceito cessacionista, onde, como vimos, o dom consiste em uma pessoa pregando o evangelho a outra pessoa no idioma dela, ou seja, é uma fala a homens, não a Deus. Por outro lado, você nunca vai ver um pentecostal falando em línguas com outro pentecostal como se estivesse numa “conversa de louco”, justamente porque as línguas pentecostais não são faladas a homens (o que seria inútil, já que ninguém entenderia nada), mas sim a Deus – é a “linguagem sobrenatural da oração”, como veremos mais adiante.
Paulo prossegue dizendo que “ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”. Isso é também o contrário ao dom de línguas segundo o conceito dos tradicionais: se o dom consiste em uma pessoa pregando a outra no idioma dela, presume-se que ela entende; além disso, não faz sentido dizer que “em espírito fala mistérios”, o que transmite a ideia de que a pessoa não está falando por si, mas algo misterioso e espiritual – o que vai na contramão daqueles que creem que esse dom consistia numa fala racional em um idioma terreno e humano. Por outro lado, o texto faz novamente todo o sentido do mundo no prisma pentecostal, pois de fato “ninguém entende” alguém que está falando em línguas (entre numa igreja pentecostal “do fogo” para ver se entende alguma coisa!), porque é o Espírito Santo quem está falando em mistérios através dela.
Como se não bastasse, o verso 3 é ainda mais definitivo e cabal: Paulo coloca em contraste o dom de línguas e a profecia, porque quem profetiza faz isso “para a edificação, encorajamento e consolação dos homens”. O verso seguinte complementa dizendo:
“Quem fala em língua a si mesmo se edifica, mas quem profetiza edifica a igreja” (1ª Coríntios 14:4)
Note o contraste inquestionável:
Dom de línguas
Dom de profecia
Não fala a homens
Fala a homens
Ninguém entende
É compreensível
Fala mistérios
Encoraja os homens
Edificação pessoal
Edificação do próximo (da igreja)
Nada, nada disso tem sentido no prisma cessacionista, justamente porque o dom de línguas no modelo deles funcionaria de um modo similar à profecia e não de forma antagônica. Isto é, seria uma pessoa falando em idioma humano a outra pessoa, buscando edificá-la (pregando a ela o evangelho). Seria, obviamente, um dom de edificação do próximo, e não de si mesmo – exatamente da mesma forma que a profecia. A profecia é de edificação do outro porque quem recebe a profecia recebe uma mensagem divina e assim é edificado; da mesma forma, o dom de línguas seria uma edificação do outro porque seu receptor estaria recebendo a mensagem do evangelho na língua dele. Ou seja, nada do contraste entre profecia e línguas faria sentido se o conceito do dom de línguas fosse o que os não-pentecostais asseveram.
Agora veja como as coisas fazem todo o sentido no modelo pentecostal: o dom de línguas é, como sabemos, uma arma de edificação individual, justamente porque ao falarmos em línguas nós não estamos fazendo nada pelo próximo: estamos orando por nós mesmos, em uma linguagem sobrenatural a qual desconhecemos. Se você recebe a pregação do evangelho na sua língua você está sendo edificado, se você recebe uma profecia você está sendo edificado, mas se você ouve um “labaxúrias” da vida você não está sendo edificado coisíssima nenhuma, embora esteja edificando espiritualmente a pessoa que está orando em línguas. Essa é a razão pela qual o dom de línguas só edifica a si mesmo, enquanto a profecia edifica a igreja.
