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Por que não creio na graça comum?Lucas Martins1 day ago·6 min read

“Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8.36)
Somos salvos pela graça!
O doce som da maravilhosa graça chegou até os nossos ouvidos, penetrou as profundezas do nosso coração e nos tirou da lama do pecado.
Somos salvos pela graça, não pela compreensão de detalhes teológicos acerca da graça. Isso, porém, não anula a importância de refinarmos continuamente as nossas concepções à luz da Bíblia.
Por exemplo, é claro na Bíblia que somos salvos pela graça (Efésios 2), mas de que maneira essa graça atua nos seres humanos?
Estudiosos calvinistas costumam fazer uma distinção interessante entre “graça comum” e “graça especial”, que gostaria de explicar primeiro antes de mostrar qual a minha perspectiva.
O que é a graça comum?
Wayne Grudem (aqui) apresenta uma definição bastante didática:
“Graça comum é a graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação”.
Essas bênçãos não-salvíficas estão na esfera física (“a graça comum de Deus provê comida e material para roupa e abrigo”), na esfera intelectual (“toda ciência e tecnologia desenvolvida pelos não-cristãos é resultado da graça comum”), na esfera moral (“pela graça comum Deus também refreia as pessoas de serem tão más quanto poderiam”), na esfera da criatividade, na esfera social e política etc.
Grudem também diz:
“Os descrentes muitas vezes recebem mais graça comum que os crentes — eles podem ser mais habilidosos, trabalhar com mais esforço, ser mais inteligentes, mais criativos ou ter mais dos benefícios materiais desta vida para desfrutar”.
Porém, logo em seguida isso é qualificado:
“Isso não indica de forma alguma que eles são mais favorecidos por Deus no sentido absoluto ou que eles vão ganhar qualquer coisa relativa à salvação eterna, mas significa somente que Deus distribui as bênçãos da graça comum de vários modos, muitas vezes concedendo bênçãos bastante significativas a descrentes (…). Mesmo uma porção excepcional de graça comum não significa que quem a recebe será salvo”. (grifo meu)
É aí que entra a distinção entre “graça comum” e “graça especial”. Enquanto a primeira se refere apenas a benefícios materiais que são dados a todos, a última se refere às bençãos salvíficas que só são dadas àqueles que foram eleitos.
Eu concordo com Grudem (e com os calvinistas de maneira geral) de que Deus abençoa a todos independentemente se são crentes ou descrentes. Inclusive, é baseado nisso que eu acredito que podemos apreciar muito do que não cristãos tem produzido em termos de cultura e ciência. Tudo de bom que vemos no mundo provém da graça de Deus.
Porém, vejo três problemas na forma como essa ideia é geralmente apresentada pelos calvinistas:
A oposição “graça comum vs. graça especial” me parece conter uma falácia de falsa dicotomia.
Essa falácia ocorre quando alguém apresenta dois conceitos (supostamente opostos) como se eles fossem as únicas opções disponíveis dentro de um determinado contexto. Por exemplo, na Política, quando alguém diz coisas como: “ou você é petista, ou você é bolsonarista”.
Um calvinista geralmente acredita que, em se tratando da relação divina com os seres humanos, ou Deus manifesta a graça comum, ou Deus manifesta a graça especial.
Eu creio que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os seres humanos” (Tito 2.11). Não apenas a graça comum, mas a graça salvadora. Não apenas a alguns seres humanos, mas a todos. Existe uma terceira via (rsrs).
2. A oposição “graça comum vs. graça especial” me parece conter uma falácia ad hoc.
Sabe criança quando muda as regras de uma brincadeira no meio do jogo só porque começou a perder? É mais ou menos isso. Em Filosofia, uma hipótese ad hoc (“com o fim de”) é um artifício teórico para salvar uma teoria de ser falseada, sendo que este artifício não faz parte do argumento original.
Essa forma de argumentar é enganosa porque a preocupação principal não é buscar a verdade, mas maquiar a teoria para blindá-la de críticas possíveis.
A oposição “graça comum vs. graça especial” é invocada por alguns calvinistas quando são inquiridos sobre o amor de Deus pelos perdidos. Como essa teoria não traz em si mesma nenhuma definição de amor, fica parecendo que ela foi invocada de modo arbitrário sem relação direta com a pergunta. Geralmente, eu tento achar um consenso com o calvinista sobre uma definição de amor (por exemplo, “amar é desejar e buscar o bem máximo de uma pessoa tanto quanto se possa apropriadamente fazer”) e então argumento que a “graça comum” não é bem uma prova de amor de Deus pelos perdidos, posto que o bem máximo de uma pessoa está em ter comunhão com Deus e a “graça comum” não propicia isso a um indivíduo.
3. A oposição “graça comum vs. graça especial” me parece conter um eufemismo.
Eufemismo é uma figura de linguagem utilizada para suavizar partes menos agradáveis de um discurso. Um exemplo frequente é quando um deputado diz a outro “Vossa Excelência faltou com a verdade!”, quando na verdade ele gostaria de dizer “seu mentiroso!”.
Um calvinista poderia apresentar a “graça comum” como um prêmio de consolação dado a quem vai ser condenado eternamente no fogo do inferno: “Deus não quis perdoar seus pecados e te dar felicidade eterna, mas pelo menos você ouviu Tom Jobim”. Falando assim, não parece uma ideia legal, mas se você apresenta como “bênçãos inumeráveis que não são parte da salvação” ou como “bênçãos bastante significativas”, então tudo parece mais bonito.
A graça generosa de Deus: uma perspectiva arminiana
A graça é de Deus. Junto com os calvinistas, eu creio que Deus é soberano e pode fazer tudo que quiser (Sl 115.3). Porém, o que Ele revelou que quer fazer? Para mim, esse é o ponto da discussão. Deus se revelou como um Ser generoso, amoroso, compassivo, misericordioso, galardoador daqueles que O buscam, justo, santo, perfeito em todas as suas obras. Nós só podemos estar em uma comunhão com Ele porque Ele mesmo se revelou a nós primeiro.
A graça é imprescindível. Sem ela, não podemos caminhar com Deus. Sem ela, não cremos no evangelho. Sem ela, não podemos parecer com Cristo. Jesus diz: “ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair” (João 6.44). Essa atração graciosa de Deus, que precede qualquer resposta humana de fé, foi chamada por Santo Agostinho de graça preveniente (“que vem antes”).
A graça é salvadora. A graça de Deus é o próprio Espírito Santo agindo para convencer o mundo (Jo 16.8), abrindo nossos corações (At 16.14), conduzindo-nos bondosamente ao arrependimento (Rm 2.4) e dispondo-nos em lugares onde possamos encontrá-Lo (At 17.27). Paulo escreve que “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens…” (Tito 2.11), o que nos leva ao próximo ponto.
A graça é universal. A Bíblia não diz que Deus derramou uma “graça comum” (não-salvífica) a todos enquanto reservou sua graça salvadora aos eleitos. A atração divina não se estende apenas aos eleitos: em João 12.32, Jesus diz: “e eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. Assim como em Adão todos pecaram, em Cristo todos recebem graça sobre graça (Rm 5.18). Deus deseja salvar a todos (1Tm 2.3–6). Parafraseando Abraham Kuyper, não há uma pessoa neste mundo acerca da qual Cristo não possa dizer: quero salvar! Mas eu não acredito que todos serão salvos. Isso seria universalismo. Há outro aspecto da graça que explica isso.
A graça é resistível. Isso significa que a forma como Deus escolheu agir nas pessoas é tal que elas são libertas para crer ou para rejeitar. A Bíblia está cheia de exemplos de pessoas que desprezaram a graça divina que lhes foi outorgada, tanto no Antigo Testamento (Is 5.1–7) quanto no Novo Testamento (Mt 23.37; Lc 7.30; At 7.51–53). A salvação é pela graça, mediante a fé (Ef 2.8, Jo 3.16–18).
A graça é generosa. “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Sl 145.9). Eu duvido muito que Deus, podendo escolher um plano que refletisse sua essência de amor e justiça, optasse por se contentar apenas em fornecer bênçãos temporárias aos seres humanos. A boa notícia é que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” e “Cristo entregou a si mesmo como resgate por todos (1Tm 2.4–6).
Por que eu não creio em uma graça comum?
Eu não creio em uma graça comum porque Deus se alegra em buscar e salvar o perdido, não apenas em dar bênçãos materiais para ele. Há festa no céu quando o pecador pela graça se arrepende, e não apenas quando ele (também pela graça) consegue, sei lá, compor uma sinfonia ou construir uma casa.
Que adiantaria ganhar o mundo inteiro e perder a comunhão com Deus, que é o bem mais importante? Que adiantaria ganhar toda a “graça comum” de Deus e perder a sua alma?


Lucas Martins
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SAMUEL FALOU COM SAUL OU FOI UM ESPÍRITO DEMONÍACO?

Sobre a Necromancia de Saul.

A crônica de 7-25 fora escrita por uma testemunha ocular: logo, por um dos servos de Saul que o acompanhara à necromante (7, 8). Frequentemente, esses servos eram estrangeiros (21.7; 26.6; 2 Sm 23.25-39) e quase sempre supersticiosos, crentes no erro (7) – razão por que o seu estilo é tão convincente. Esta crônica, que é parte da história de Israel, pela determinação divina, entrou no Cânon Sagrado. E deve estar lá, como lá estão os discursos dos amigos de Jó (42.7), as afirmações do autor de “debaixo do sol” (Ec 3.19; 5.18; 9.7, 9, 10; etc.), a fala da mulher de Tecoa (2 Sm 14.2-21), etc. – palavras e conceitos humanos. (Infelizmente, esta crônica é interpretada por muitos sob o mesmo ponto de vista do servo de Saul). Analisando-se o caso, não negamos a sinceridade da mulher (11-14): também a moça de At 16.16-18 foi sincera. Nem tão pouco recorremos à interpretação parapsicológica (que é possível), mas diretamente à Bíblia que, em si mesma, tem os argumentos necessários, para desmentir as afirmações do servo de Saul. Antes, porém, vejamos a palavra médium (6, heb ob), que é traduzida em outras versões por “espírito adivinhador”, ou “espírito familiar” e no texto grego (LXX) por (engastrimuthos) “ventríloquo” (um de fala diferente), palavra que indica a espécie de pessoa usada por um desses “espíritos”.

1) Argumento Gramatical (6)… o Senhor… não lhe respondeu. O verbo hebraico é completo e categórico. Na situação presente de Saul, Deus não lhe respondeu, não lhe responde e não lhe responderá nunca. O fato é confirmado pela frase: “…Saul… interrogara e consultara uma necromante e não ao Senhor…”. (1 Cr 10.13-14).

2) Argumento Exegético: (6): Nem por Urim – revelação sacerdotal (ver 14.18); nem por sonhos – revelação pessoal; nem por profetas – revelação inspiracional da parte de Deus. Fosse Samuel o veículo transmissor, seria o próprio Deus respondendo, pois Samuel não podia falar senão pela inspiração. E, se não foi o Senhor quem falou, não foi Samuel.

3) Argumento Ontológico: Deus se identifica como Deus dos vivos: de Abraão, de Isaque, de Jacó, etc. (Êx 3.15; Mt 22.32). Nenhum deles perdeu a sua personalidade, integridade ou superego. Seria Samuel o único a poluir-se, indo contra a natureza do seu ser, contra Deus (6) e contra a doutrina que ele mesmo pregara (15.23), quando em vida nunca o fez? Impossível.

4) Argumento Escatológico: O pecado de Samuel tornar-se-ia mais grave ainda, por ter ele estado no “seio de Abraão” e tendo recebido uma revelação superior e um conhecimento mais exato das coisas encobertas, e, por não tê-las considerado, nem obedecido às ordens de Deus (Lc 16.27-31). Mas Samuel nunca desobedeceu a Deus (12.3-4).

5) Argumento Doutrinário: Consultar os “espíritos familiares” é condenado pela Bíblia inteira: (ver 28.3). Fossem os espíritos de pessoas, e Deus teria regulamentado a matéria, mas como não são, Deus o proibiu. Aceitando a profecia do pseudo-Samuel, cria-se uma nova doutrina, que é a revelação divina mediante pessoas ímpias e polutas. E nesse caso, para serem aceitas as afirmações proféticas, como verdades divinas é necessário que sejam de absoluta precisão; o que não acontece no caso presente (Vejam como são precisas as profecias a respeito de Cristo: Zc 9.9 e Jo 12.15; Sl 22.18 e Jo 19.24; Sl 69.21 e Jo 19.28-29; Êx 12.46; Nm 9.12; Sl 34.20 e Jo 19.36; Zc 12.10; Jo 19.37; etc.).

6) Argumento profético (Dt 18.22): As profecias devem ser julgadas (1 Co 14.29). E essas, do pseudo-Samuel, não resistem ao exame. São ambíguas e imprecisas, justamente como as dos oráculos sibilinos e délficos. Vejamos:

a) Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (28.19): A profecia é de estilo sibilino e sugeria que Saul viria a ser supliciado pelos filisteus. Mas o fato é que Saul se suicidou (31.4), e, veio parar nas mãos dos homens de Jabes-Gileade (31.11-13). Saul apenas passou pelas mãos dos filisteus. Infelizmente, o pseudo-Samuel não podia prever esse detalhe. (Vejam como são precisos os detalhes acima a respeito da pessoa de Cristo).

b) Não morreram todos os filhos de Saul (“… tu e teus filhos”, 28.19), como insinua essa outra profecia obscura: Ficaram vivos pelo menos três filhos de Saul: Is-Bosete (2 Sm 2.8-10), Armoni e Mefibosete (2 Sm 21.8). Apenas três morreram, como indicam clara e objetivamente as passagens seguintes: 1 Sm 31.2, 6 e 1 Cr 10.2, 6.

c) Saul não morreu no dia seguinte (“… amanhã… estareis comigo”, 28.19): Esta é uma profecia do tipo délfico, ambígua. Saul morreu cerca de dezoito dias depois (ver notas de 30.1, 10, 13, 17; 2 Sm 1.3). Citar em sua defesa Gn 30.33 e Êx 13.14 e afirmar que a palavra hebraica mahar, “amanhã”, aqui, é de sentido indefinido, é torcer o hebraico e a sua exegese, pois todos vão morrer, mesmo, em “algum dia” no futuro; isto não é novidade.

d) Saul não foi para o mesmo lugar de Samuel (“… estareis comigo”, 28.19). Outra profecia délfica. Interpretar o “comigo” por simples “além” (sheol), é tergiversar. Samuel estava no “seio de Abraão”, sentia isso e sabia da diferença que existia entre um salvo e um perdido. Jesus também o sabia, e não disse ao ladrão na cruz, ” …hoje estarás comigo no “além” (sheol), mas sim, no “Paraíso”. Logo, Samuel não podia ter dito a Saul, que este estaria no mesmo lugar que ele: no “seio de Abraão”. Se Samuel tivesse desobedecido a Deus (28.16-19), passaria para o inferno, para estar com Saul? Ou então, Saul, ainda que transgredindo a palavra de Deus e consultando à necromante (1 Cr 10.13), passou para o Paraíso, para estar com Samuel? Inacreditável.

Solução: – Quem respondeu a Saul? Sugerimos a seguinte possível explicação A Bíblia fala de certos “espíritos”, sua natureza e seu poder (Êx 7.11, 22; 8.7; At 16.16-18; 2 Co 11.14-15; Ef 6.12). São os anjos maus. Do mesmo modo fala de anjos que acampam ao nosso redor e nos guardam (Sl 34.7; Mt 18.10; Lc 15.10; etc.). São os anjos bons. São dois, os “secretários” (senão mais) que nos acompanham durante a vida toda; um bom e outro mau. Anotam tudo e sabem tudo a nosso respeito. Depois da morte, o anjo bom leva o nosso livro-relatório, diante de Deus, pelo qual seremos julgados (Ap 20.12). Por sua vez, o anjo mau assume a nossa identidade e representa-nos no mundo, através dos médiuns. Onde revela o nosso relatório com acerto e “autoridade”. É por isso que Paulo fala da luta que temos contra “as forças espirituais do mal” (Ef 6.12). E é pela mesma razão que Deus proíbe consultas aos “mortos” (Is 8.19, 20), porque estes são falsos (Dt 18.10-14). Caso fossem espíritos humanos, provavelmente, Deus não proibiria a sua consulta, apenas regulamentaria o assunto para evitar abusos. Deus, porém, proíbe o que é dissimulação e falsidade.

