Categorias
Teologia

Molinismo

ARMINIANISMO E MOLINISMO EM DIÁLOGO (PARTE 1).

Recentemente o cenário teológico arminiano em Angola tem feito um avanço muito significativo, e sem dúvida um dos maiores marcos foi a propagação da exploração de diferentes formas de Arminianismo e nesta plataforma embora correctamente o Molinismo não é visto como uma variação Arminiana, ele é visto como um elemento para diálogo. Este presente artigo terá o mesmo objectivo, de colocar ambas linhas de pensamento em diálogo, mas para isto, em primeira instância se buscará definir de forma introdutória o que é o arminianismo e o molinismo, e em seguida veremos o diálogo entre estas duas correntes nos escritos de Arminius.

A definição de um sistema de pensamento acaba trazendo à tona a identidade do próprio sistema, e quando se quer definir arminianismo as coisas não são assim tão lineares. O sistema teológico conhecido como arminianismo se sustém nos pensamentos do teólogo reformado Jacob Arminius (1559-1609), porém, o que se vê é que dentro do arminianismo assim como em outros sistemas de pensamento como o Calvinismo há uma série de ramificações, como por exemplo o arminianismo wesleano, arminianismo reformado, provisionismo, e arminianismo clássico. Ao meu ver parece que as ramificações do arminianismo acabam concordando em boa parte com as teses do arminianismo clássico, portanto neste artigo arminianismo será definido a luz do arminianismo clássico*, isto é, o arminianismo é um sistema teológico-soterologico que sustenta o FACTS como acrônimo (i.e. livres pela graça para crer, expiação para todos, eleição condicional, depravação total e segurança em Cristo).

O molinismo por sua vez foi concebido pelo monge jesuíta Luís de Molina (1535-1600) que buscou manter intacta a liberdade humana em um mundo governado por um Deus que realiza os seus propósitos por meio dos eventos que neste se sucedem. Para tal Molina concebe o conhecimento de Deus como um compêndio de três momentos lógicos (i.e. conhecimento natural, médio e livre). Embora que o trabalho de Molina tenha uma inclinação de articulação muito mais filosófica, todavia, a teologia molinista sustenta o ROSES como acrônimo (i.e. depravação radical, graça triunfante, eleição soberana, vida eterna, e redenção singular). Agora que temos as definições introdutoras voltemos a nossa atenção para o diálogo entre as duas correntes.

Concernente ao diálogo entre as duas correntes de pensamento, apenas olharemos para o relacionamento delas na pessoa de Arminius, por duas razões:

(1) Sendo Luís de Molina contemporâneo de Arminus e já envolvido no debate sobre graça que se desencadeava entre os Jesuítas e os Dominicanos, é de se esperar que de alguma maneira as contribuições de pessoas como Molina e Francisco Suáres fossem tomadas em conta;

(2) Olhar para Arminius nos ajudará a ver o quanto do molinismo o arminianismo bebeu a fim de podermos avaliar possibilidades ou impossibilidades de reconciliação dos sistemas.

A interação entre o pensamento teológico de Arminius e as contribuições de Molina foram exploradas em alguma profundidade em obras de Arminius como Private disputation, Colhatio (uma interação entre Francisus Junius e Arminius) e De Nature Dei (no capturo sobre o Conhecimento Divino). Oque se pode notar nestas obras é que:

1. Arminius estava consciente da contribuição de Molina e inclusive traz á tona sua contribuição admitindo que a mesma já era comum dentre alguns estudiosos. Isto não demostra que necessariamente Arminius fora influenciado por Molina, mas demostra que Arminius não era ignorante quanto às contribuições de seus contemporâneos:

” Os escolásticos também dizem que um tipo do conhecimento de Deus é natural e necessário, outro livre e um terceiro médio. Conhecimento natural ou necessário é aquele pelo qual ele entende a ele mesmo e todas as possibilidades. Conhecimento livre é aquele pelo qual ele conhece todo outro ser (ou coisa?) atualmente existente. Conhecimento médio é aquele pelo qual ele conhece se isto acontecer então aquilo se sucede” [1]

2. Arminius de vez em quanto parece usar uma linguagem muito molinista em seu argumento contrastando a ideia de mundos possíveis e mundo atual, admitindo assim como Molina que dentre as muitíssimas possibilidades e a atualidade está apenas a vontade de Deus. Vontade esta que quando actualizada acarreta fortes implicações na questão de predestinação, salvação e existência como um todo.

“Porque o acto da vontade de predestinar e o decretar fica em pé entre os possíveis a serem criados e os que hão de ser criados, entre os possíveis a serem salvos e os que hão de ser salvos, por este acto o número de possíveis a serem salvos e possíveis a serem criados é contrastado pelo reduzido em número dos que hão de ser salvos e dos que hão de ser criados” [2]

3. Arminius parece por vezes reclinar na teoria molinista para suster melhor o seu caso. Neste específico exemplo abaixo, parece que Arminius tal qual Molina se reclina no conhecimento médio como base divina para as questões que lhe dão com a liberdade de escolha das coisas criadas. Este reclinar sobre uma almofada filosófica aparenta confortar o corpo teológico da teologia do próprio Arminus.

“O conhecimento de Deus que… é chamado de inteligência simples, natural ou necessário, é a causa de todas as coisas por meio de prescrição e direção, e a esta é adicionada a ação da vontade e poder, embora que é necessário que o conhecimento médio intervenha nas coisas (questões?) que dependem da liberdade de escolha das coisas criadas” [3]

Portanto, por meio dos escritos de Jacob Arminius pôde-se notar que ele não estava ignorante a contribuição de Molina e sua influência no universo teológico, por vezes usava linguagem muito característica ao pensamento de Molina aparentando acariciar consigo algumas das implicações, e por último, às vezes parece reclinar sobre a filosofia molinista para sugerir o corpo de sua teologia. Porém, tal como Arminius alguns teólogos aceitam a contribuição e linguagem molinista sem necessariamente serem molinista.

Logo, por molinista queremos dizer apenas alguém que aceita a ideia de Molina sobre conhecimento médio, mas não abraça a totalidade de suas implicações, então Arminius pode ser chamado de molinista neste aspecto, alguns teólogos chegam até a dizer que Arminius foi o primeiro “molinista protestante” e portanto seria a porta de entrada e florescer do molinismo no protestantismo[4]. Mas se por molinista alegamos alguém que abraça não somente a ideia e linguagem de Molina mas suas implicações em totalidade então teríamos insuficientes informações para julgar Arminius neste aspecto. Por esta razão no cenário contemporâneo os teólogos divergem quanto a conclusão do diálogo entre Molinismo e Arminianismo, alguns acham que o diálogo pode acabam com um fecho de “cooperação”, “suprimento mútuo” entre as duas correntes e outros acham que não há outro desfecho senão a impossibilidade de caminharem juntos. No próximo artigo exploraremos melhor estas duas possibilidades.

Referências
———————————————
1. Arminius, Jacob. De Nature Dei: Thesis 43.
2. Arminius, Jacob. Examen thesium Gomari, 34 (Works 3:554)
3. Arminius, Jacob. Disputatio Publica; 4:45.
4. Olson, Roger E. Are Arminian Theology and Middle Knowledge Compatible?.

#Botelho.

#SOCIEDADE_ARMINIANA_ANGOLANA

Deixe um comentário