Prossigamos a leitura:
“Gostaria que todos vocês falassem em línguas, mas prefiro que profetizem. Quem profetiza é maior do que aquele que fala em línguas, a não ser que as interprete, para que a igreja seja edificada” (1ª Coríntios 14:5)
Este outro texto também é um golpe fatal na interpretação tradicionalista, porque diz que as línguas podem ser interpretadas. Ora, de acordo com os não-pentecostais, as línguas faladas já são a pregação do evangelho no idioma de quem ouve, então seria completamente desnecessário um “intérprete” para a edificação do próximo. Alguém poderia supor que Paulo estaria fazendo aqui referência a alguém que durante o culto usa o dom de línguas para falar em um idioma estrangeiro que nem toda a congregação conhece, então por isso seria necessário o tal do intérprete. Mas isso seria simplesmente estúpido, uma vez que a igreja de Corinto era uma igreja gentílica cujos membros falavam em grego, e uma pregação em outro idioma seguida de uma tradução simplesmente retardaria o culto desnecessariamente.
Seria como alguém chegar no seu culto de domingo e falar em tailandês (mesmo sabendo o português perfeitamente), então alguém precisar traduzir para o idioma que aquelas pessoas já falam (inclusive o próprio pregador!). É uma coisa simplesmente sem nexo. Cabe destacar que na época o grego era o idioma universal, muito mais do que o inglês é hoje, e que os próprios judeus aprendiam desde a adolescência a falar em grego (com exceção das camadas mais pobres da sociedade). Além disso, note que Paulo diz que as línguas não edificam o próximo exceto se forem interpretadas, mas no conceito cessacionista as línguas são um instrumento de evangelização dos gentios sendo “interpretadas” ou não, e sem nenhuma edificação pessoal.
Agora veja como novamente o texto se enquadra com perfeição nos moldes pentecostais: você não edifica o próximo falando os “labaxúrias”, mas se alguém interpretar as línguas espirituais trazendo-as para uma língua inteligível a alguém, elas funcionariam da mesma forma que a profecia – é por isso que Paulo iguala o dom de línguas à profecia quando o mesmo é acompanhado do dom de interpretação durante um culto, cujo propósito é a edificação coletiva (da igreja).
Prossigamos a leitura:
“Agora, irmãos, se eu for visitá-los e falar em línguas, em que lhes serei útil, a não ser que lhes leve alguma revelação, ou conhecimento, ou profecia, ou doutrina? Até no caso de coisas inanimadas que produzem sons, tais como a flauta ou a cítara, como alguém reconhecerá o que está sendo tocado, se os sons não forem distintos? Além disso, se a trombeta não emitir um som claro, quem se preparará para a batalha? Assim acontece com vocês. Se não proferirem palavras compreensíveis com a língua, como alguém saberá o que está sendo dito? Vocês estarão simplesmente falando ao ar. Sem dúvida, há diversos idiomas no mundo; todavia, nenhum deles é sem sentido. Portanto, se eu não entender o significado do que alguém está falando, serei estrangeiro para quem fala, e ele, estrangeiro para mim. Assim acontece com vocês. Visto que estão ansiosos por terem dons espirituais, procurem crescer naqueles que trazem a edificação para a igreja” (1ª Coríntios 14:6-12)
Estes versos são constantemente tirados de contexto para tentar dizer que línguas ininteligíveis são inúteis, e, portanto, o dom de línguas no modelo pentecostal seria falso. Isso seria verdade se não fosse por um detalhe: Paulo não estava falando do uso individual do dom, mas sim de seu uso na igreja. Como já acabei de dizer, o dom de línguas é inútil no contexto litúrgico, porque o propósito de um culto não é a edificação de si mesmo, mas do próximo. É por isso que eu condeno os “labaxúrias” ditos durante o culto em muitas igrejas pentecostais, que acabam abusando do dom e o usando da mesma maneira equivocada que os coríntios faziam.