1 Samuel 28.7-25 – nota de estudo Bíblia Shedd, páginas 430, 431

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OS 5 PONTOS DO ARMÍNIANISMO CLÁSSICO EM ARMÍNIO

DEPRAVAÇÃO TOTAL
“Confesso que a mente de um homem carnal e natural é obscura e sombria, que seus afetos são corruptos e desordenados, que a sua vontade é obstinada e desobediente, e que o próprio homem está morto em pecados”


FONTE: ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 406.

ELEIÇÃO CONDICIONAL
“[…] Deus não pode ‘amar previamente e considerar, afetuosamente, como seu’, a nenhum pecador, a menos que Ele o conheça previamente em Cristo, e o considere um crente em Cristo.”


FONTE: ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Vol. 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 303.*

EXPIAÇÃO ILIMITADA
“Cristo também morreu por todos, sem nenhuma distinção entre eleitos e reprovados. “


FONTE: ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Vol. 3. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 425.

GRAÇA RESISTIVEL
“Por que as representações da graça que as Escrituras contêm são descritas como podendo ser resistidas (At 7.51) e recebidas em vão (2 CO 6.1); assim, é possível para o homem evitar ceder o seu assentimento à graça, e recusar toda cooperação com ela (Hb13.15; Mt 23.37; Lc 7.30)”


FONTE: ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 209.

PERSEVERANÇA DOS SANTOS
“O meu sentimento a respeito da perseverança dos santos é que as pessoas que foram enxertadas em Cristo, pela fé verdadeira, e assim têm se tornado participantes de seu Precioso Espírito vivificador, dispõe de poderes suficientes [ou] forças para lutar contra Satanás, contra o pecado, contra o mundo e sua própria carne, e para obter vitória sobre esses inimigos, mas não sem a ajuda da graça do mesmo Espírito Santo.”


FONTE: ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. Vol. 1. Rio de Janeiro: CPAD, 2015, p. 232.

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Uma Revisão da fundação do Calvinismo Agostiniano

Uma revisão da “Fundação do Calvinismo Agostiniano” do Dr. Ken Wilson, pelo Pastor Rudolph P. Boshoff

Introdução:

O Dr. Ken Wilson resumiu sua tese de doutorado intitulada: “A conversão de Agostinho do livre arbítrio tradicional para o ‘livre arbítrio não-livre’: uma metodologia abrangente” (Mohr Siebeck 2018) em sete capítulos facilmente legíveis. Wilson afirma que os primeiros Padres Cristãos (95-400 EC) antes de Santo Agostinho de Hipona (386-411 EC) sustentavam um “livre arbítrio libertário” e uma escolha livre na salvação. Agostinho mais tarde reverteu a um então pagão, “livre arbítrio não-livre”, ou, como Wilson o chama, “determinismo unilateral divino de destinos eternos (pg.1).” Wilson conclui que o agostiniano-calvinismo não é uma dedução bíblica essencial, mas sim formulada por uma influência do “sincretismo pagão (pg.2)”.

Capítulo 1:

Wilson começa definindo essas filosofias influentes como ‘Estoicismo, Neoplatonismo, Gnosticismo e Maniqueísmo’, que deram vida à teologia posterior de Agostinho, cunhando o que Wilson descreve como “predeterminação unilateral divina dos destinos eternos dos indivíduos” ou “DUPIED” (pág. 5) em suma. Wilson menciona que para os estóicos, havia uma liberdade assumida que, em última análise, estava “escondida dentro de uma mera fachada de“ livre arbítrio (Pg.7) ”. Para os neoplatônicos, uma escolha livre significa que há uma necessidade de restauração “por infusão divina para restaurar a vontade (pág. 9)”. Para os gnósticos, “todas as obras são predestinadas, a disciplina e a abstinência não têm efeito, e os eleitos são salvos por saberem que são salvos”. Por último, para os maniqueus, a “‘vontade escravizada’ do homem não pode escolher – é condenada até que seja liberada unilateralmente” pela própria iniciativa de Deus (pág.14). Em suma, Wilson observa que todas essas filosofias “requerem que o ser divino desperte unilateralmente uma“ alma morta ”que então só pode responder à pessoa divina (pág.16).”

Em conclusão, Wilson observa (pg.17-18) que todas essas filosofias: “requerem microgestão divina”, “substituem o resíduo judeu e cristão ‘imago Dei’,” ensinam humanidades que ‘livre arbítrio’ foi destruído ou morreu “,” um infusão unilateral de graça, fé e / ou amor. ” Todas essas pressuposições “providência microgerenciada” merecem aqueles que são “eleitos e divinos”.

Capítulo 2:

Wilson afirma que os primeiros Padres Cristãos (95-400 dC) afirmaram unanimemente “predeterminação divina eterna relacional”. Deus escolheu ou elegeu pessoas por Sua presciência de sua livre escolha individual. O que é crítico na definição de Wilson é que ele afirma que todos os Padres Cristãos antes de Agostinho tinham essa definição de “predestinação” (pág.19). Wilson então dá amplos exemplos dos “Padres e Apologistas Apostólicos (95-180 EC)” na Epístola a Barnabé (100-120 EC), A Epístola de Diogneto (120-170 EC), Justin Mártir e Tatian (pág. .21), Teófilo, Atenágoras e Melito (pág.22) e “Autores Cristãos (180-250 DC)” como Irineu de Lyon (pág.24), Clemente de Alexandria e Tertuliano (pág.26), Orígenes de Alexandria (pág.27) e Cipriano e Novaciano (pág.29). Alguns notáveis ​​autores cristãos em uma dispensação posterior (250-400 EC), Hillary de Poitiers (pg.30), os Padres da Capadócia: Gregory Nazianzus, Basílio de Cesaréia, Gregory Nyssen (pg.31); assim como Metódio, Teodoro e Ambrósio, todos defendiam essa definição de predestinação. Wilson conclui que por centenas de anos antes de Agostinho, “o amoroso Deus cristão permitiu que os humanos exercessem seu livre arbítrio dado por Deus (pág. 35).” Claramente, essa não é uma nova perspectiva pela qual Wilson está defendendo e estudiosos contemporâneos reconheceram esses elementos que influenciaram os primeiros Padres Cristãos também. O teólogo George Park Fisher escreveu:

“Em harmonia com os pontos de vista anteriores quanto à liberdade e responsabilidade humanas, a predestinação condicional é a doutrina inculcada pelos Padres Gregos.” [1]

Há uma suposição geral por alguns estudiosos calvinistas de que o t.u.l.i.p. O sistema era evidente na primeira dispensação cristã [2] (90-400 dC), especialmente do notável estudioso John Gill, mas após um exame mais minucioso do uso de alguns desses pais anteriores, essa suposição parece vacilar. [3] O erudito puritano C. Matthew McMahon também dá um excelente relato do “calvinismo” de Agostinho em sua própria tese de doutorado [4] e uma conversa com a publicação de Wilson será definitivamente um esforço solene se houver a possibilidade de uma conversa. Em minha própria opinião, afirmo o que o erudito leigo Jacques More observou, quando assume que os primeiros Padres não explicaram enfaticamente os cinco pontos do Calvinismo e qualquer noção desse tipo é apenas um tiro no escuro. Ele escreve:

“Recebi uma carta de um crente da predestinação incondicional que afirmava: ‘Até Agostinho, ninguém duvidava da visão calvinista que ele propôs, então não foi até ser questionado que ele teve que escrever em detalhes, assim como todos os grandes credos foram escritos em defesa da fé, quando vários hereges surgiram pensando que sabiam disso. ”Eu entendo o forte sentimento que este irmão cristão tem ao defender o que ele acredita. É triste, no entanto, uma vez que para mim isso parece mais um desejo de acreditar do que uma leitura das evidências, e o objetivo deste folheto é compartilhar algumas das indicações claras de que a igreja primitiva não tinha incondicional predestinação como um credo ”. [5]

Capítulo 3:

Neste capítulo, Wilson tenta mostrar que a teologia tradicional anterior de Agostinho (386-411 dC) visava refutar qualquer compreensão maniqueísta de ‘predestinação e livre arbítrio (pág.37).” Acho que Wilson está certo em que Agostinho colocou um alto imposto sobre o livre arbítrio, defendendo a compreensão de Deus contra qualquer causal determinista evidente nas filosofias gnósticas e maniqueístas (pág.39). Quando você lê Agostinho, eu concordo, nenhum dos posteriores de Agostinho, “determinismo unilateral divino gnóstico-maniqueísta”, pode ser encontrado nos primeiros 25 anos (pág. 43-44), exceto em dois casos (cf. “Lib. Arb.3.47 -54 (No Livre Arbítrio) ”e“ A Carta ao Bispo Simpliciano ”). O renomado estudioso Richard W. Muller faz uma excelente avaliação dos primeiros Padres Cristãos até Agostinho e mostra uma clara diferença em suas suposições teológicas sobre a soberania e presciência de Deus. Muller escreveu;

“Na tradição anterior à carta de Agostinho a Simplician, os escritores cristãos fundamentaram a Soberania de Deus na presciência de Deus.”

O que fica claro na tese de Muller é que os Padres pré-agostinianos acreditavam que Deus predestinou a humanidade informada por Seu conhecimento prévio do livre arbítrio do homem. Uma definição agostiniana de “predestinação” introduziu o fato de que Deus elege alguns homens com base em Sua vontade. Esta é uma diferença crucial com inúmeras implicações.

Capítulo 4:

Wilson mostra que Agostinho reverteu a sua visão anterior de “livre arbítrio não-livre” (pág.58) em 412 EC por causa de seu conflito com Pelágio (pág.57). Quando Pelágio o desafiou porque a Igreja batiza crianças, Agostinho concluiu que as crianças foram batizadas “por causa de sua culpa inerente (reatus) do primeiro pecado de Adão (pág. 58).” Agostinho reconhecidamente confiou no conceito maniqueísta de “incapacidade total” em crianças por causa de sua culpa inerente, precisando da escolha unilateral de Deus para a verdadeira liberdade de vontade (pág.59). Wilson cita Ballock (1998), observando que “Agostinho admitiu ter abandonado a secular doutrina cristã da livre escolha humana” [7], assim como o famoso estudioso Jaroslav Pelikan 8. Wilson conclui,

“Agostinho agora ensina:“ Deus pré-ordena a vontade humana … Deus dá o dom da perseverança a apenas algumas crianças batizadas

(pág.63). ”

Wilson mostra que Agostinho agora sustenta que “somente aqueles eleitos que creram em Cristo tiveram seus pecados perdoados” e não que Cristo morreu por todos, como ele defendeu anteriormente (pg.66). ” Outros estudiosos concordam com Wilson e o distinto estudioso Henry Chadwick (“A Igreja Cristã Primitiva”) observou que os contemporâneos de Agostinho o acusaram de sua influência maniqueísta:

“O bispo Julian de Eclanum expressou que Agostinho estava causando problemas porque ele‘ trouxe seus modos de pensar maniqueístas para a igreja … e estava negando o ensino claro de São Paulo de que Deus deseja que todos os homens sejam salvos ”. [9]

Capítulo 5:

Wilson prossegue ilustrando como Agostinho reverteu a uma interpretação maniqueísta das Escrituras, mostrando que “a fé pessoal não era mais necessária (pg.71)” e “todo homem está … espiritualmente morto e culpado e condenado no nascimento (pg.74) . ” Wilson observou que Agostinho se valeu de escrituras limitadas para validar sua nova doutrina do pecado original [cf. João 3: 5, Rom.5: 12, 1 Tim.2: 4, João 14: 6 e 16:65, Sal.51: 5, Ef.2: 3,8-9]. Em 1 Timóteo 2: 4, Agostinho muda as palavras “a vontade de Deus” para “fornece uma oportunidade” ou, como observa Wilson, Deus fornece “oportunidades diferentes (desiguais) (pág.75)”. Em João 14: 6 e 6:65, Wilson mostra que Agostinho usa essas passagens usando “as interpretações maniqueístas para provar sua nova incapacidade / incapacidade total para a fé humana (pg.76).

Quanto ao Salmo 51: 5, a percepção de Agostinho e dos primeiros Padres da Igreja segue que “todo aquele que nasceu de uma mulher se torna um pecador neste mundo, sem falta (pg.76).” Mas mais tarde (412 EC) Agostinho usou esta passagem para mostrar que “os bebês nascem condenados do pecado de Adão” (pg.76) e o mesmo com Efésios (2: 3 e 2: 8-9), onde Agostinho acrescenta que os bebês nascem “Sob ira e condenação herdada do pecado de Adão sem capacidade de responder a Deus como adultos (pág.77).” Wilson menciona de passagem que Agostinho também ensinou “salvação por procuração” em que a fé de outra pessoa pode salvá-lo “(pg.78).

Capítulo 6:

No Capítulo 6, Wilson agora mostra o determinismo e a predestinação que Agostinho ensinou e como foi “precisamente a maneira pela qual os estóicos, os gnósticos e os maniqueus apresentaram suas versões de determinismo (pg.82).” Wilson, então, mostra os elementos essenciais do estoicismo em que “as almas não têm livre arbítrio …” e “somos livres para escolher apenas o que nossa vontade corrupta determina.” Além disso, para os platônicos, “a providência controla cada minúsculo detalhe cósmico; no entanto, o Um (Deus) fornece liberdade limitada para alguns eventos e pessoas. ” Wilson lamenta, “a teologia posterior de Agostinho incorporou todas essas idéias pagãs” (pg.83-84). A Igreja primitiva sustentava a ideia de que Deus era uma entidade relacional, “relacional e responsiva às escolhas humanas” (pg.86). A Igreja, portanto, rejeitou o “determinismo unilateral” estóico e maniqueísta (pg.87) porque o Deus judaico-cristão “escolheu pessoas para a salvação com base em seu conhecimento prévio das escolhas humanas” futuras “(pg.88).

Capítulo 7:

Wilson chega ao “quando” e “por que” da reversão de Agostinho ao determinismo e reconhece três estágios separados que descrevem os estágios da salvação.

Estágio 1: (386-394 EC) A aceitação de Agostinho do “mérito previsto das obras”. Estágio 2: (395-411 EC) A afirmação de Agostinho de “nenhum mérito previsto das obras, mas somente a presciência de Deus da fé somente.” Estágio 3: ( 412-430 dC) “Predeterminação unilateral divina dos destinos eternos individuais de Agostinho (pág. 91)”.

Wilson acompanha a regressão de Agostinho e comunica dez fatores que influenciaram sua teologia sistemática final (pg.95). Alguns desses pontos podem ser considerados especulativos, mas o fato da mudança percebida de Agostinho em sua teologia me deixa com poucas dúvidas quanto ao seu destino final. Wilson delimitou as razões mais proeminentes para a modificação da teologia de Agostinho para o determinismo ardente, apontando para três elementos-chave: “batismo infantil, estoicismo e maniqueísmo (pg.97).” Estudiosos sérios da História da Igreja e da teologia sistemática não podem deixar de reconhecer uma progressão definida (ou regressão para outros) na teologia de Agostinho ao longo de sua vida, que foi aparentemente influenciada por seu próprio ambiente e desafios contextuais.

Conclusão:

A ideia de que Agostinho adotou ideias de várias filosofias não é nada novo. L.H. Hackstaff em sua introdução a “Santo Agostinho: Sobre a livre escolha da vontade” escreve:

“De fato, não é um exagero muito grande dizer que o neoplatonismo forneceu a Agostinho e aos platônicos cristãos que o seguiram a subestrutura teórica sobre a qual sua teologia foi construída. Parece que Agostinho nunca abandonou a matriz platônica de sua teologia cristã. ”

Da mesma forma, Peter Nathan [10] escreve:

“Durante o curso da vida de Agostinho, os confusos limites entre o cristianismo e o paganismo, e entre a fé e a filosofia, foram redesenhados. Paradoxalmente, isso criou um mundo no qual o paganismo parecia simplesmente desaparecer. ”

Nathan acrescenta:

“A adoção de Agostinho da nova filosofia [dualismo] foi sincera. O novo mundo do dualismo despertou nele o desejo de se retirar da sociedade para uma vida focada na busca do espiritual e, com isso, da verdade que ele acreditava que a filosofia poderia fornecer. ”

Em minha opinião, Wilson está tentando mostrar a influência contemporânea que prejudicou as definições e teologia de Agostinho sobre a soberania de Deus e seu significado de predestinação afastando-se das primeiras comunidades cristãs. Alguns estudiosos tentaram mostrar que há uma disparidade entre Agostinho e o Calvinismo, mas isso é feito examinando as idéias anteriormente defendidas por este pai da Igreja. [11] Outros ministros populares mostraram que João Calvino foi definitivamente influenciado pelas idéias posteriores de Agostinho. [12] Acho que Wilson está tentando recuperar a definição mais antiga que os Padres da Igreja sustentaram sobre a predestinação e a livre vontade do homem como reduzida pela vontade do Deus Soberano. Para encerrar, este livro desafiou minhas concepções como erudito e conferencista sênior de Teologia Sistemática e História da Igreja que está envolvido em tempo integral com dois seminários cristãos onde sempre tentamos estimar os próprios “solas” da reforma.