O que Paulo está dizendo é que falar em línguas durante o culto é desproposital, porque o propósito de um culto é a edificação coletiva, e o dom de línguas só serve para a edificação pessoal (exceto se houver interpretação). É por isso que Paulo diz que os coríntios tinham que crescer nos dons que traziam edificação para a igreja (ou seja, profecia e interpretação), já que as línguas edificam apenas o próprio indivíduo e por isso devem ser faladas em um contexto particular, não coletivamente. Então ele prossegue dizendo:
“Por isso, quem fala em línguas, ore para que a possa interpretar” (1ª Coríntios 14:13)
É a mesma lógica: se você fala em línguas está edificando apenas a si próprio, mas você pode orar a Deus pedindo o dom de interpretação de línguas para que possa usá-lo na igreja e assim instruir os outros também, tornando-se um dom de edificação coletiva. Além disso, note que é a própria pessoa que ora em línguas e que deveria interpretá-las, o que não faz sentido nenhum na visão tradicionalista, onde o dom em si já consiste no entendimento de um idioma que você desconhece, não havendo lógica nenhuma em orar para interpretar as línguas que você já fala!
Paulo continua:
“Pois, se oro em línguas, meu espírito ora, mas a minha mente fica infrutífera. Então, que farei? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1ª Coríntios 14:14-15)
Este é pra mim o texto mais forte em favor do dom de línguas pentecostal: note que Paulo diz que a pessoa que ora em línguas ora apenas em espírito, mas não com a mente. Em outras palavras, a pessoa não “racionaliza” o que vai falar; é o Espírito que ora através dela. Ela não está “usando” a mente. Isso é exatamente o mesmo tipo de coisa que acontece entre os pentecostais, que não planejam as palavras que vão dizer, simplesmente vão deixando o Espírito orar dentro delas e falar através delas – tal como este estudo científico comprovou, e como você pode comprovar também com qualquer pentecostal que realmente fale em línguas, e não um que simplesmente force palavras como qualquer um pode fazer.
Em contrapartida, isso é exatamente o oposto ao dom de línguas no conceito tradicional, no qual a pessoa racionaliza as palavras da mesma forma que numa fala normal, só que em outro idioma que Deus fez com que ela conseguisse falar. Não há nenhuma forma honesta de conciliar este versículo com o modelo tradicional do dom de línguas.
E a coisa complica ainda mais no versículo seguinte, que fala sobre orar com o espírito e orar com o entendimento como sendo duas coisas distintas, exatamente pela razão que expliquei. No conceito tradicional, as duas orações são feitas com o entendimento, embora em idiomas diferentes, da mesma forma que você que sabe português e inglês pode usar o seu entendimento para orar nestes dois idiomas quando quiser. Mas aqui claramente as línguas se referem a um idioma sem entendimento, cuja mente fica “infrutífera” (livre), precisamente porque você não está racionalizando aquilo que diz ou que vai dizer, estando assim mais livre para realizar outras atividades ao mesmo tempo. Tudo livro é amplamente explicado no livro do Subirá – “O Falar em Línguas: A Linguagem Sobrenatural da Oração”.
Paulo continua:
“Se você estiver louvando a Deus em espírito, como poderá aquele que está entre os não instruídos dizer o ‘Amém’ à sua ação de graças, visto que não sabe o que você está dizendo? Pode ser que você esteja dando graças muito bem, mas o outro não é edificado” (1ª Coríntios 14:16-17)
Mais uma vez aqui o “louvar a Deus em espírito” se refere a uma coisa que ninguém entende, razão pela qual ninguém pode dizer “amém” à sua ação de graças, e assim ninguém é edificado. Paulo prossegue:
“Dou graças a Deus por falar em línguas mais do que todos vocês. Todavia, na igreja prefiro falar cinco palavras compreensíveis para instruir os outros a falar dez mil palavras em línguas” (1ª Coríntios 14:18-19)
Aqui Paulo mostra que o dom de línguas é extremamente importante, mas num contexto particular, não durante o culto. Se não fosse por isso, ele não teria dito que dava graças a Deus por falar em línguas mais do que todos os coríntios, o que mostra que essa atividade é extremamente útil como uma ferramenta de edificação pessoal (como já vimos). Mas na igreja isso era inútil, porque a finalidade de um culto é a edificação coletiva e não a edificação pessoal, razão pela qual ele preferia falar cinco palavras compreensíveis na igreja do que dez mil em línguas estranhas. Isso novamente contrasta com o entendimento deles, porque se as línguas servissem para pregar o evangelho a um descrente elas seriam uma ferramenta de edificação do descrente, ou seja, de edificação do próximo e não meramente de si mesmo.