Selah,

Rudolph P. Boshoff.

Origens:

[1] História da Doutrina Cristã. T&T Clark. Pg.165.

[2] https://www.apuritansmind.com/arminianism/calvinism-in-the-early-church-the-doctrines-of-grace-taught-by-the-early-church-fathers/?fbclid=IwAR3nZ6VWWoFueNQdD7hngKI_2H-QyRqJjk_rq unCe6uHGe21WSc

[3] O escopo deste artigo não examinará os méritos desses supostos conceitos deduzidos.

[4] http://www.puritanpublications.com/store/products/augustines-calvinism-the-doctrines-of-grace-in-augustines-writings-by-c-matthew-mcmahon/

[5] http://jarom.net/greekdad.php

[6] Dados de Abraão: acaso e providência nas tradições monoteístas. Pg.150. Artigo de R.W. Muller “Oportunidade e providência no cristianismo primitivo”.

[7] “Sin” na Encyclopaedia of Early Christianity, New York, NY: Routledge, 1998).

[8] The Christian Tradition: A History of the development of Doctrine, vol.1. University of Chicago Press. Pg.278-280.

[9] A Igreja Cristã Primitiva, Pg.233.

[10] https://www.vision.org/augustines-poisoned-chalice-385

[11] https://www.patheos.com/blogs/justandsinner/calvinists-are-not-augustinian/?fbclid=IwAR2ZFlYVYOt9aDF0B18lZsFwfpsUY7nBllbcolq-x7HGyDs219kzr2PTFv0

[12] https://www.thebereancall.org/content/july-2012-classic?fbclid=IwAR3be3MF3-ldtsbpcQ9KfEzW93ROXS4dpasnzew2pQaXZTJ53d7Wg1w_958

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PRESCIÊNCIA SIMPLES

Uma explicação da presciência simples

Uma explicação da presciência simples
Por Kevin Jackson
No livro Contra o Calvinismo, Roger Olson afirma que o calvinismo prejudica a reputação de Deus, e que ele (não intencionalmente) torna Deus em um monstro moral que é dificilmente distinguível do diabo. Olson não defende que os calvinistas afirmam que Deus é como o diabo. Em vez disso, em sua opinião, isto é a implicação lógica do calvinismo. Esta é uma afirmação forte, mas eu concordo. John Wesley também .
Michael Horton, um calvinista muito amável, e autor do livro A Favor do Calvinismo , fez recentemente uma postagem sobre por que ele acredita que os arminianos incorrem nas mesmas questões de “caráter de Deus” tal como calvinistas. Ele propõe que ” teologias não-calvinistas são tão vulneráveis a respeito desta questão.”  Ele propõe duas perguntas:
Se [no arminianismo] Deus sabia que Adão e Eva iriam transgredir sua lei, por que ele não mudou as circunstâncias para que eles pudessem ter feito uma escolha diferente?
Por que [no arminianismo] Deus criaria pessoas que ele sabia que iriam ser condenadas pelo seu pecado original e atual?
As perguntas de Horton implicitamente reconhecem que o sistema calvinista cria problemas para o caráter de Deus, contudo, ele acredita que essas questões também estão presentes na teologia arminiana. Se os argumentos de Horton atingirem o alvo, eles pareceriam limitar os arminianos a apenas duas opções: 1) Reconhecer que a compreensão arminiana da presciência de Deus torna Deus em um monstro moral da mesma forma que o calvinismo torna, ou 2) rejeitar a possibilidade de que Deus tem presciência exaustiva (teísmo aberto).
Mas há uma terceira opção: presciência simples (a qual chamarei PS). A PS evita as questões do “caráter de Deus” presentes no calvinismo, ao mesmo tempo que sustenta que Deus tem conhecimento exaustivo de todos os eventos desde antes da fundação do mundo.
E se Deus soubesse o que a humanidade faria somente depois que ele tomasse a decisão de nos criar? Isso poderia ser entendido como uma ordem lógica, não por necessidade temporal, visto que Deus é eterno. E se depois que Deus decidiu nos criar, ele não quisesse ou não fosse capaz de voltar atrás dessa decisão? Esta compreensão de presciência não comprometeria o caráter de Deus, porque sua presciência surgiu como resultado da sua decisão de criar. Nem todos os arminianos sustentam a PS, outros sustentam explicações diferentes (como o molinismo). No entanto, a PS provê respostas razoáveis ​​para as perguntas de Horton sobre o caráter de Deus. 
Os adeptos da PS mantém que a presciência de Deus é contingente a nossa existência. Deus sabe o que faremos porque o faremos. O conhecimento de Deus não é a fonte de nosso fazer. Em vez disso, o nosso fazer é a fonte do conhecimento de Deus. Os adeptos da PS acreditam que não faz sentido falar de Deus conhecendo as ações de criaturas que não existem. Também que não faz sentido falar de Deus sabendo o que faríamos em situações diferentes que na verdade não existem. Se uma situação real não existe, não há nada para Deus saber sobre isso.
É um pouco como dizer que Deus sabe o que vai acontecer amanhã, quando o hobbit rouba o pote de ouro do gnomo. Deus não conhece nenhum “fato” como esse. Não há hobbit. Não há gnomo. Não há nada para Deus saber sobre esta situação, apenas um conceito imaginário que não existe.
Os adeptos de PS sustentam que em algum momento Deus tomou a decisão de criar o mundo. Novamente, isto pode ser entendido como uma ordem lógica, não uma temporal. Antes da decisão de Deus de fazer o mundo, não havia nada para ele saber sobre o que a humanidade faria ou não faria. Ele não tinha decidido nos criar. Nós éramos não-existentes. Depois decidir criar o mundo, Deus sabia tudo o que aconteceria – pecado, algumas pessoas acreditando nele, outras o rejeitando. Mas nesse momento nosso mundo foi atualizado, Deus sabia o que faríamos, porque acabaria por fazê-lo. Naquele momento, Deus também sabia o que faria a respeito do pecado e como redimiria a humanidade – enviando Jesus: o próprio Deus em carne. Após decidir criar a humanidade à sua imagem, e nos conceder a capacidade de tomar decisões, e nos conceder uma posição privilegiada, Deus não poderia voltar atrás sua escolha de criar. Ele não poderia fazer com que deixássemos de existir, sem fazer violência ao seu caráter e à sua criação.
Agora, a PS tem algum mistério para isto. Como Deus sabia o que faríamos antes de nós realmente existirmos no tempo? Como Deus poderia decidir em um instante como ele interagiria com a humanidade ao longo de todo o tempo? Como Deus pode ser emocional a respeito da sua criação hoje se já conheceu todos os eventos? Estas são perguntas válidas, mas estou confortável deixando-as no campo do mistério. O mistério é preferível a acreditar que Deus causa o pecado, ou que ele não conhece o futuro.
A ordem lógica da presciência de Deus no calvinismo e no arminianismo funciona assim:
Calvinismo1) Deus meticulosamente decreta o que vai acontecer no mundo que ele pretende criar. 2) Deus cria.
Arminianismo1) Deus decide criar.2) Deus tem conhecimento exaustivo sobre tudo o que vai acontecer.
Enquanto calvinistas e arminianos acreditam que Deus tem conhecimento exaustivo do futuro, só no calvinismo Deus decreta meticulosamente o futuro – e (na visão arminiana) isso é o que o torna responsável pelo mal. No arminianismo, a presciência de Deus é contingente as ações livres futuras das criaturas criadas à sua imagem. Se fizéssemos algo diferente, Deus saberia algo diferente, porque a fonte de sua presciência são as nossas ações eventuais. O arminiano não afirma que Deus sabia que ele condenaria as pessoas antes que ele decidisse criá-las, nem é necessário para nós fazê-lo. Se a fonte da presciência de Deus são as nossas ações, Deus não é culpado pelo mal. Se a fonte da presciência de Deus é através do seu decreto meticuloso, então Deus é responsável por cada pecado que cada pessoa comete. E ele é finalmente responsável pelo mal. Fim de papo!

[Para uma explicação acadêmica da visão de PS, leia God and Time do teólogo Jack Cottrell. Cottrell chama esse conceito de “big bang noético”.]

Fonte: Wesleyan Arminian

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TEMOS LIVRE ARBÍTRIO?

LIVRE ARBÍTRIO OU ARBÍTRIO LIBERTO?

TEMOS LIVRE ARBÍTRIO?

Acreditamos que o Homem não tem livre Arbítrio em si, ou seja ,ele não tem Livre Arbítrio Absoluto, porém ele tem arbítrio liberto,ou seja,em outras palavras,o homem perdeu o livre arbítrio pós queda,e que depois disto ficou totalmente depravado e isso afetou em todas as suas faculdades (Espiritual, Intelectual e Moral), dependendo unicamente e totalmente da Graça de Deus para realizar uma escolha que agrade a Deus no que tange á coisas Espirituais.
Lembrando que o arbítrio liberto apenas os Salvos possuem,do contrário seria pelagianismo.

DEFINIÇÃO ETIMOLÓGICA
Do Grego Ελεοτέρες ;Ελεοτέρος

É a Capacidade de Avaliar uma situação proposta e tomar uma decisão que pode ser contrária ou não á sua natureza.

BIBLICAMENTE FALANDO

O Homem sem a Graça de Deus não pode fazer nenhuma decisão ou escolha contrária á sua natureza corrompida .

Sabemos que Deus fez o homem reto

Eclesiastes 7.29
Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias.

O Texto diz que Deus fez o homem Reto (justo, Íntegro),mas o homem buscou muitas Astúcias.
Do Hebraico a astúcia é a abilidade de enganar.

Relembrando que o Homem sem a Graça de Deus não pode fazer uma decisão contrária á sua natureza corrompida .

Gn 6.5
Gênesis 6:5 E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicára sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente.

Rm 3.9-18
Romanos 3:9 Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado; 10 Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. 11 Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a Deus. 12 Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só. 13 A sua garganta é um sepulcro aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de áspides está debaixo de seus lábios; 14 Cuja boca está cheia de maldição e amargura. 15 Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. 16 Em seus caminhos há destruição e miséria; 17 E não conheceram o caminho da paz. 18 Não há temor de Deus diante de seus olhos.

Vale Ressaltar que versículo 10 deste texto Paulo está extraindo do Salmos de 14.1-7 e Salmos 53.1-6
Ou seja essa mentalidade já era vista no Antigo Testamento.

A Bíblia também diz que não há quem não peque

2 Crônicas 6.36
Quando pecarem contra ti (pois não há homem que não peque), e tu te indignares contra eles, e os entregares diante do inimigo, para que os que os cativarem os levem em cativeiro para alguma terra, remota ou vizinha,

Eclesiastes 7.20
Na verdade que não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque.

NÃO OBSTANTE O HOMEM TEM SUA VONTADE MODULADA DEVIDO Á SUA NATUREZA CORROMPIDA

Rm 7.17-20
17 De maneira que agora já não sou eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim. 18 Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. 19 Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. 20 Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim.

Ou Seja,diante deste texto em que Paulo faz menção do homem não Regenerado,o homem por si só não pode e não tem força alguma Espiritual para buscar a Deus por si só,ele depende totalmente da Graça Previeniente de Deus
que antecede e o capacita libertando o seu arbítrio para que ele possa responder através da liberdade de escolha diante de Deus.

ARMÍNIO
GRAÇA DIVINA E LIVRE-ARBÍTRIO

Está é minha opinião a respeito do LIVRE-ARBÍTRIO DO HOMEM: Em sua condição primitiva, tendo vindo das mãos do Criador, o homem foi dotado com uma porção de conhecimento, santidade e poder, para capacitá-lo a entender, estimar, considerar, desejar e fazer o bem, de acordo com o que lhe foi dado como missão. No entanto, ele não podia realizar nenhum desses atos, EXECETO COM O AUXÍLIO DA GRAÇA DIVINA. Mas em seu estado de descuido e pecado, o homem não é capaz de pensar, nem querer, ou fazer, por si mesmo, o que é realmente bom; pois é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições e desejos, e em todos seus poderes, por Deus, em Cristo, por intermédio do Santo Espírito, para que possa ser corretamente qualificado para entender, estimar, considerar, desejar e fazer aquilo que realmente seja bom. Quando ele é feito participante dessa regeneração ou renovação, considero que, estando liberto do pecado, ele é capaz de pensar, de querer e fazer aquilo que é bom, MAS AINDA NÃO SEM A AJUDA CONTINUADA DA GRAÇA DIVINA.

ARMÍNIO, Jacó. As Obras de Armínio
Volume 1. Editora. CPAD. Pág. 231
TEXTO EM CAIXA ALTA MEU. Madson Junialysson.

OS PAIS DA IGREJA
Como a lista é grande então citarei apenas alguns para não enfadar .

Porquanto Deus pôs em nosso poder o bem e o mal, deu-nos o livre-arbítrio da escolha, e quando não queremos não nos força; quando, porém, queremos, nos abraça” (JOÃO CRISÓSTOMO)

• Agostinho “jovem” (354-430)
“Deus indubitavelmente deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade; mas não lhes tirando o livre-arbítrio, pelo bom ou o mau uso do qual é que poderão ser justamente julgados”

• Teodoreto (393-466)
“Aqueles cuja intenção Deus previu, Ele predestinou desde o princípio. Aqueles que predestinou, Ele chamou e justificou pelo batismo. Os que foram justificados, Ele glorificou, chamando-os filhos (…) Que ninguém diga que a presciência de Deus foi a causa unilateral dessas coisas. Não foi sua presciência que justificou as pessoas, mas Deus sabia o que aconteceria, porque Ele é Deus”

Jerônimo ( 347-4-20)
“Quando nós estamos preocupados com a graça e a misericórdia, o livre-arbítrio é em parte anulado; em parte, eu digo, porque tanto depende dele, que queremos e desejamos, e damos consentimento ao curso que escolhemos. Mas depende de Deus se temos o poder em sua força e com sua ajuda para fazer o que desejamos, e para nosso trabalho e esforço darem resultado”

LIBERDADE DE ESCOLHA NAS ESCRITURAS

São muitos os textos e poderia até colocar em ordem cronológica,porém para evitar enfado colocarei apenas alguns versículos.

Josué 24.15
Se, porém, não agrada a vocês servir ao Senhor, esco­lham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas eu e a minha família servi­remos ao Senhor”.

Deuteronômio 30:19 Os céus e a terra tomo hoje por testemunhas contra vós, de que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe pois a vida, para que vivas, tu e a tua descendência,

Sl 119.30-31
Escolhi o caminho da fidelidade;
decidi seguir as tuas ordenanças. Apego-me aos teus testemunhos,
ó Senhor;
não permitas que eu fique decepcionado.

Gálatas 5.1
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.

Gálatas 5.13
Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à vontade da carne; pelo contrário, sirvam uns aos outros mediante o amor.

1 Cor.6.12
Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. “Tudo me é permitido”, mas eu não deixarei que nada me domine.

Rm 2.6-11Deus
“retribuirá a cada um conforme o seu procedimento”. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal: primeiro para o judeu, depois para o grego; mas glória, honra e paz para todo o que pratica o bem: primeiro para o judeu, depois para o grego. Pois em Deus não há parcialidade.

Rm 6.11-14
Da mesma forma, considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Portanto, não permitam que o pecado continue dominando o corpo mortal de vocês, fazendo que obedeçam aos seus desejos. Não ofereçam os membros do corpo de vocês ao pecado, como instrumentos de injustiça; antes ofereçam-se a Deus como quem voltou da morte para a vida; e ofereçam os membros do corpo de vocês a ele, como instrumentos de justiça. Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão debaixo da Lei, mas debaixo da graça.

E assim sucessivamente

Madson Junialysson.

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GRAÇA PREVENIENTE

Graça preveniente: A influência da soteriologia arminiana e wesleyana no pentecostalismo clássico brasileiro

Pr. Altair Germano

A concepção de graça preveniente norteia a soteriologia pentecostal clássica, que reproduz ou se aproxima da teologia arminiana clássica e da teologia wesleyana.

O arminianismo clássico compreende que Deus oferece graça salvadora a todas as pessoas através do Espírito Santo (1Tm 2.3-4; Tt 2.11), capacitando-as a opor-se à influência do pecado, e possibilitando uma resposta positiva a Deus (Jo 15.26-27; 16.7-11). Deus toma sempre a iniciativa, cabendo ao pecador responder em fé e obediência voluntária (Lc 15; Rm 5.6-8; Ef 2.4-5; Fp 2.12-13). Contudo, os pecadores podem resistir à graça, e continuar no pecado e rebelião contra Deus. A graça de Deus capacita e encoraja uma resposta positiva e salvífica para todas as pessoas, mas ela não é determinante ou irresistível para ninguém (At 7.51). Uma resposta positiva inicial de fé e obediência também não garante a perseverança dos salvos. É possível iniciar um relacionamento genuíno e pessoal com Deus, e depois se afastar Dele, persistindo no mal de sorte que a pessoa, por fim, se perca (Rm 8.12-13; 11.19-22; Gl 5.21; 6.7-10; Hb 6.1-8; Ap 2.2-7). (WALLS, 2014, p. 14.)

As ideias acima estão presentes nas obras de Myer Pearlman (1898-1943), um dos principais teóricos do pentecostalismo clássico no Brasil. Pearlman, educador, teólogo e escritor norte-americano, teve sua obra Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, traduzida e publicada no Brasil em 1959, pelo missionário Lawrence Olson, e adotada como livro-texto de teologia sistemática, no Instituto Bíblico Pentecostal (IBP), no Rio de Janeiro, e no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD, em Pindamonhangaba (SP) (ARAÚJO, 2007, P. 547). Conforme Pearlman:

As Escrituras ensinam constantemente que o homem tem o poder de escolher livremente entre a vida e a morte, e Deus nunca violará esse poder. […] Pode-se resistir à graça de Deus? […] O Novo Testamento ensina, sim, que é possível resistir à graça divina e resistir para a perdição eterna (Jo 6.40; Hb 2.3; 6.46; 10.26-30; 2 Pe 1.10; 2.21), e que a perseverança é condicional dependendo de manter-se em contato com Deus. Note-se especialmente Hebreus 6.4-6 e 10.26-29. (PEARLMAN, 1970, p. 173)

Apesar de ainda não ter uma Confissão de Fé própria, o pentecostalismo clássico brasileiro, através de suas publicações nos órgãos oficiais (jornais, revistas e livros), é basicamente arminiano/wesleyano em sua soteriologia.

A graça preveniente na teologia de Jacó Armínio
O posicionamento de Armínio (1569-1609) sobre a graça preveniente foi registrado em sua Declaração de Sentimentos, onde ele atribui à graça o início, a continuidade e a consumação de todo bem. Para Armínio, a influência da graça é tamanha que um homem, embora regenerado, de forma alguma pode conceber, desejar, nem fazer qualquer bem, nem resistir a qualquer tentação do mal, sem esta graça preveniente e estimulante, seguinte e cooperante. Ele insiste no fato de que é equivocada a ideia que alguns disseminam a seu respeito alegando que uma ênfase exagerada é dada por ele ao livre-arbítrio. E ainda:

Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta questão, “a graça de Deus é uma certa força irresistível”? Isto é, a controvérsia não diz respeito àquelas ações ou operações que possam ser atribuídas à graça, (pois eu reconheço e ensino muitas destas ações ou operações quanto qualquer um) mas ela diz respeito unicamente ao modo de operação, se ela é irresistível ou não. Em se tratando dessa questão, creio, de acordo com as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida. (OLSON, 2013, p. 210).

Após a morte de Armínio, quarenta e seis ministros holandeses elaboraram um documento chamado de “Remonstrância” (protesto), onde reafirmaram os conceitos de Armínio. Em seu Artigo III, enfatiza a depravação total do homem. No Artigo IV se declara a possibilidade da graça preveniente ser resistida.

A graça preveniente na teologia de John Wesley
John Wesley (1703-1791), o grande teólogo e pregador inglês, pai do metodismo, movimento que influenciou o surgimento do pentecostalismo clássico, entendia a salvação do homem nos moldes do arminianismo clássico:

A graça opera diante de nós para nos atrair em direção à fé, para iniciar sua obra em nós. Até mesmo a primeira e frágil intuição da convicção do pecado, a primeira insinuação de nossa necessidade de Deus, é a obra da graça preparadora e antecedente à beira do nosso desejo, trazendo-nos em tempo de afligirmo-nos sobre nossas próprias injustiças, desafiando nossas disposições perversas, de modo que nossas vontades distorcidas gradualmente cessam de resistir ao dom de Deus. (OLSON, 2013, p. 219).

Sobre a ideia de graça irresistível, Wesley não defende tal realidade no que se refere aos aspectos do chamado ou oferta para a salvação, mas ao restabelecimento das faculdades humanas que estabelecem o equilíbrio e responsabilidade individuais. Para ele a graça preveniente não é irresistível, não aniquila a personalidade. A graça é necessária e imprescindível, pois produz no seu um “eu” responsável, e isso se dá em parte pela restauração das faculdades. No princípio do processo da salvação, não há uma graça cooperante, mas uma graça livre, como atividade apenas de Deus (COLLINS, 2010, p. 109).

Conclusão

O chavão evangelístico que diz “dê um passo para Deus que Ele dará dois em sua direção”, não se sustenta à luz do arminianismo clássico, do pensamento wesleyano, nem da própria teologia pentecostal clássica. Tal apelo é norteado pelo arminianismo de cabeça (OLSON, 2013, p. 23.) e arminianismo contemporâneo (WALLS; DONGELL, 2014, p. 64.), que são essencialmente semipelagianos, e que acreditam que o homem não se encontra no estado de depravação total, podendo de alguma maneira tomar a iniciativa de buscar a Deus e de conseguir a sua salvação pessoal.

O arminianismo clássico não defende a ideia de que o homem após a queda não se tornou totalmente depravado, de que pode escolher o bem espiritual, e de exercer fé em Deus de maneira a receber o evangelho e assim tomar posse da salvação para si mesmo (SEATON, 2012, p.4-5).

Toda salvação pessoal é resultado da iniciativa graciosa de Deus, que ilumina o entendimento humano para a verdade do Evangelho, e que afrouxa as rédeas do poder do pecado. Somente a operação da graça preveniente torna o homem capaz de crer e aceitar o dom gratuito de Deus, que é a vida eterna em Cristo Jesus (Ef 2.1-10), ou de livremente rejeitá-lo, tornando-se assim moralmente responsável por tais decisões.

Enquanto escrevo o presente artigo, há uma visível mobilização no pentecostalismo clássico brasileiro, partindo da academia e dos órgãos oficiais das Assembleias de Deus, no sentido de propagar e consolidar o pensamento teológico e soteriológico aqui exposto. Os limites da teologia arminiana/wesleyana no pentecostalismo clássico brasileiro, em sua relação com as demais correntes teológicas, caminham para uma maior clareza e percepção.

Referências bibliográficas
ARAÚJO, Isael de. Dicionário do movimento pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: mitos e realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
PEARLMAN, Myer. Conhecendo as doutrinas da Bíblia. Belo Horizonte: Editora Vida, 1970.
SEATON, W. J. Os cinco pontos do calvinismo. 3.ed. São Paulo: PES, 2012.
WALLS, Jerry; DONGELL. Por que não sou calvinista. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.

Fonte: Teologia Brasileira.com.br.

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OS ARMÍNIANOS PODEM SER MOLINISTAS? VIA PÁLEO ORTODOXO

Robert E. Picirilli

Ouvi dizer que alguns Arminianos tendem a uma visão Molinista da soberania de Deus e da liberdade humana. Talvez a razão seja que os Molinistas dizem que seu propósito é defender a liberdade libertária[1] em um universo governado por um Deus soberano, com a certeza de alcançar Seus propósitos. Nós, Arminianos, acreditamos nessas duas coisas.

O que é Molinismo?

O Molinismo foi concebido por um Jesuíta do século XVI, Luis de Molina, com o propósito expresso de manter a liberdade humana em um mundo providencialmente governado por um Deus que cumpre Seus propósitos em todos os eventos. Molina fez isso definindo o conhecimento de Deus como ocorrendo em três “momentos” logicamente diferentes (não temporalmente diferentes).

Primeiro é o conhecimento necessário (ou natural), que inclui tudo o que Deus sabe simplesmente porque Ele é um Deus onisciente. O que Ele sabe nesta fase inclui “todos os mundos possíveis”, como os filósofos gostam de expressar – tudo o que poderia ser em outras palavras.

O segundo é o conhecimento livre, que inclui o conhecimento de tudo o que é resultante da escolha de Deus – de todos os mundos possíveis – para criar este mundo que realmente existe. (Entenda que um “mundo” neste sentido inclui tudo o que ocorre nele, todas as circunstâncias que surgem.) Visto que este mundo não precisava existir (caso contrário, seria coeterno com Deus), então o conhecimento de Deus sobre isso da mesma forma não teria que existir, e não existiria se Ele não o tivesse criado.

O terceiro é o conhecimento médio. A distinção entre os dois primeiros remonta bem antes de Molina. Ele acrescentou um terceiro “momento” ou fase do conhecimento de Deus que fica logicamente entre o conhecimento necessário e o livre, chamado de conhecimento médio. Isso inclui o conhecimento de Deus de tudo que os seres livres fariam em todos os conjuntos de circunstâncias concebíveis.

Agora, qual é a importância de tudo isso? Segundo Molina: quando Deus decidiu criar este mundo e todas as suas “circunstâncias”, Ele já sabia exatamente o que cada pessoa escolheria livremente em todas as circunstâncias possíveis. A ideia-chave, então, é que Deus não apenas atualizou um mundo, Ele atualizou todas as circunstâncias naquele mundo que Ele sabia que todos iriam responder e “livremente” fazer as próprias escolhas que se ajustariam no plano eterno de Deus. Dessa forma, Deus permanece no controle soberano e Seu plano é totalmente bem-sucedido, mas os seres humanos permanecem livres para escolher entre as opções vivenciais.

À primeira vista, isso pode parecer atraente. Eu mesmo já disse algumas vezes que Deus pode me impedir de trabalhar no meu jardim, mandando chuva, sem violar minha liberdade. Ele pode, é claro, e isso é um exemplo de “conhecimento médio” no trabalho, dizem os molinistas. Mas continue lendo.

Molinismo e a Teologia da Salvação: Um Exemplo Específico

Nos três parágrafos seguintes, resumirei a visão de Kenneth Keathley, conforme explicado em seu livro recente apresentando uma visão Molinista da soteriologia.[2]

Quando Deus atualizou este mundo, usando Seu conhecimento médio de como cada pessoa responderia a todas as circunstâncias possíveis, Ele projetou todas as “circunstâncias” da existência de cada pessoa de tal forma que todas elas respondessem – na sua liberdade libertária – da mesma forma necessária para que Seu plano seja bem-sucedido.

Para os eleitos, Ele incluiu em sua existência o que chamarei de “circunstâncias graciosas” que Ele sabia que eles achariam atraentes e não resistiriam, e que, portanto, os levariam para a salvação. Embora essa graça seja resistível, Deus sabia exatamente como apresentá-la para que eles, embora livres e capazes de fazê-lo, não resistissem. Dessa forma, sua salvação é inteiramente efetuada pela graça de Deus, do início ao fim. Eles “não fazem” absolutamente nada, nem mesmo ao menos escolherem receber a graça. Em todo o processo que os leva a Deus, eles permanecem livres para aceitá-Lo ou rejeitá-Lo, mas certamente O aceitam – acrescento, dadas as circunstâncias em que Ele os colocou.

Para os não eleitos, talvez Deus também os tenha colocado em circunstâncias graciosas às quais eles poderiam responder favoravelmente, embora Ele soubesse que não o fariam. Mas Ele não os colocou em quaisquer circunstâncias graciosas que os levariam a Ele, embora (eu suponho) Ele deve tido conhecimento de tais circunstâncias e poderia tê-las atualizado, mas não o fez. Como é verdade para os eleitos, então, os não eleitos permanecem livres para aceitar ou rejeitar a Deus, mas certamente irão rejeitá-Lo – acrescento, novamente, dadas as circunstâncias em que Ele os colocou (ou não). Assim, sua condenação é inteiramente de sua responsabilidade; Deus de forma alguma o desejou ou causou.

Para que o leitor não pense que interpretei mal a visão de Keathley, incluo aqui suas próprias palavras.

Do repertório de opções disponíveis fornecidas por Seu conhecimento médio, Deus escolhe livre e soberanamente qual [opção] Ele atualizará. … [Ao utilizar seu conhecimento] Deus predestina todos os eventos, mas não de uma forma que viole a liberdade e escolha humana genuína. Deus meticulosamente “põe a mesa” para que os seres humanos escolham livremente o que Ele predeterminou. Lembre-se do exemplo da negação do Senhor por Simão Pedro. O Senhor predisse que Pedro O negaria e pelo uso do conhecimento médio ordenou o cenário com certeza infalível de que Pedro o faria. No entanto, Deus não fez ou causou com que Pedro fizesse o que fez.[3]

Quando Deus fez a escolha soberana de trazer este mundo em particular à existência, Ele tornou certo, mas não causou a destruição de certas pessoas que rejeitariam as ofertas da graça de Deus. De acordo com o Molinismo, nossa livre escolha determina como responderíamos em qualquer ambiente, mas Deus decide em que ambiente realmente nos encontramos.[4]

Deus determina o mundo em que vivemos. Se eu existo em qualquer, tenho a oportunidade de responder ao evangelho ou sou colocado em um cenário onde eu seria graciosamente habilitado a acreditar que são decisões soberanas feitas por Ele. O Molinista afirma que os eleitos são salvos pela boa vontade de Deus.[5]

Avaliação

Uma coisa é Deus usar esse conhecimento em circunstâncias de controle providencial depois que Ele atualizou e projetou o mundo. Sem dúvida, Ele faz tais coisas para “operar todas as coisas juntamente” para o nosso bem (Rom. 8:38) ou para Seus próprios propósitos. Mas é uma coisa totalmente diferente para Ele usar Seu conhecimento dessa forma ao projetar as circunstâncias para nós na criação – antes mesmo de existirmos! – trazendo nossa salvação ou o desenvolvimento de nosso caráter moral.

Indico minha rejeição da abordagem de Keathley com uma analogia.[6] Considere um mestre de xadrez habilidoso, jogando contra oponentes cujas habilidades são muito menores que as dele e cujas tendências ele conhece bem. Ele decide com antecedência quais oponentes vão ganhar e quais vão perder. Ele escolhe seus movimentos com cuidado e os projeta de acordo com seu conhecimento de suas tendências e habilidades. Ao fazer este ou aquele movimento, ele habilmente manobra cada oponente para fazer movimentos livremente que levarão à vitória ou derrota que o mestre do xadrez decidiu com antecedência. E o oponente nunca suspeita de nada!

É assim que vejo a visão Molinista de Keathley de como Deus lida com os eleitos e não eleitos. A meu ver, Keathley faz de Deus um manipulador de seres humanos. Ele conhece suas tendências – mais, Ele sabe exatamente como eles reagirão a qualquer circunstância – e ordena as circunstâncias na própria estrutura do mundo que os levarão à salvação ou os abandonarão para a condenação como Ele quis. Agradeço a insistência de Keathley de que todas as pessoas envolvidas são livres para escolher, mas confesso que essa afirmação soa vazia.

Como Keathley, eu também afirmo que, quando Deus trata as pessoas com benevolência, Ele sabe como elas responderão. Mas ele está dizendo muito mais do que isso: a saber, que Deus, antes de nossa existência, criou o mundo com circunstâncias calculadas para levar os eleitos a Ele e não levar os não eleitos. Que tipo de “liberdade” criacional é essa? Não seria melhor se Deus criasse circunstâncias de graça para as vidas dos eleitos e não eleitos, influências às quais todos eles realmente podem responder positivamente? Não seria melhor se Ele fizesse isso sem adaptar suas circunstâncias para se adequar às suas tendências de uma forma que garanta a salvação dos eleitos e a condenação dos não eleitos? Não seria melhor se todos, em liberdade libertária e sem manipulação divina nos bastidores, pudessem escolher a favor ou contra Ele? Esta é a posição Arminiana, e isso não é Molinismo.