Prossigamos:
“Irmãos, deixem de pensar como crianças. Com respeito ao mal, sejam crianças; mas, quanto ao modo de pensar, sejam adultos. Pois está escrito na Lei: Por meio de homens de outras línguas e por meio de lábios de estrangeiros falarei a este povo, mas, mesmo assim, eles não me ouvirão’, diz o Senhor. Portanto, as línguas são um sinal para os descrentes, e não para os que crêem; a profecia, porém, é para os que crêem, e não para os descrentes” (1ª Coríntios 14:20-22)
Se Paulo não tinha em mente a interpretação cessacionista acerca das línguas como meros idiomas terrenos, do que ele estava falando então? Comecemos com o verso 21, onde a ênfase deve recair na parte final do verso, que diz: “ELES NÃO ME OUVIRÃO”. Ou seja, o verso diz respeito às línguas, mas Deus não diz que as pessoas de fora que as ouvissem iriam crer, diz justamente o contrário, que não iriam crer! Isso por si só já confronta o ensino dos cessacionistas, de que o dom de línguas era para pregar aos estrangeiros na língua deles para eles crerem (quando o texto diz claramente que eles NÃO creriam).
Então vem o verso 22, que diz que as línguas são um sinal para os incrédulos, e que a profecia é um sinal para os crentes. O que Paulo quis dizer com isso? Ele explica logo no verso seguinte, que nada mais é do que um complemento ao pensamento. Note que ele inicia o verso 23 com um “assim”, que também pode ser traduzido como “portanto”, “então”, etc. Ou seja: Paulo está dando um exemplo prático do que ele acabara de dizer. E qual é esse exemplo? É do tipo mais esclarecedor possível. Vejamos:
“Assim, se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não instruídos ou descrentes não dirão que vocês estão loucos?” (1ª Coríntios 14:23)
Aqui está o “sinal para os incrédulos”, atrelado ao fato de que se um incrédulo entrasse na igreja e visse pessoas falando em línguas, ele NÃO creria (ou seja, permaneceria um incrédulo!). Note que isso está em consonância com o que ele afirmou no verso 21, onde diz que os descrentes que ouvissem as línguas NÃO creriam. É por isso que era um “sinal para os incrédulos” (e não para os crentes). Então Paulo faz o contraste com a profecia, que ele disse no verso 22 que é um “sinal para os crentes”. Em que sentido é um “sinal para os crentes”? Obviamente, no sentido oposto ao que as línguas são um “sinal para os incrédulos”. Então a única coisa que pode significar é que quando um descrente entrasse na igreja e visse as profecias, ele creria, diferentemente do que ocorre com as línguas. E é exatamente isso o que ele expressa nos versos 24 e 25, quando ele diz:
“Mas se entrar algum descrente ou não instruído quando todos estiverem profetizando, ele por todos será convencido de que é pecador e por todos será julgado, e os segredos do seu coração serão expostos. Assim, ele se prostrará, rosto em terra, e adorará a Deus, exclamando: ‘Deus realmente está entre vocês!’” (1ª Coríntios 14:24-25)
Também essa continuação que trata da profecia como um “sinal para crentes, e não para os incrédulos”, não faz qualquer sentido na interpretação cessacionista. Isso porque, na interpretação deles, as línguas eram um “sinal para os incrédulos” no sentido de ser anunciada somente aos incrédulos, e consequentemente a profecia deveria ser um “sinal para os crentes” justamente por ser o oposto a isso, ou seja, de ser anunciada somente aos crentes (observe que o mesmo texto que diz que “as línguas são um sinal para os incrédulos, e não para os que creem”, também diz logo na sequência que “a profecia, porém, é para os que crêem, e não para os descrentes” – v. 22).