Se alguém pensa que estou interpretando mal Keathley, chamo a atenção para algumas das palavras nas citações acima. “Os seres humanos escolhem livremente o que Deus determinou.” No caso de Pedro, Deus “ordenou o cenário com certeza infalível”. Deus “tornou certa … a destruição de alguns que rejeitariam as ofertas da graça de Deus.” Isso pode ser determinismo por manipulação indireta em vez de causação direta, mas é determinismo mesmo assim.

Isso não é Arminianismo. Nós Arminianos concordamos que Deus tem presciência das escolhas que fazemos, mas insistimos que as “aberturas da graça” de Deus (para usar a frase apropriada de Keathley) são feitas a todas as pessoas, com a mesma intenção salvífica de tornar possível a salvação de todas elas. O Molinismo, em vez disso, diz que Deus usa Seu conhecimento de como as pessoas responderão a várias circunstâncias para organizar diferentes circunstâncias para aqueles que Ele escolhe salvar em comparação com aqueles que Ele não deseja salvar. O Arminianismo acredita que Deus estende a graça salvadora a todos igualmente e os atrai a todos com o desejo de que todos sejam salvos, proporcionando assim oportunidades reais para todos; e eles escolhem se cumprirão a condição para a salvação ou não.

Keathley Retrata o Molinismo com Precisão?

Eu acredito que a visão de Keathley, até agora, é fiel ao Molinismo. Outras representações do Molinismo parecem confirmar isso claramente. Por exemplo, considere o seguinte resumo:

Antes de toda decisão de criar o mundo, o conhecimento infinito de Deus apresenta a Ele todas as graças … que Ele pode preparar para cada alma, junto com o consentimento ou recusa que se seguirá em cada circunstância. … Assim, para cada homem em particular, há no pensamento de Deus, histórias possíveis ilimitadas … e Deus será livre em escolher tal mundo, tal série de graças, e em determinar a história futura e o destino final de cada alma.[7]

Que esta é, afinal, uma forma de determinismo parece certo quando o escritor acrescenta que desta forma Deus atualizou, de todos os mundos possíveis, este mesmo em que todas as circunstâncias e todas as “graças” que Ele também atualizou trazem cada indivíduo ao destino que Deus escolheu.[8]

William Lane Craig afirma que o próprio Molina via Deus operando desta forma, que Deus “escolheu para um [os eleitos] e para o outro [os réprobos] a ordem da providência na qual Ele previu que aquele seria salvo e o outro não.”[9]

G. Sutanto cápsula o Molinismo ao dizer: “Ao decretar [tudo o que acontece], Deus escolhe atualizar um mundo no qual as criaturas livres façam exatamente o que Ele quer que façam, mas de uma forma que não sacrifique a liberdade libertária.”[10]

Na Parte I, defini o Molinismo e avaliei sua visão de maneira mais básica. Tenho outras críticas à posição de Keathley, algumas das quais podem não ser compartilhadas por todos os Molinistas, mas todos parecem provavelmente resultar do esforço do Molinismo para alcançar uma posição entre o Calvinismo e o Arminianismo. Vou tratar de três questões.

Outros Problemas com o Molinismo de Keathley

1. Keathley confronta-se com a objeção frequentemente levantada por Calvinistas que dizem ao exigir que uma pessoa exerça fé para a salvação torna a fé algo que o salvo “faz” que é de alguma forma virtuosa e os distingue dos descrentes. Ele declara a objeção da seguinte forma:

Se eu acreditar livremente, mas meu vizinho livremente não, isso não significa que de alguma forma eu era mais nobre do que meu vizinho? Não usei minha liberdade para um fim superior? Sim, a salvação é um dom gratuito, e receber a redenção não incorre em mérito, mas não é aquele que a aceita de alguma forma mais sábio, mais humilde, mais virtuoso, mais grato, mais consciente de sua necessidade, ou mais sensível ao pecado do que o aquele que o rejeita?[11]

Em essência, Keathley aceita isso como um “problema” e prossegue em resolvê-lo vendo a fé como um dom e não algo que os eleitos “fazem”. Ele representa os eleitos como “não fazendo” absolutamente nada; eles nem mesmo escolhem aceitar a Cristo. Em contraste, os não eleitos ativamente “fazem” algo; eles resistem conscientemente a Deus e, portanto, tornam-se os únicos responsáveis por sua condenação. Portanto, para Keathley, a salvação dos eleitos é totalmente obra de Deus, enquanto a condenação dos não eleitos é totalmente obra deles.

Eu recomendaria, no entanto, que enquanto alguém considerar a salvação condicional, inevitavelmente haverá uma diferença entre o que um crente “faz” e o que um incrédulo “faz” (ou “não”) e isso pode teoricamente (mas equivocadamente) ser considerado como tornando um mais “digno” ou “virtuoso” do que o outro. A própria razão para a salvação incondicional é evitá-la.

Keathley diz que os eleitos “se abstêm” de resistir, enquanto os não eleitos resistem ativamente. Bem, “abster-se de resistir” ainda é “fazer” algo – o que simplesmente substitui “escolher Cristo”. A diferença entre aquele que “faz” esta abstenção e aquele que resiste ativamente ainda pode ser (falsamente) acusado de representar uma diferença no “valor”.

A maneira de lidar com essa objeção Calvinista é negar que ela seja válida. Falando biblicamente, crer (fé) não é uma “obra”; aceitar um presente com a mão vazia da fé não é oferecer qualquer valor, mérito ou virtude a Deus. As ações dos eleitos e não eleitos são paralelas: um escolhe a favor e o outro escolhe contra. Se a liberdade libertária significa alguma coisa, ela é exercida tanto pelos eleitos quanto pelos não eleitos. Caso contrário, apenas o incrédulo age com liberdade libertária, enquanto o crente não teme ser culpado de oferecer algo que “fez” a Deus.

Em outro lugar, Keathley mostra claramente que ele entende que a fé não é uma obra e que o verbo “fazer” não requer fazer uma obra ou ação meritória. Se alguém perguntar, então, por que ele se preocupa em oferecer uma solução diferente, a resposta é que ele está determinado a manter a visão do Calvinismo sobre o que significa para a salvação ser totalmente obra de Deus. Para este fim, ele está apoiando a eleição incondicional, para a qual me volto agora.

2. O tratamento de Keathley deixa turva a questão de se a salvação é pela fé. Digo “turva” porque ele parece falar dos dois lados. Por um lado, ele afirma francamente que a salvação é pela fé: “A Bíblia não apresenta apenas a fé como evidência da regeneração ou chamada eficaz, mas como a condição para receber a salvação. A salvação é pela fé ”.[12] Novamente, ele diz:“ Somos obrigados a exercer fé para receber a salvação”.[13]

Por outro lado, ele também afirma coisas que parecem significar que a salvação é para a fé em vez de pela fé. Ele segue a citação dada com estas palavras, “mas esta disposição de confiança é um dom divino.”[14] Ele “entende que o pecador vem à fé como um processo pelo qual o Espírito de Deus leva uma pessoa ao ponto de confiança salvífica.”[15] Ele se refere a isso como “fé ambulatória” e ilustra com uma ambulância levando um homem inconsciente para tratamento que acorda no caminho sem ter nada a ver com o transporte para o pronto-socorro. Isso significa que a “graça suprema” de Deus leva uma pessoa até a fé. Assim, Deus dá a ele a fé: “Tudo o que é necessário nesse cenário é que a pessoa se abstenha de agir”.[16] O homem da ambulância pode se rebelar e insistir em sair, é claro; mas enquanto uma pessoa sendo atraída a Cristo não resistir, ela crerá infalivelmente.

Lembramos que este é o caso de pessoas para as quais Deus, sabendo como elas responderiam a circunstâncias específicas da graça, projetou e atualizou o mundo para incluir as próprias circunstâncias às quais eles estavam certos de não resistir.

A meu ver, isso não é salvação pela fé,[17] e a questão é ainda mais complicada pelo fato de que Keathley defende a eleição incondicional. Na teologia tradicional, a eleição incondicional acarreta salvação incondicional, e a eleição condicional implica salvação condicional. Para os Arminianos, a eleição é a escolha de Deus pelos crentes para a salvação e, portanto, sua salvação é condicional. Se a eleição for incondicional, o eleito não cumpre nenhuma condição.

Eu me encontrei tentando muito discernir como a eleição incondicional de Keathley é compatível com sua observação de que a salvação é pela fé. Claramente, ele quer dizer que a eleição não é baseada na fé do crente: “Os Molinistas concordam com os Calvinistas que é crucial sustentar que Deus não elegeu por causa do mérito pré-conhecido ou fé prevista.”[18] Concluí que para ele “por fé ”não significa salvação condicional, precisamente porque ele considera a fé um dom e, portanto, o elemento inicial da própria salvação. No final, Keathley está fazendo um esforço diligente para creditar a obra da salvação somente a Deus – com a qual nós, Arminianos, concordaremos entusiasticamente. Da mesma forma, ele aceita a ideia de que se o indivíduo deve exercer fé para ser salvo, então ele contribuiu com algo e a obra não é só de Deus – da qual discordaremos firmemente. Não somos sinergistas.

Para Keathley, então, o decreto de Deus para salvar os eleitos é completamente independente de sua fé. A “graça suprema”de Deus os leva a uma fé que Deus lhes dá e que eles não escolhem exercer ativamente. Esta não é a visão Arminiana de eleição condicional ou de salvação pela fé.

3. Keathley não parece consistente em extrair as implicações de como Deus lida com os não eleitos em comparação com os eleitos. Não pretendo prosseguir com isso em detalhes, mas acho importante mencioná-lo como um assunto para consideração posterior. Resumindo, sua visão torna Deus totalmente responsável, na graça, pela salvação dos eleitos; mas ele intencionalmente não tira uma conclusão paralela com respeito aos não eleitos.

Entretanto, eu acredito que se ele fosse consistente, sua visão de como Deus usa o conhecimento médio tornaria Deus tão responsável pela condenação dos não eleitos quanto pela salvação dos eleitos. Pelo menos haveria mais coordenado do que ele parece perceber quando compara os dois como “assimétricos”.[19] Em ambos os casos, um Deus Molinista age exatamente da mesma maneira fundamental. Para os eleitos, Deus fornece circunstâncias às quais Ele sabe que não resistirão e os levará à fé. Para os não eleitos, Deus fornece circunstâncias às quais Ele sabe que resistirão e não os conduzirão à fé. Ambos foram, por Seu desígnio no momento em que Ele atualizou a ordem criada, foram colocados em circunstâncias às quais eles responderão livremente de maneira que cumpram a vontade de Deus para eles. Este é um dos problemas do determinismo que Keathley não consegue evitar, acredito.

Chamo a atenção novamente para essas palavras das três citações que incluí anteriormente: “Deus predestina todos os eventos.” “Deus meticulosamente ‘põe a mesa’ para que os seres humanos escolham livremente o que Ele predeterminou.” “Pelo uso do conhecimento médio [Deus] ordenou … com certeza infalível de que Pedro [negaria Jesus].” “[Deus] tornou certa … a destruição de certas pessoas que rejeitariam as ofertas da graça de Deus.” “Nossa livre escolha determina como reagiríamos em qualquer ambiente, mas Deus decide em que ambiente realmente nos encontramos”.

As implicações dessas observações são tão certas para os não eleitos quanto para os eleitos. O que os Arminianos chamam de graça “preveniente”, que efetivamente capacita mesmo aqueles que rejeitam a Cristo a acreditar, não é a experiência de qualquer não eleito na visão de Keathley, até onde posso ver.

O Problema da Ordem no “Conhecimento Médio” do Molinismo

Molinismo é sobre a ordem lógica dos elementos do conhecimento de Deus – e, consequentemente, de Suas decisões. Para começar, não vejo necessidade do “conhecimento médio” de Molina. Se Deus, em virtude de Sua onisciência, conhece todos os mundos possíveis, então Ele já sabe como alguém responderia a qualquer circunstância concebível.

No entanto, o Molinismo tem um problema em sua própria apresentação da ordem. Keathley e o Molinismo distinguem fortemente entre os três supostos “momentos” do conhecimento de Deus. Primeiro é o conhecimento necessário de Deus do que poderia ser, então Seu conhecimento médio do que seria em qualquer um dos mundos que poderia ser e, finalmente, Seu conhecimento livre (ou presciência) do que será no mundo que Ele decide atualizar.

A questão é a seguinte: onde, nessa progressão lógica, a eleição ocorre? Alguém poderia pensar que a decisão de Deus de eleger alguns da massa da humanidade caída não pode existir logicamente até que Ele primeiro tenha decidido permitir (ou causar, em visões supralapsárias) a queda. E ainda, na progressão de Keathley, Deus já, antes da criação, identificou os eleitos ao considerar quais circunstâncias de graça incluir para eles no mundo que ele atualiza.

Em outras palavras a maneira como Deus pode prover “circunstâncias de graça” nas vidas dos eleitos quando Ele atualiza o mundo é se ele já os identificou. Mas isso significa (logicamente) que Ele deve decidir sobre o mundo a ser atualizado antes de (logicamente) decidir sobre a queda e então sobre a eleição. Isso poderia funcionar bem se ele estivesse planejando o mundo para fornecer igualdade para todos, mas ao resultado disso, Ele está planejando suas circunstâncias com vantagem e desvantagem dos eleitos e não eleitos. E para fazer isso, ele tem que saber quem eles são antes mesmo de saber que caíram e precisam de salvação.

Se parecer que estou violando minha própria incerteza sobre os “momentos” lógicos do Molinismo do conhecimento de Deus, digo que percebo que algumas coisas conhecidas e / ou decididas devem, pelo menos, logicamente preceder ou seguir-se a outras coisas. E é claro para mim que Deus deve saber / decidir que criar o mundo, antes de saber / decidir sobre a queda, antes de saber / decidir sobre a eleição para a salvação ou sobre a reprovação. Mas o Molinismo inverte uma ordem lógica.

Conclusão

No final das contas, o problema com o Molinismo é, precisamente, um problema de ordem no projeto de Deus para o mundo e os seres humanos. O Molinismo propõe que Deus, conhecendo todas as nossas tendências, projetou o mundo primeiro de tal forma que todos aqueles que Ele quisesse salvar viriam a Ele e todos aqueles que Ele não quis salvar o rejeitariam. Isso significa que quando viemos ao mundo, Deus já nos colocou em circunstâncias que trarão os eleitos à fé e não trarão os não eleitos à fé. Para tal ponto de vista, Keathley está certo ao usar palavras como determinação e torna certo para descrever os atos salvíficos de Deus. E é assim que Deus se torna um manipulador das escolhas humanas.

Para o evangélico Arminiano, entretanto, a ordem é diferente. Deus projeta o mundo, antes de mais nada, de uma maneira que funciona em harmonia com a liberdade libertária de todos. Em Seu programa salvífico universal, Ele provê para todos e lida graciosamente com todos de uma maneira que permite que cada um responda positivamente a Sua persuasão. Então, tanto os eleitos quanto os não eleitos, capacitados pelo evangelho e pela obra do Espírito Santo, induzida com liberdade libertária para aceitar ou rejeitar a Cristo.

Quando se trata de mostrar como a soberania de Deus e a liberdade humana trabalham juntas, então, o Arminianismo oferece uma compreensão muito melhor do que o Molinismo.

Tradução: Antônio Reis


[1] A liberdade de escolher entre alternativas, por vezes chamada o poder da escolha alternativa, é chamada liberdade libertária.

[2] Kenneth Keathley, Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach (Nashville: B&H Academic, 2019). Keathley é um Batista do Sul, ensina no Seminário Teológico Batista do Sudeste, na Carolina do Norte. Obrigado a Matt Pinson por me ter apresentado essa obra.

[3] Ibid., 152.

[4] Ibid., 154.

[5] Ibid., 155.

[6] Sei que as analogias não provam nada, mas permitem-nos expressar a nossa opinião de forma mais clara ou contundente.

[7] Portalié, Eugène. “Os Ensinamentos de Santo Agostinho de Hipona,” The Catholic Encyclopedia, vol. 2 (New York: Robert Appleton Company, 1907), as transcribed in New Advent, ed. Kevin Knight, at http://www.newadvent.org/cathen/02091a.htm. Agradeço a Richard Clarke por me indicar este artigo.

[8] O meu propósito aqui não é garantir a interpretação de Portalié sobre Agostinho, mas mostrar como ele entende o Molinismo.

[9] William L. Craig, “Conhecimentos Médio, Uma Aproximação Calvinista-Arminiano?” em Clark Pinnock, ed. The Grace of God, the Will of Man: A Case for Arminianism (Grand Rapids, Zondervan, 1989),156–57, citando o Dictionnaire de théologie catholique, s.v., “Molinisme,” by E. Vansteenberghe, 10.2., col. 2112. (Thanks to Matt Pinson for this reference.) Agradeço a Matt Pinson por esta referência.

[10] Nathaniel Gray Sutanto, exame de Sze Sze Chiew, Middle Knowledge and Biblical Interpretation: Luis de Molina, Herman Bavinck, and William Lane Craig (Frankfurt am Main: Peter Lang, 2016), em The Journal of Theological Studies 69:1 (April 2018), 389.

[11] Keathley, Salvation and Sovereignty, 102.

[12] Ibid., 119.

[13] Ibid., 116.

[14] Ibid

[15] Ibid., 104.

[16] Ibid., 105.

[17] Posso tolerar dizer que a fé é um dom de Deus, mas apenas se isso for cuidadosamente explicado para significar que Deus dá a oportunidade e a persuasão que permitem a fé. Mas sempre as Escrituras atribuem a fé à pessoa que a exerce. Ver o meu Grave, Faith, Free Will: Contrasting Views of Salvation: Calvinism & Arminianism (Nashville: Randall House, 2002), 167.

[18] Keathley, Salvation and Sovereignty, 11.

[19] Ibid., 145

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Teologia

LIVRE ARBITRIO NOS PAIS DA IGREJA

O livre-arbítrio nos pais da Igreja

“Porquanto Deus pôs em nosso poder o bem e o mal, deu-nos o livre-arbítrio da escolha, e quando não queremos não nos força; quando, porém, queremos, nos abraça” (JOÃO CRISÓSTOMO)

Dissemos no início do livro que o livre-arbítrio era crido por unanimidade pelos Pais da Igreja até Agostinho, que, a princípio, também cria nele, até a sua controvérsia com os donatistas, que o fez mudar de opinião e crer que Deus força alguém à conversão. Ainda assim, a posição de Agostinho não predominou nos séculos que se seguiram e o consenso unânime dos Pais permaneceu sendo a favor do livre-arbítrio, o que pode ser visto em seus livros e nos concílios da Igreja. Começaremos com as declarações do próprio Agostinho, antes de sua mudança[1]:

• Agostinho “jovem” (354-430)
“Deus indubitavelmente deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade; mas não lhes tirando o livre-arbítrio, pelo bom ou o mau uso do qual é que poderão ser justamente julgados”[2]

• Teodoreto (393-466)
“Aqueles cuja intenção Deus previu, Ele predestinou desde o princípio. Aqueles que predestinou, Ele chamou e justificou pelo batismo. Os que foram justificados, Ele glorificou, chamando-os filhos (…) Que ninguém diga que a presciência de Deus foi a causa unilateral dessas coisas. Não foi sua presciência que justificou as pessoas, mas Deus sabia o que aconteceria, porque Ele é Deus”[3]

• Eusébio de Cesareia (265-339)
“O conhecimento prévio dos eventos não é a causa de que tenham ocorrido. As coisas não ocorrem [somente] porque Deus sabe. Quando as coisas estão para ocorrer, Deus o sabe”[4]

• Atanásio de Alexandria (295-373)
“Pois, naturalmente, uma vez que a Palavra de Deus está acima de todos, quando Ele ofereceu Seu próprio templo e instrumento corpóreo como um substituto para a vida de todos, Ele cumpriu em morte todo o que era exigido”[5]

“Foi tarefa própria ao Verbo restaurar o corruptível para a incorrupção e colocar acima de tudo a glória de Deus. Por ser precisamente Verbo de Deus, superior a toda criatura, somente Ele pode criar novamente todas as coisas e assumir a representação de todos os homens perante o Pai”[6]

“Todos os homens estavam sujeitos à corrupção da morte. Substituindo a todos nós, o Verbo tomou um corpo semelhante ao nosso, entregando-o à morte e oferecendo ao Pai […] Dessa maneira, morrendo todos nEle, pode ser abolida a lei universal da mortalidade humana. A exigência da morte foi satisfeita no corpo do Senhor e, doravante, deixa de atingir os homens feitos semelhantes a Cristo. Aos homens que se haviam entregue à corrupção foi restituída a incorrupção e, mediante a apropriação do corpo de Cristo e de sua ressurreição, os homens foram redivivos da morte”[7]

“Portanto, desejando ajudar os homens, ele o Verbo habitou com os homens tomando forma de homem, tomando para si mesmo um corpo semelhante ao dos outros homens. Através das coisas sensoriais, isto é, mediante as ações de seu corpo, ele os ensinou que os que estavam privados de reconhecê-lo, mediante sua orientação e providência universais, podem por meio das ações de seu corpo reconhecer a Palavra de Deus encarnada e através dEle vir ao conhecimento do Pai”[8]

• Hilário de Poitiers (300-368)
“Porque, conforme o Evangelho, muitos são os chamados e poucos os escolhidos […] A eleição, portanto, não é questão de juízo acidental. É uma distinção feita por intermédio de uma seleção baseada no mérito. Feliz, então, aquele que elege a Deus: bendito em razão dele ser digno da eleição”[9]

• João Crisóstomo (347-407)
“Porquanto Deus pôs em nosso poder o bem e o mal, deu-nos o livre-arbítrio da escolha, e quando não queremos não nos força; quando, porém, queremos, nos abraça”[10]

“Não raro, aquele que é mau, se for desejado, muda-se em bom; e aquele que é bom, por inércia, cai e se torna mau, porquanto o Senhor nos fez com uma natureza dotada do livre-arbítrio. Nem impõe ele necessidade. Pelo contrário, providos os remédios apropriados, tudo deixa ficar ao arbítrio do enfermo”[11]

“Assim como nada jamais podemos fazer retamente, a não ser se ajudados pela graça de Deus, assim também, a menos que tenhamos de acrescentar o que é nosso, não poderemos alcançar o favor supremo”[12]

“Tudo está sob o poder de Deus, mas de um modo que nosso livre-arbítrio não é perdido […] Ele depende, entretanto, de nós e dele. Devemos primeiro escolher o bem, e, então, ele acrescenta o que lhe pertence. Ele não precede nosso querer, aquilo que nosso livre-arbítrio não suporta. Mas quando nós escolhemos, então ele nos proporciona muita ajuda. […] Cabe a nós escolher de antemão e querer, mas cabe a Deus aperfeiçoar e concretizar”[13]

“Deus, tendo colocado o bem e o mal em nosso poder, nos deu plena liberdade de escolha; ele não retém o indeciso, mas abraça o que é disposto”[14]

“Disse alguém: ‘Então é suficiente crer no Filho para se ganhar a vida eterna?’ De maneira nenhuma. Escuta esta declaração do próprio Cristo, dizendo: ‘Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino dos céus’; e a blasfêmia contra o Espírito é suficiente para lançar um homem no inferno”[15]

• Ambrósio de Milão (340-397)
“Ele quer ter para si todos os homens que criou. Possas tu, ó homem, não fugir para longe de Cristo, não te esconder dele! E, todavia, ele procura ainda aqueles que se escondem”[16]

• Jerônimo (347-420)
“Nosso é o começar, de Deus, porém, o terminar; nosso, oferecer o que podemos, dele prover o que não podemos”[17]

“E em vão que você tem uma idéia falsa a meu respeito e tenta convencer o ignorante de que eu condeno o livre-arbítrio. Deixe aquele que o condena ser ele próprio condenado. Fomos criados, capacitados com o livre-arbítrio; ainda não é isto que nos distingue dos bárbaros. Pois o livre-arbítrio humano, como eu disse, depende da ajuda de Deus e necessita de sua ajuda momento a momento, algo que você e os seus não escolhem admitir. Sua posição é a de que, uma vez que o ser humano tem livre-arbítrio, ele não mais necessita da ajuda de Deus. E verdade que a liberdade da vontade traz consigo a liberdade da decisão. Ainda assim o ser humano não age imediatamente sobre o seu livre-arbítrio, mas requer a ajuda de Deus que, em si mesmo, não precisa de ajuda”[18]

“Quando nós estamos preocupados com a graça e a misericórdia, o livre-arbítrio é em parte anulado; em parte, eu digo, porque tanto depende dele, que queremos e desejamos, e damos consentimento ao curso que escolhemos. Mas depende de Deus se temos o poder em sua força e com sua ajuda para fazer o que desejamos, e para nosso trabalho e esforço darem resultado”[19]

“Deus nos criou com livre-arbítrio e não somos forçados pela necessidade nem à virtude nem ao vício. Do contrário, se não estamos obrigados pela necessidade, não há coroa. Como nas boas obras, é Deus quem os traz à perfeição, já que não é de quem quer, nem do que corre, mas de Deus que piedosamente nos ajuda a ser capazes de atingir a meta”[20]

• Orígenes de Alexandria (185-253)
“O livre-arbítrio é a faculdade da razão para discernir o bem ou o mal, a faculdade da vontade para escolher um ou outro desses dois”[21]

“Ora, deve ser conhecido que os santos apóstolos, na pregação da fé de Cristo, pronunciaram-se com a maior clareza sobre certos pontos que eles criam ser necessários para todo mundo. […] Isso também é claramente definido no ensino da Igreja de que cada alma racional é dotada de livre-arbítrio e volição”[22]

“Há, de fato, inúmeras passagens nas Escrituras que estabelecem com extrema clareza a existência da liberdade da vontade”[23]

• Metódio de Olimpos (†311)
“Ora, aqueles que decidem que o ser humano não possui livre-arbítrio, e afirmam que ele é governado pelas necessidades inevitáveis do destino […] são culpados de impiedade para com o próprio Deus, fazendo-o ser a causa e o autor dos males humanos”[24]

“Eu digo que o ser humano foi feito com livre-arbítrio, não como se já houvesse algum mal existente, que ele tinha o poder de escolher se quisesse […], mas que o poder de obedecer e desobedecer a Deus é a única causa”[25]

• Arquelau de Atenas (Séc.V)
“Todas as criaturas que Deus fez, ele fez muito boas, e deu a cada indivíduo o senso de livre-arbítrio, de acordo com o padrão que ele também instituiu na lei de julgamento. Pecar é característica nossa, e nosso pecado não é dom de Deus, já que nossa vontade é constituída de modo a escolher tanto pecar quanto não pecar”[26]

• Arnóbio de Sicca (†330)
“Aquele que convida a todos não liberta igualmente a todos? Ou não empurra ele de volta ou repele qualquer um para longe da amabilidade do Supremo que dá a todos igualmente o poder de vir a ele? – A todos, ele diz, a fonte da vida está aberta, e ninguém é impedido ou retido de beber”[27]

“Mais ainda, meu oponente diz que, se Deus é poderoso, misericordioso, desejando salvar-nos, que mude as nossas disposições e nos force a confiar em suas promessas. Isso, então, é violência, não é amabilidade nem generosidade do Deus supremo, mas uma luta vã e pueril na busca da obtenção do domínio. Pois o que seria tão injusto como forçar homens que são relutantes e indignos, reverter suas inclinações; imprimir forçadamente em suas mentes o que eles não estão desejando receber, e têm horror de…”[28]

• Cirilo de Jerusalém (313-386)
“Saiba também que você tem uma alma autogovernada, a mais nobre obra de Deus, feita à imagem do Criador, imortal por causa de Deus que lhe dá imortalidade, um ser vivente racional, imperecível, por causa dele que concedeu esses dons: tendo livre poder para fazer o que deseja”[29]

“Não há um tipo de alma pecando por natureza e outro de alma praticando justiça por natureza; ambas agem por escolha, a substância da alma sendo de uma espécie somente e igualmente em tudo”[30]

“Sois feitos partícipes de uma videira santa: se permaneces na videira, crescerás como um cacho frutífero; porém, se não permaneces, serás consumido pelo fogo. Assim, pois, produzamos fruto dignamente. Que não nos suceda o mesmo que aquela videira infrutífera; não ocorra que, ao vir Jesus, a maldiga por sua esterilidade. Que todos possam, ao contrário, pronunciar estas palavras: ‘Eu, porém, como oliveira verde na casa de Deus, confio no amor de Deus para todo o sempre’. Não se trata de uma oliveira sensível, mas inteligível, portadora da luz. O que é próprio d’Ele é plantar e regar; a ti, porém, cabe frutificar. Por isso, não desprezes a graça de Deus: guardai-a piedosamente quando a receberdes”[31]

“A alma é autogovernada: e embora o Demônio possa sugerir, ele não tem o poder de obrigar a vontade. Ele lhe pinta o pensamento da fornicação: mas você pode rejeitá-lo, se quiser. Pois se você fosse fornicador por necessidade, por que razão Deus preparou o inferno? Se você fosse praticante da justiça por natureza, e não pela vontade, por que preparou Deus coroas de glória inefável?. A ovelha é afável, mas ela nunca foi coroada por sua afabilidade; visto que sua qualidade de ser afável lhe pertence por natureza, não por escolha”[32]

• Basílio Magno (329-379)
“Eles, então, que foram selados pelo Espírito até o dia da redenção e preservaram puros e intactos os primeiros frutos que receberam do Espírito, ouvirão as palavras: ‘Muito bem, servos bons! Como fostes fiéis no mínimo, tomai o governo de muitas coisas’. Da mesma forma, os que ofenderam o Espírito Santo pela maldade de seus caminhos, ou não forjaram para si o que Ele lhes deu, serão privados do que receberam e sua graça será dada a outros; ou, conforme um dos evangelistas, serão totalmente cortados em pedaços, cujo significado é ser separado do Espírito”[33]

• Gregório de Nissa (330-395)
“Sendo à imagem e semelhança […] do Poder que governa todas as coisas, o ser humano manteve também na questão do livre-arbítrio esta semelhança a ele cuja vontade domina tudo”[34]

• Iriney de Lyon (130-202)
“A expressão: ‘Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos […] mas vocês não quiseram’ ilustra bem a antiga lei da liberdade do homem, porque Deus o fez livre desde o início, com vontade e alma para consentir nos desejos de Deus sem ser coagido por ele. Deus não faz violência, e o bom conselho o assiste sempre, por isso dá o bom conselho a todos, mas também dá ao homem o poder de escolha, como o tinha dado aos anjos, que são seres racionais, para que os que obedecem recebam justamente o bem, dado por Deus e guardado para eles. […] Se não dependesse de nós o fazer e o não fazer, por qual motivo o apóstolo, e bem antes dele o Senhor, nos aconselhariam a fazer coisas e a nos abster de outras? Sendo, porém, o homem livre na sua vontade, desde o princípio, e livre é Deus, à semelhança do qual foi feito, foi-lhe dado, desde sempre, o conselho de se ater ao bem, o que se realiza pela obediência a Deus”[35]

“O Senhor, pois, nos remiu através de seu sangue, dando sua vida em favor da nossa vida, sua carne por nossa carne. Derramou o Espírito do Pai para que fosse possível a comunhão de Deus e do homem. Trouxe Deus aos homens mediante o Espírito, e levou os homens a Deus mediante sua encarnação”[36]

“Por isso, dizia aquele presbítero: não devemos nos sentir orgulhosos nem reprovar os antigos; ao contrário, devemos temer; não ocorra que, depois de conhecermos a Cristo, façamos aquilo que não agrada a Deus e, consequentemente, já não nos sejam perdoados os nossos pecados, nos excluindo de seu Reino. Paulo disse a este propósito: ‘Se não perdoou os ramos naturais, tampouco te perdoará, pois sois oliveira silvestre enxertada nos ramos da oliveira [boa] e recebes [vida] da sua seiva’”[37]

• Atenágoras de Atenas (133-190)
“Justamente como homens que possuem liberdade de escolha assim como virtude e defeito (porque você não honraria tanto o bom quanto puniria o mau, a menos que o defeito e a virtude estivessem em seu próprio poder, e alguns são diligentes nos assuntos confiados a eles, e outros são infiéis), assim são os anjos”[38]

• Teófilo de Antioquia (†186)
“Deus fez o homem livre, e esse poder sobre si próprio […] Deus lhe concede como um dom por filantropia e compaixão, quando o homem lhe obedece. Pois como o homem, desobedecendo, atraiu morte sobre si próprio, assim, obedecendo ã vontade de Deus, aquele que deseja é capaz de obter para si mesmo a vida eterna”[39]