Mas isso contraria flagrantemente o que Paulo oferece de exemplo logo nos versos seguintes, ao dizer que um descrente que entrasse na igreja receberia profecias e “por todos será convencido de que é pecador e por todos será julgado” (v. 24). Isso significa que quando Paulo disse que a profecia é um sinal “para os crentes, e não para os incrédulos”, isso certamente não significava que a profecia não seria direcionada aos incrédulos, porque não era disso que ele estava falando. E se não era disso que ele estava falando, então a parte anterior que diz que as línguas são “um sinal para os incrédulos, e não para os crentes”, também não significa que as línguas são direcionadas aos incrédulos. A interpretação cessacionista é precisamente o oposto do que Paulo transmite nos versos em questão.
Resumindo, portanto, diante de todo o contexto:
1) O dom de línguas é um “sinal para os incrédulos”, não no sentido de que se pregaria a um incrédulo no idioma dele para ele aceitar o evangelho, mas justamente pelo contrário, porque as línguas seriam inúteis a fim de converter um incrédulo.
2) O dom de profecia, ao contrário, é um “sinal para os crentes”, não no sentido de que não se daria profecia a um descrente, mas justamente pelo contrário, porque o descrente, recebendo a profecia, veria que é tudo verdade e assim constataria que Deus está naquele lugar (entre os crentes reunidos na igreja).
Como vemos, a interpretação cessacionista é completamente inconsistente com o contexto da passagem, seja em relação aos seus versos próximos, seja em relação ao capítulo como um todo. Antes de terminar essa parte, vale ressaltar a forma presente no texto grego, como consta no “Novo Testamento Interlinear Analítico Grego-Português”, de Paulo Sérgio e Odayr Oliveti:
Literalmente traduzido, ficaria: “Portanto, as línguas como sinal são não aos que creem, mas aos incrédulos”. Isso está em harmonia com o capítulo como um todo, que mostra a inutilidade das línguas faladas em um ambiente público (vs. 11, 16, 19 e 23), que não tem qualquer capacidade de impressionar ou converter um incrédulo, e que se um deles entrasse na igreja iria pensar que estão todos loucos (v. 23). Trocando em miúdos, é como se Paulo estivesse dizendo: “Por que vocês agem assim, se isso é completamente ineficaz para se crer no evangelho? Estão ajudando a tornar os descrentes ainda mais incrédulos!”.
É por isso que a ênfase do apóstolo recai em todo o capítulo na necessidade de se usar o dom de línguas individualmente, quando estamos a sós com Deus para edificação pessoal (vs. 2, 4 e 18), e não em público de forma desorganizada diante de outras pessoas (vs. 11, 16, 19 e 23), tornando o dom de edificação pessoal em algo infrutífero quando o propósito é a edificação coletiva (na igreja) – daí a prioridade dada ao dom de profecia (v. 5). Falando em línguas, você só edifica a si mesmo. Profetizando, você edifica os outros, que é um dos propósitos de se reunir como igreja. Por isso, tão vão quanto profetizar sozinho para si próprio, é falar em línguas para outras pessoas – um “sinal” que não serve a nenhum crente.
Todo o contexto, portanto, refuta como uma bomba os argumentos daqueles que insistem que Paulo não estava falando de línguas ininteligíveis em 1ª Coríntios 14 – tentar encontrar línguas terrenas e inteligíveis neste capítulo é quase tão difícil como encontrar o Mundial do Palmeiras. Mas existem outros textos que os cessacionistas usam tentando “refutar” o entendimento pentecostal, então vamos a eles.
- “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos…”
Em 1ª Coríntios 13:1, Paulo escreve:
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine” (1ª Coríntios 13:1)
Alguns tradicionais argumentam que, como Paulo usa o termo “ainda que”, então significa que ele não falava as “línguas dos anjos”, e portanto isso não teria nada a ver com o dom de línguas pentecostal. Este argumento é leviano e burro, primeiro porque Paulo não falava apenas da língua dos anjos aqui, mas ele diz “dos homens e dos anjos”. Será então que Paulo não conhecia nenhum idioma humano também, e falava a língua dos macacos? Creio que não. Você pode argumentar: “Mas isso talvez signifique apenas que Paulo não falava todas as línguas dos homens, já que o termo está no plural”. Se é assim, então o mesmo princípio se aplicaria às “línguas dos anjos”, que também está no plural (ou seja, significaria apenas que Paulo não falava todas as línguas dos homens e nem todas as línguas dos anjos, embora ele conseguisse falar ambas).
Além disso, o versículo seguinte usa o mesmo termo “ainda que” para se referir à profecia:
“Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei” (1ª Coríntios 13:2)
O grande detalhe é que Paulo efetivamente tinha o dom de profecia, como é aludido em 1ª Coríntios 13:9, em 1ª Coríntios 14:6 e em outros textos como 1ª Timóteo 4:1. Ou seja, Paulo tinha o dom de profecia e mesmo assim usou a expressão “ainda que” – a mesma que ele usou no verso anterior, sobre as línguas dos homens e dos anjos. Claro que aqui ele leva as coisas aos extremos, falando sobre todos os mistérios e todo o conhecimento, quando ele sabia mistérios (ex: 1Co 15:51) e tinha conhecimento, embora não plenos. Da mesma forma, ele podia não falar todas as línguas dos homens, mas falava algumas (como o hebraico, aramaico e grego). Usando o mesmo critério e bom senso, é lógico que Paulo falava a língua dos anjos, embora não todas também.
O que prova ainda mais fortemente que Paulo estava mesmo falando do dom de línguas aqui é o fato de esse texto não cair de paraquedas do céu, mas estar justamente no contexto dos dons espirituais. É um epílogo do capítulo anterior (12), que fala sobre os mesmos dons espirituais que Paulo se refere nestes versos do cap. 13 (dom de línguas, dom de profecia, dom da palavra de conhecimento, dom da fé, etc), e aparece imediatamente antes do cap. 14, que é justamente esse que analisamos sobre o dom de línguas. Chega a ser ridículo inferir que não há nenhuma alusão aqui a nada do capítulo anterior ou do seguinte. Faça uma simples comparação e chegue às suas próprias conclusões:
Capítulo 12
Capítulo 13
“Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de conhecimento, pelo mesmo Espírito; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de cura, pelo único Espírito; a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas” (vs. 8-10)
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, mas não tiver amor, nada serei” (vs. 1-2)
É preciso ser monstruosamente desonesto para negar que no capítulo 13 Paulo estava fazendo uma alusão a alguns dos mesmos dons que ele acabara de mencionar, justamente na intenção de dizer que eles são menos importantes do que o amor. Mas note que na parte em que ele alude ao dom de línguas ele menciona a “língua dos anjos”, o que claramente significa que se trata de línguas ininteligíveis, até porque se não fosse ele teria mencionado apenas as línguas dos homens e deixado por isso mesmo.