• Taciano, o Sírio (120-180)
“Viva para Deus e, apreendendo-o, coloque de lado sua velha natureza. Não fomos criados para morrer, mas morremos por nossa própria falha. Nosso livre-arbítrio nos destruiu, nós que fomos livres nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Nada de mal foi criado por Deus; nós próprios manifestamos impiedade; mas nós, que a temos manifestado, somos capazes de rejeitá-la novamente”[40]

• Bardesano da Síria (154-222)
“Como é que Deus não nos fez de modo que não pecássemos e não incorrêssemos na condenação? Se o ser humano fosse feito assim, não teria pertencido a si mesmo, mas seria instrumento daquele que o moveu. […] E como, nesse caso, diferiria de uma harpa, sobre a qual outro toca; ou de um navio, que outra pessoa dirige: onde o louvor e a culpa residem na mão do músico ou do piloto, […] eles sendo somente instrumentos feitos para uso daquele em quem está a habilidade? Mas Deus, em sua benignidade, escolheu fazer assim o ser humano; pela liberdade ele o exaltou acima de muitas de suas criaturas”[41]

• Clemente de Alexandria (150-215)
“Mas nós, que temos ouvido pelas Escrituras que a escolha auto-determinadora e a recusa foram dadas pelo Senhor ao ser humano, descansamos no critério infalível da fé, manifestando um espírito desejoso, visto que escolhemos a vida e cremos em Deus através de sua voz”[42]

“Mas nada existe sem a vontade do Senhor do universo. Resta dizer que essas coisas acontecem sem o impedimento do Senhor. Não devemos, portanto, pensar que ele ativamente produz aflições (longe esteja de nós pensar uma coisa dessas!); mas devemos ser persuadidos de que ele não impede os que as causam, mas anula para o bem os crimes dos seus inimigos”[43]

• Clemente de Roma (35-97)
“Agora, pois, como seja certo que tudo é por Ele visto e ouvido, temamos e abandonemos os execráveis desejos de más obras, a fim de sermos protegidos por sua misericórdia nos juízos vindouros. Porque ‘para onde algum de nós poderá fugir de sua poderosa mão?’ Que mundo acolherá os desertores de Deus?”[44]

• Tertuliano (160-220)
“Eu acho, então, que o ser humano foi feito livre por Deus, senhor de sua própria vontade e poder, indicando a presença da imagem de Deus e a semelhança com ele por nada melhor do que por esta constituição de sua natureza […] Você verá que, quando ele coloca diante do ser humano o bem e o

mal, a vida e a morte, que o curso total da disciplina está disposto em preceitos pelos quais Deus chama o ser humano do pecado, ameaça e exorta-o; e isso em nenhuma outra base pela qual o ser humano é livre, com vontade ou para a obediência ou para a resistência […] Portanto, tanto a bondade quanto o propósito de Deus são descobertos no dom da liberdade em sua vontade dado ao ser humano”[45]

• Novaciano de Roma (†258)
“Ele também colocou o ser humano no topo do mundo, e também o fez à imagem de Deus, e lhe comunicou mente, razão e perspicácia, para que pudesse imitar a Deus; e, embora os primeiros elementos do seu corpo fossem terrenos, a substância foi inspirada por um sopro divino e celestial. E, quando ele lhe deu todas as coisas para o seu serviço, quis que apenas ele fosse livre. E, para que novamente uma ilimitada liberdade não caísse em perigo, estabeleceu uma ordem, na qual ao ser humano foi ensinado que não havia qualquer mal no fruto da árvore; mas ele foi advertido previamente de que o mal surgiria se porventura ele exercesse o seu livre-arbítrio no desprezo à lei que lhe foi dada”[46]

• Justino de Roma (100-165)
“Deus, no desejo de que homens e anjos seguissem sua vontade, resolveu criá-los livres para praticar a retidão. Se a Palavra de Deus prediz que alguns anjos e homens certamente serão punidos, isso é porque ela sabia de antemão que eles seriam imutavelmente ímpios, mas não porque Deus os criou assim. De forma que quem quiser, arrependendo-se, pode obter misericórdia”[47]

“…Mas agora ele [Deus] nos persuade e nos conduz à fé para que sigamos o que lhe é grato, por livre escolha, através das potências racionais, com que ele mesmo nos presenteou”[48]

“Do que dissemos anteriormente, ninguém deve tirar a conclusão de que afirmamos que tudo o que acontece, acontece por necessidade do destino, pelo fato de que dizemos que os acontecimentos foram conhecidos de antemão. Por isso, resolveremos também essa dificuldade. Nós aprendemos dos profetas e afirmamos que esta é a verdade: os castigos e tormentos, assim como as boas recompensas, são dadas a cada um conforme as suas obras. Se não fosse assim, mas tudo acontecesse por destino, não haveria absolutamente livre-arbítrio. Com efeito, se já está determinado que um seja bom e outro mau, nem aquele merece elogio, nem este vitupério. Se o gênero humano não tem poder de fugir, por livre determinação, do que é vergonhoso e escolher o belo, ele não é irresponsável de nenhuma ação que faça. Mas que o homem é virtuoso e peca por livre escolha, podemos demonstrar pelo seguinte argumento: vemos que o mesmo sujeito passa de um contrário a outro. Ora, se estivesse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de coisas contrárias, nem mudaria com tanta frequência. Na realidade, nem se poderia dizer que uns são bons e outros maus, desde o momento que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que realiza coisas contrárias a si mesmo, ou que se deveria tomar como verdade o que já anteriormente insinuamos, isto é, que a virtude e maldade são puras palavras, e que só por opinião se tem algo como bom ou mau. Isso, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniquidade. Afirmamos ser destino ineludível que aqueles que escolheram o bem terão digna recompensa e os que escolheram o contrário, terão igualmente digno castigo. Com efeito, Deus não fez o homem como as outras criaturas. Por exemplo: árvores ou quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação. Nesse caso, não seria digno de recompensa e elogio, pois não teria escolhido o bem por si mesmo, mas nascido já bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, pois não o seria livremente, mas por não ter podido ser algo diferente do que foi”[49]

• Didaquê (Séc.I)
“Vigiai sobre a vossa vida; não deixai que vossas lâmpadas se apaguem, nem afrouxai vossos cintos. Ao contrário, estai preparados porque não sabeis a hora em que virá o Senhor. Reuni-vos freqüentemente, procurando o que convém a vossas almas; porque de nada vos servirá todo o tempo a vossa fé se não fores perfeitos no último momento”[50]

“Toda criatura humana passará pela prova de fogo e muitos, escandalizados, perecerão. No entanto, aqueles que permanecerem firmes na fé serão salvos por aquele que os outros amaldiçoarão”[51]

• Sínodo de Arles – Proposições Condenadas (473)
“O trabalho da obediência humana não precisa cooperar com a graça. Cristo não morreu pela salvação de todos. A presciência de Deus violentamente compele o homem à perdição: os que perecem, perecem pela vontade divina”

“Concílio acrescentava a seguinte declaração: Concebemos a graça de Deus de tal maneira que o esforço do homem devam cooperar com ela, pois a liberdade de escolha do homem [libertatum voluntatis], embora atenuada e enfraquecida, não está extinta. Portanto, ainda esta em perigo aquele que se salvou e ainda pode ser salvo aquele que se perdeu”

• Sínodo de Orange (529)
“Através do pecado de Adão, nossa liberdade foi depravada e debilitada a tal ponto que, sem a graça preveniente misericordiosa de Deus, ninguém poderia amar a Deus como convém, nem crer nele, nem fazer o que é reto (Fp.1:6,29; Ef.2:8; 1Co. 4:7; 7:25; Tg.1:17; Jo 3:27)”

“Não só não aceitamos que certos homens têm sido predestinados ao mal pela divina disposição, mas lançamos anátemas horrorizados contra quem pensar coisa tão perversa”

• Concílio de Kiersy (853)
“Deus conheceu pela sua presciência os que devem se perder, mas ele não os predestinou a se perderem. Porque Deus é justo, ele predestinou uma pena eterna para a sua falta”[52]

• Concílio de Valença (855)
“Com o concílio de Orange nós lançamos o anátema a todos os que disserem que alguns homens são predestinados para o mal pelo poder de Deus”[53]

• Conclusão
Como bem definiu Geisler, “se não fosse por um lapso na história da pré-Reforma, não teria havido ‘calvinistas’ extremados[54] notáveis nos primeiros 1.500 anos da Igreja. Essa exceção é encontrada nos últimos escritos de Agostinho”[55].

[1] Embora o tema principal deste apêndice seja o livre-arbítrio, eventualmente uma ou outra citação pode ser de alguma outra doutrina contrária ao calvinismo, como a expiação ilimitada, a perda da salvação ou a eleição condicional.

[2] On the Spirit and the Letter, 61.

[3] Comentário de Romanos 8:30.

[4] “The Faith of the Early Fathers”, Volume I. William A. Jurgens. Liturgical Press, Collegeville Minnesota, 1970; pág. 296.

[5] On the Incarnation of the Word, 2:9.

[6] De Incarnatione, c. 318, VII.

[7] De Incarnatione, c. 318, VIII.

[8] De Incarnatione, c. 318, XIV.

[9] Do Salmo 64[65],5.

[10] Homílias da Traição de Judas, 1, 3.

[11] Sobre o Gênesis, hom. XIX, 1.

[12] Sobre São Mateus, hom. LXXXII, 4.

[13] Homilia sobre Hebreus.

[14] Homilias sobre Gênesis, 19.1.

[15] Homilia sobre o Evangelho de João, 31:1.

[16] Enarrat in Ps. 39, no. 20, P. L., XIV, 1117.

[17] Contra os Pelagianos, 3:1.

[18] Jerônimo, Cartas, citado em “Eleitos, mas Livres”, Norman Geisler, p. 175.

[19] Contra os Pelagianos, Livro III.

[20] Contra Joviniano 2,3.

[21] Orígenes, citado por João Calvino, Institutas, 2.2.4.

[22] De Principiis, pref.

[23] De Principiis, 3.1.

[24] O banquete das dez virgens, 16.

[25] Sobre o livre-arbítrio.

[26] Discussão com Maní.

[27] Contra os pagãos.

[28] Contra os pagãos.

[29] Lecture, IV.

[30] Lecture, IV.

[31] Catequese 1,4.

[32] Lecture, IV.

[33] Do Espírito Santo, 16,40.

[34] Sobre a virgindade, cap. XII.

[35] Contra as heresias, IV, 37.1,4.

[36] A Redenção do poder satânico, Adv. Haer V.I.2.

[37] Contra as Heresias 4,27,2,

[38] Embassy for Christians, XXIV.

[39] Para Autolycus, XXVII.

[40] Address, XI.

[41] Fragmentos.

[42] Stromata, 2.4.

[43] Stromata, 4.12.

[44] 1ª Carta aos Coríntios 28,1-2.

[45] Contra Marcião, 2.5.

[46] Sobre a Trindade, cap. 1.

[47] Dialogue, CXLI.

[48] 1ª Apologia – Capítulo 11.4.

[49] 1ª Apologia – Capítulo 43.

[50] XVI,1-2.

[51] XVI, 5.

[52] 316.I.

[53] Cânon III.

[54] Vale lembrar que o termo “calvinismo extremado” em Geisler significa nada a menos que o próprio calvinismo, pois o próprio Geisler rejeita 4 dos 5 pontos da TULIP calvinista – é um arminiano na prática.

[55] GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. Editora Vida: 2001, p. 189.

Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão?”, cedido pela comunidade de arminianos do Facebook.

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A DUPLA PREDESTINAÇÃO REJEITADA MAJORITARIAMENTE NA HISTÓRIA DOS CONCÍLIOS

A História comprova que a dupla Predestinação agostiniana influenciada pelo Maniqueísmo e Gnosticismo, além de não ter apoio na Patrística,também foi rejeitada majoritariamente na maioria dos grandes concílios como os de Arles 475, Concílio de Orange 529, concílio de Quiersy 853 e Concilio de Valence 855,todos esses Concílios,foram muito antes,a quase mil anos antes do Sínodo de Dort,ou seja,no Sino de Dort,o Armínianismo foi condenado por pessoas em que sua teologia ja havia sido rejeitadas a quase mil anos antes,além do fato de que esse Sinodo de Dort, segundo a História,não tem credibilidade.Vejamos
O Sínodo de Dort reuniu calvinistas da Holanda e de oito países da Europa, que condenaram os cinco pontos dos remonstrantes, fazendo surgir, em resposta a estes, os cinco pontos calvinistas, os quais, formando posteriormente um acróstico, receberiam o nome de Tulip. Os cinco pontos- ou os textos desenvolvidos em favor deles durante o Sínodo – são chamados oficialmente de ‘’Cânones de Dort’’. O detalhe é que algumas dessas condenações distorcem o posicionamento dos remonstrantes, que, por exemplo, nunca negaram a depravação total. Isso aconteceu porque os remonstrantes sequer tiveram a oportunidade de ser realmente ouvidos no Sínodo. Para dar uma aparência de justiça, o Sínodo contou com alguns depoimentos de remonstrantes, mas sob as seguintes regras: os treze remonstrantes intimados para comparecer ao Sínodo não teriam assentos como delegados, pois estavam sendo convocados como réus,logo todos teriam seu direito ao voto impedido; os remonstrantes não poderiam participar das reuniões e de seus debates – eles ficavam em uma outra sala, esperando serem chamados pelo presidente do Sínodo para falar apenas o que fosse pedido-; depois de darem um depoimento, voltaram imediatamente à tal sala, sem terem direito à tréplica; os remonstrantes não escolheram seus representantes, mas, sim, o Sínodo; os remonstrantes só poderiam responder em latim. Como se não bastasse, o presidente do Sínodo era John Bogerman(1576-1637), um calvinista que chegara ao encontro com fama de defender a pena de morte aos ‘’hereges arminianos’’. Aliás, alguns calvinistas que estavam no Sínodo defendiam o mesmo, embora não fossem maioria, enquanto todos os remonstrantes pediam ‘’a tolerância e a indulgência em relação às diferenças de opinião sobre assuntos religiosos’’. Bogerman também fora aquele, que juntamente com Gomarus, em um dos debates deste com Armínio, afirmou: ‘’as escrituras devem ser interpretadas de acordo com o Catecismo de Heidelberg e a Confissão Belga’’. Ao que Armínio respondera: ‘’Como alguém poderia afirmar mais claramente que eles estavam decididos a canonizar estes dois documentos humanos e instituí-los como os dois bezerros idolátricos em Dã e Berseba?’’. O resultado do Sínodo de Dort foram cerca de 200 pastores destituídos de suas funções e exilados, e Oldenbarnevelt, paralelamente a Dort, condenado à decapitação como traidor do país. Uma verdadeira vergonha, da qual se arrependeriam depois os pastores e teólogos Daniel Tilenus(1563-1633), Thomas Goad(1576-1638) e John Hales(1584-1656), que participaram do Sínodo de Dort, mas depois se tornaram arminianos. Sobre o Sínodo de Dort, o rei Tiago I, da Inglaterra, que inicialmente aprovara a realização do conclave, enviando uma representação britânica, diria também, um ano após aquela decisão: ‘’Essa doutrina[definida nos Cânones de Dort] é tão horrível que estou persuadido de que se houvesse um concílio de espíritos imundos reunidos no inferno, e seu príncipe, o Diabo, fosse colocar a questão a todos eles em geral, ou a cada um em particular, para obter sua opinião sobre o meio mais provável de incitar o ódio dos homens contra Deus, seu Criador, nada poderia ser inventado por eles que seria mais eficaz para esse propósito’ (A mecânica da Salvação Pág 272-275).Ainda Vale Ressaltar que o Supralapsarianismo foi condenado no Sínodo de Dort.
Os cânones de Dort condenou a dupla predestinação supralapsariana juntamente com os remonstrantes,na época o supralapsarianismo só não foi completamente condenado por causa de um argumentum ad verecundiam de Francisco Gomarus. “Os Cânones são infralapsarianos. De fato, a oposição ao supralapsarianismo foi tão forte que a certa altura, o bispo Carleton pediu que o supralapsarianismo fosse incluído entre os erros rejeitados.
Para evitar essa decisão, Gomarus apelou para a autoridade de teólogos ingleses como William Perkins e sobre sua reputação foi capaz de evitar a condenação.”(White, Predestination, Policy, and Polemic, p. 185. Citado por Steven Wedgeworth em “The Canons of Dort and the Complexity of Being Reformed”)AGORA VEJAMOS OS CONCÍLIOS ONDE A DUPLA PREDESTINAÇÃO AGOSTINIANA FORAM REJEITADAS
CONCÍLIO DE ARLES 475 d.c”Condeno juntamente com vós aquela sentença que (…) diz que Cristo Senhor e Salvador não morreu para a salvação de todos; que diz que a presciência de Deus violentamente empurra o homem para a morte, ou que pela vontade de Deus perecem os que perecem”2 CONCÍLIO DE ORANGE 529 d.c”No entanto, sobre alguns serem predestinados pelo poder divino para o mal, não só não cremos, como também se houve qualquer um que se atreva a crer em tamanho erro, com toda detestação pronunciamos o anátema contra ele”.”CONCÍLIO DE QUIERSY 853 d.c”corroborado pelo de Valência, assevera: “O homem, ao fazer um mau uso do seu livre-arbítrio, pecou e caiu; daí vem esta massa de perdição do gênero humano inteiro. Deus justo e bom escolheu nessa massa, pela sua presciência, aqueles que por sua graça predestinou à vida, e ele os há predestinado para a vida eterna. […] E assim dizemos que há apenas uma predestinação de Deus, que pertence ao dom ou graça ou retribuição da justiça. A liberdade da vontade, a perdemos no primeiro homem, e a recuperamos por Cristo Nosso Senhor, e temos livre-arbítrio para o bem,prevenido e ajudado pela graça”.CONCÍLIO DE VALÊNCIA 855 d.c“Como o Sínodo de Orange, nós lançamos o anátema a todos os que disserem que alguns homens são predestinados para o mal pelo poder de Deus”. E ainda, para que não haja dúvida: “Fielmente sustentamos que Deus sabe de antemão e eternamente conhecia tanto o bem que os bons haveriam de fazer quanto os males que os maus haveriam de cometer, pois temos a Palavra da Escritura que diz: ‘Deus eterno, que é conhecedor do escondido e tudo sabes antes que aconteça’. […] Não cremos que a presciência de Deus a ninguém impõe a necessidade de ser mau, como se não pudesse ser outra coisa, se não que este há de ser por sua própria vontade o que Deus, que sabe de tudo antes que tudo suceda, previu por sua onipotente e incomunicável majestade. […] E não cremos que ninguém será condenado por juízo prévio, se não por merecimento de sua própria iniquidade, nem que os maus se perderam porque não puderam ser bons, mas porque não quiseram ser bons e por sua culpa permaneceram na massa de condenação pela culpa original e pela atual”.Como podemos ver,a Dupla Predestinação de Agostinho influenciada pelo Maniqueísmo e Gnosticismo,foram rejeitadas majoritariamente a quase mil anos antes do vergonhoso Sinodo de Dort.Por Madson JunialyssonFONTES:
 (White, Predestination, Policy, and Polemic, p. 185. Citado por Steven Wedgeworth em “The Canons of Dort and the Complexity of Being Reformed”)
A Mecânica da Salvação (Silas Daniel)
Paulo Cézar Antunes.
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DISTINÇÃO ENTRE ARMINIANOS E REMONSTRANTES