Já vimos que o dom de línguas pentecostal é perfeitamente óbvio em 1ª Coríntios 14, que parece ter sido escrita por um pentecostal (e foi!). Mas há um texto que até certos pentecostais fazem uma concessão por não entenderem direito o que aconteceu ali: trata-se de Atos 2, o texto favorito dos que negam o dom de línguas pentecostal. Farei aqui o mesmo que fiz com 1ª Coríntios 14, interpretando parte por parte:
“Chegando o dia de Pentecoste, estavam todos reunidos num só lugar. De repente veio do céu um som, como de um vento muito forte, e encheu toda a casa na qual estavam assentados. E viram o que parecia línguas de fogo, que se separaram e pousaram sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito os capacitava” (Atos 2:1-4)
Observe que o texto diz que todos ficaram cheios do Espírito Santo e falaram outras línguas. Isso inclui não apenas os apóstolos, mas “um grupo de cerca de cento e vinte pessoas” (At 1:15), o que inclui “as mulheres, inclusive Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (At 1:14). De acordo com os tradicionais, todas essas 120 pessoas estavam falando idiomas terrenos diferentes. Tendo isso em mente, prossigamos com o relato de Atos 2:
“Havia em Jerusalém judeus, tementes a Deus, vindos de todas as nações do mundo. Ouvindo-se este som, ajuntou-se uma multidão que ficou perplexa, pois cada um os ouvia falar em sua própria língua. Atônitos e maravilhados, eles perguntavam: ‘Acaso não são galileus todos estes homens que estão falando? Então, como os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua materna? Partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, Judéia e Capadócia, Ponto e da província da Ásia, Frígia e Panfília, Egito e das partes da Líbia próximas a Cirene; visitantes vindos de Roma, tanto judeus como convertidos ao judaísmo; cretenses e árabes. Nós os ouvimos declarar as maravilhas de Deus em nossa própria língua!’ E todos se maravilhavam e estavam suspensos, dizendo uns para os outros: Que quer isto dizer?’ E outros, zombando, diziam: Eles beberam vinho demais!’” (Atos 2:5-13)
Aqui os cessacionistas afirmam que os apóstolos falaram aqueles idiomas terrenos daquelas pessoas. Mas note que em lugar nenhum o texto diz que eles falaram naqueles idiomas, mas sim que a multidão os ouviu naqueles idiomas. E mais: o texto não diz que cada um ouviu uma pessoa diferente falando na sua língua, mas sim que “os ouvimos, cada um de nós, em nossa própria língua”, o que implica que cada um ouvia o grupo inteiro dos 120 falando na língua deles. Isso é obviamente impossível de acontecer se no caso cada um estivesse falando em um idioma humano diferente, o que implica que estavam todos falando em línguas estranhas e Deus fazia com que as pessoas da multidão ouvissem como se cada uma delas estivesse falando no idioma de quem ouvia.
Além disso, se realmente as 120 pessoas estivessem falando em idiomas terrenos diferentes e foi isso o que a multidão ouviu, seria praticamente impossível que cada uma delas conseguisse ouvir, diferenciar e destacar que estavam falando no seu idioma. Pense que você está em Nova York em um lugar com 120 pessoas, e de repente todas elas começam a falar em voz alta em idiomas diferentes. Alguém ali entre os 120 está falando em português, mas quem é que no meio de toda essa barulheira conseguiria identificar isso? Óbvio que ninguém. Se quando meia dúzia de pessoas falam ao mesmo tempo coisas diferentes no mesmo idioma eu já não consigo entender bulhufas, imagine com 120 falando em idiomas diferentes! Mas note que eles não apenas conseguiam ouvir cada qual na sua própria língua, como ainda compreendiam perfeitamente que estavam «declarando as maravilhas de Deus»!
Para qualquer leitor inteligente, o que aconteceu ali foi Deus dando aos 120 o mesmo dom de línguas falado pelos pentecostais hoje, permitindo com que cada pessoa de fora as ouvisse como se estivessem falando todas em um mesmo idioma: o dela. Ou foi isso o que aconteceu em Atos 2, ou absolutamente nada no relato faz algum sentido em um cenário real de pessoas reais em um evento real. O fato de uns ficarem “maravilhados” (v. 12) e outros acharem que eles estavam “bêbados” (v. 13) só pode significar que a interpretação das línguas foi dada ao primeiro grupo que se maravilhou daquilo, enquanto este segundo grupo os ouviu da forma que falavam, concluindo o mesmo que qualquer pessoa que entre em um “culto penteca do fogo” concluirá: que estão todos loucos ou bêbados! Aliás, foi precisamente isso o que Paulo disse aos coríntios:
“Assim, se toda a igreja se reunir e todos falarem em línguas, e entrarem alguns não instruídos ou descrentes não dirão que vocês estão loucos?” (1ª Coríntios 14:23)
Essa reação – de achar que estão “loucos” ou “bêbados” – é a mais natural de alguém que ouve um monte de gente estranha falando línguas ininteligíveis (os “labaxúrias”), mas não é a reação natural de alguém que ouve gente falar francês, alemão, inglês e etc. Fosse assim e os descrentes ficariam é surpreendidos pelo nível cultural e intelectual da igreja, capaz de falar diversos idiomas terrenos! Mas é justamente o contrário que ocorre: uma reação de quem está entrando em um hospício ou em um bar a altas horas da noite…
Das outras ocorrências do falar em línguas no Novo Testamento, nenhum apresenta o sentido claro de alguém o usando para pregar o evangelho a um descrente no idioma dele. Há literalmente zero referências a isso na Bíblia. Vamos a elas:
“Enquanto Pedro ainda estava falando estas palavras, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a mensagem. Os judeus convertidos que vieram com Pedro ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado até sobre os gentios, pois os ouviam falando em línguas e exaltando a Deus. A seguir Pedro disse: ‘Pode alguém negar a água, impedindo que estes sejam batizados? Eles receberam o Espírito Santo como nós!’” (Atos 10:44-47)
Aqui o dom de línguas é dado a gentios convertidos, que passam a exaltar a Deus. O texto não diz que Pedro ou outra pessoa usou o dom de línguas para evangelizá-los e nem que eles ao receberem o dom de línguas passaram a evangelizar outras pessoas nessas línguas, mas o dom só aparece depois da conversão e com outra finalidade. A outra ocorrência em Atos aparece nove capítulos depois:
“Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, atravessando as regiões altas, chegou a Éfeso. Ali encontrou alguns discípulos e lhes perguntou: ‘Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?’ Eles responderam: ‘Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo’. ‘Então, que batismo vocês receberam?’, perguntou Paulo. ‘O batismo de João’, responderam eles. Disse Paulo: ‘O batismo de João foi um batismo de arrependimento. Ele dizia ao povo que cresse naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus’. Ouvindo isso, eles foram batizados no nome do Senhor Jesus. Quando Paulo lhes impôs as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo, e começaram a falar em línguas e a profetizar. Eram ao todo uns doze homens” (Atos 19:1-7)
Mais uma vez, não é dito que Paulo ou outro discípulo usou o dom de línguas para levar o evangelho a esses crentes de Corinto – que, observe, já eram convertidos, embora fossem batizados apenas nas águas e não com o Espírito Santo. Ao serem batizados no Espírito Santo, começaram a manifestar dons espirituais, como o das línguas e a profecia. E mais: como ali só haviam crentes, eles falavam em línguas pra quem? Não havia ninguém ali para ser evangelizado, nenhum descrente que falasse em outro idioma. É evidente que a manifestação das línguas aqui não teve absolutamente nada a ver com um uso para evangelização de incrédulos no idioma deles. Isso é apenas uma teoria esfarrapada desprovida inteiramente de qualquer apoio bíblico, criada exclusivamente na intenção de se contrapor ao único modelo bíblico do dom.
Por fim, há aqueles que citam uma menção rápida às línguas nos versículos finais de Marcos, que dizem:
“Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados” (Marcos 16:17-18)
Em primeiro lugar, não há novamente nada nestes versos que digam ou sugiram que as línguas em questão se refiram a idiomas terrenos para a evangelização de gentios. Em segundo, há uma boa chance destes versos não constarem no evangelho de Marcos original, por estar ausente nos mais antigos manuscritos deste evangelho. Uma alternativa provável é que foi um enxerto posterior por um autor cristão, em uma época em que todos já sabiam o que essas línguas significavam, pois conheciam Atos dos Apóstolos e 1ª Coríntios, além do costume presente nas igrejas cristãs, que naquela época ainda manifestavam os dons espirituais amplamente. Portanto, este texto também não confronta em nada o dom de línguas nos moldes pentecostais.
Compilação Via Lucas Banzoli