DISTINÇÃO ENTRE ARMINIANOS E REMONSTRANTES

  1. Jacó Armínio (1560 – 1609) morreu como pastor e professor das igrejas reformadas na Holanda. Nos seus últimos anos ele teve muitas discussões com Francisco Gomarus, que era um supralapsarianista e monergista, enquanto Armínio era sinergista.
  2. Depois da morte de Armínio, os amigos e alunos dele (exemplo, Uytenbogaard e Simão Episcópio (1583-1643) e Hugo Grócio (1583 – 1645) se reuniram e escreveram a Remonstrância. Nesse documento eles resumiram a sua fé em cinco pontos falando sobre a sua salvação em Cristo Jesus. O que chamou a atenção foi o ponto que diz que o homem pode resistir a graça de Deus. Eles foram chamados “os Remonstrantes” e foram condenados pelo Sínodo de Dort em 1618/19. Simão Episcópio se tornou líder dos Remonstrantes e foi provavelmente o autor dos principais documentos do Remonstrantismo daquela época.
  3. Um remonstrante da terceira geração é Philip Limborch (1633-1712). Ele levou a teologia do arminianismo para mais perto do liberalismo, com o subsequente “arminianismo de cabeça”. A teologia de Limborch estava mais próximo do semipelagianismo do que os ensinos de Armínio. Roger E. Olson observou: “A partir da época de Limborch, muitos arminianos, em especial aqueles na Igreja de Inglaterra e nas igrejas congregacionais, mesclaram o arminianismo com a nova religião natural do Iluminismo; eles se tornaram os primeiros liberais dentro do protestantismo.”
  4. Na Nova Inglaterra, John Taylor (1694-1761) e Charles Chauncy (1706-1787), de Boston, representavam o ‘arminianismo de cabeça’ que, com frequência e perigosamente, inclinava-se ao pelagianismo, universalismo e até mesmo ao arianismo (negação da plena deidade de Cristo).
  5. João Wesley (1703-1791) se intitulava “arminiano” e defendeu o arminianismo das acusações de que ele levava à heterodoxia e, se não, à total heresia. Wesley defendeu o sinergismo ao enfatizar que a graça preveniente de Deus é absolutamente necessária para a salvação. Wesley é a maior fonte do ‘arminianismo de coração’. Após a morte de Wesley, a maioria dos teólogos arminianos preeminentes tornaram-se seus seguidores. Wesley ensinou a possibilidade da plena santificação, que não é típica de todos os arminianos, mas que é consistente com os ensinamentos do próprio Armínio.
  6. O primeiro teólogo sistemático do metodismo foi, de fato, John Fletcher (1729-1786), cujas obras escritas preenchem nove volumes. Ele produziu cuidadosos e hábeis argumentos contra o calvinismo e em favor do arminianismo.
  7. Um dos teólogos arminianos mais influentes do século XIX foi o metodista britânico Richard Watson (1781-1833), cujas Institutas Cristãs (1823) forneceram ao metodismo seu primeiro texto autoritativo de teologia sistemática. Ele demonstrou cuidadosamente a deserção dos remonstrantes posteriores, tal como a de Limborch, da verdadeira herança arminiana. O arminianismo de Watson fornece uma espécie de modelo de excelência para os arminianos evangélicos, ainda que, em grande parte, não seja aplicável aos dias de hoje.
  8. Outros metodistas importantes e teólogos arminianos do século XIX incluem Thomas Summers (1812-1882). Ele escreveu a Systematic Theology: A Complete Body of Weslean Arminian Divinity (1888), que se tornou um compêndio padrão para os arminianos na última parte do século XIX. Como Watson, ele mostra o abandono de Limborch e outros remonstrantes posteriores de Armínio (e dos primeiros remonstrantes) para o semipelagianismo e à teologia liberal.
  9. William Pope (1822-1903) contribuiu com um sistema de teologia de três volumes: A Compendium of Christian Theology (1874). Ele apresenta uma descrição detalhadamente protestante da teologia arminiana, que não deixa dúvidas acerca de seu compromisso com a teologia reformada, incluindo a salvação pela graça por meio da fé somente.
  10. Um dos teólogos arminianos mais controversos do século XIX foi o sistematicista metodista John Miley (1813-1895), cuja Systematic Theology levou B.B. Warfield, teólogo calvinista de Princeton, a publicar um extenso ataque. Miley apresentou uma tendência ligeiramente liberalizante na teologia arminiana wesleyana. Embora tenha alterado algumas posições arminianas tradicionais em uma direção mais moderna, Miley permaneceu um arminiano evangélico. De algumas formas, ele representa uma ponte entre o arminianismo evangélico e ortodoxo (Armínio, Wesley, Watson, Pope e Summers).
  11. Charles Finney (1792-1875) vulgarizou a teologia arminiana ao negar algo que Armínio, Wesley e todos os arminianos fieis antecessores dele haviam afirmado e protegido. Estes afirmaram a depravação total herdada como a total incapacidade independente de um despertamento sobrenatural, despertamento este chamado de graça preveniente. Mas Finney negava a necessidade da graça preveniente. Para ele, razão, desenvolvida pelo Espírito Santo, faz com que o coração se volte para Deus. Ele chamou a doutrina arminiana clássica da habilidade graciosa (habilidade de exercer uma boa vontade para com Deus outorgado pelo Espírito Santo através da graça preveniente) de um “absurdo”.
  12. O século XX testemunhou o fim do sinergismo evangélico entre as principais denominações, incluindo o Metodismo, na medida em que caíram na teologia liberal. O arminianismo implacavelmente não conduz ao liberalismo, e isso está provado pelo crescimento das formas conservadoras do arminianismo entre os Nazarenos, pentecostais, batistas, igrejas de Cristo e outros grupos evangélicos. Todavia, muitos destes arminianos do século XX negligenciam ou mesmo rejeitam o rótulo de arminiano por uma variedade de razões, não sendo uma das menos importantes o sucesso dos calvinistas em definir o arminianismo de acordo com a teologia de Finney, que era considerado como modelo de um verdadeiro arminiano.
  13. H. Orton Wiley (1877-1961), líder da igreja do Nazareno, que escreveu a obra Christian Theology de três volumes e um resumo de um volume da doutrina cristã, manteve o rótulo arminiano. O arminianismo de Wiley é uma forma particularmente pura do arminianismo clássico com o acréscimo do perfeccionismo wesleyano (que nem todos os arminianos aceitam). Toda bondade, incluindo as primeiras inclinações do coração para com Deus, é atribuída unicamente à graça de Deus. Como Watson, Summers, Pope e Miley, Wiley insiste em uma diferença entre semipelagianismo e o verdadeiro arminianismo.
  14. Outro teólogo arminiano do século XX é o metodista evangélico Thomas Oden. A sua obra The Transforming Power of Grace (1993) é uma pedra preciosa da soteriologia arminiana. Mas o próprio Oden não se considera como arminiano.
  15. Outros teólogos arminianos do século XX (alguns dos quais não querem ser chamados de arminianos) são os batistas Dale Moody, Stanley Grenz, Clark Pinnock e H. leroy Forlines, Jack Cotrell e os metodistas I. Howard Marshall e Jerry Walls.

Uma das dúvidas que está ligada com essa definição dos remonstrantes é se os arminianos são seguidores críticos de Calvino ou se eles são um desvio do Calvinismo; Eles fazem parte do grande movimento do protestantismo, como os Luteranos, ou devem ser considerados como heréticos, como os pelagianos e semipelagianos? Na próxima postagem, eu planejo escrever um pouco mais acerca disso.

Livro de referência: OLSON, Roger E. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Reflexão, 2013.

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Teologia

A HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO DE RM 9

UMA HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO DE ROMANOS 9: 6-13 NO PERÍODO PATRÍSTICO

VIA PALEO ORTODOXO

Por JOHN MOON

Hons. B.Sc., University of Toronto, 2008 M.Div., Trinity Evangelical Divinity School, 2013

INTRODUÇÃO

Ao longo da história da igreja, poucos textos foram mais debatidos do que o capitulo nove de Romanos de Paulo. Orígenes e seus adversários cristãos gnósticos (III sec.), Agostinho e Pelágio (V sec.), Calvino e Armínio (XVI sec.), e intérpretes modernos também têm debatido e discordado sobre a interpretação do capítulo. O que está em jogo é o próprio caráter de Deus na maneira como ele escolheu seu povo. Deus não cumpriu sua promessa de salvar Israel apenas para cumprir essa promessa na Igreja? Ou o plano de Deus sempre foi salvar apenas alguns e não outros? Ele predetermina o destino dos indivíduos, predestinando alguns para a salvação e outros para condenação? Se sim, então Deus é injusto por punir aqueles que ele rejeitou? Ou ele está simplesmente agindo de uma forma misteriosa? E se Deus predetermina o destino eterno das pessoas, então por que Paulo mais tarde falaria como se a escolha humana importasse para receber a salvação (por exemplo, Rom. 11: 22-23)? É Paulo inconsistente? Ou Romanos 9 não é realmente sobre predestinação? Estas são algumas das perguntas que foram suscitadas por Romanos 9.

Dada a diversidade de opiniões sobre Romanos 9, uma história da interpretação seria um exercício útil, e esperançosamente interessante. Como e por que os intérpretes leem este capítulo diferentemente ao longo dos anos? Esta é a principal questão que desejamos responder em nossa história da interpretação, e respondendo a isso, queremos entender melhor as questões que diferenciam uma interpretação de outra. Para responder a essa pergunta, escolhemos quatro perguntas gerais para guiar-nos ao longo da nossa história. (1) Que suposições vários intérpretes trouxeram ao texto? Eles tinham compromissos filosóficos ou teológicos que guiavam sua leitura? (2) O que foi o contexto polêmico em que este texto foi interpretado? O intérprete foi influenciado por um oponente? (3) De que tradições os intérpretes extraíram? Os intérpretes estavam reproduzindo interpretações anteriores? E (4) Quais decisões exegéticas estavam sendo feitas? Ao prestar atenção às decisões de cada intérprete em questões-chave, esperamos apreciar as possibilidades e ambiguidades da leitura de Romanos 9. Com estas quatro perguntas em mente, desejamos entender como a interpretação de Romanos 9 tomou essa forma.

Houve histórias anteriores de interpretação em Romanos 9, mas geralmente um ou mais dos quatro elementos listados acima estão faltando, tornando assim essas histórias úteis de outra forma incompleta. (1) Em 1895, William Sanday e Arthur C. Headlam forneceram uma história de interpretação em Romanos 9: 6-29 em um Comentário Crítico e Exegético sobre a Epístola ao Romanos [1]

Enquanto eles eram concisos e perspicazes, eles ignoraram uma série de posições exegéticas de cada intérprete, e eles foram talvez demasiadamente concisos para o não especialista perceber como exatamente o mito mantido por vários Cristãos Gnósticos influenciou sua leitura de Romanos 9.

Além disso, considerando a visão tardia de Orígenes e sua influência limitada no Ocidente latino, alguns perderam o significado total da influência do Cristianismo Gnóstico em Orígenes. E finalmente, eles não levaram em consideração como o contexto Maniqueísta pode ter influenciado as interpretações na Nicéia latina de Romanos 9. (2) Em 1956, Karl H. Schelkle organizou magistralmente a interpretação patrística de Romanos 1-11 em Paul, Teacher of the Fathers: The Patristic Interpretation of Romans 1-11 (Paulus Lehrer der Väter: Die altkirchliche Auslegung von Römer 1-11) .2[2]

Enquanto Schelkle forneceu mais detalhes sobre posições exegéticas do que Sanday e Headlam, seu atual arranjo do material dificulta que o leitor compreenda o fluxo da interpretação de cada exegeta. Além disso, enquanto Sanday e Headlam pelo menos mencionaram a intepretação Gnóstica primitiva sem dizer nada sobre os Maniqueus, Schelkle não mencionou os dois. Assim, embora tenhamos antecessores úteis para nossa história da interpretação, acreditamos que existe ainda mais trabalho a ser feito e novos insights a serem obtidos.

Devido aos limites do espaço, decidimos restringir o escopo de nossa história da interpretação de duas maneiras. Primeiro, vamos limitar nosso tratamento ao período patrístico, já que a interpretação patrística de Romanos 9 determinaria a interpretação dos séculos posteriores. E dentro do período Patrístico, só seremos capazes de nos concentrar em alguns dos mais proeminentes intérpretes. E segundo, vamos limitar nossa atenção a Romanos 9: 6-13. A razão para isso é que esses versículos afetam muito a maneira como se lê o restante do capítulo.[3]

Quando Paulo lida com a questão da justiça de Deus em 9: 14-18, ele está olhando para o que ele disse em 9: 6-13, de modo que se interpretarmos erroneamente 9: 6-13, provavelmente interpretaremos erroneamente 9: 14-18. Dito isto, o foco de nossa história será 9: 6-13, mas também comentaremos em 9: 1-5 e 9: 14-18 na medida em que isso nos ajude a entender 9: 6-13.

No capítulo 1 de nossa história, trataremos cada um dos interprete por sua vez. Desde que a interpretação de Paulo surgiu primeiro no Oriente grego, e depois no Ocidente latino, nossa história tratará as tradições Grega e Latina nessa ordem. Procedendo em ordem cronológica, nossa história pode colocar a leitura de 9: 6-13 de cada intérprete em seu contexto histórico e apreciar a leitura contínua de cada um desses versículos. Em seguida, no Capítulo 2, resumiremos nosso histórico cronológico por tópico, a fim de considerar vários problemas com maior foco. A maioria dos tópicos foi escolhido considerando questões-chave nas subdivisões do argumento de Paulo (vv. 1-6, 7-9,10-13, 14-18), enquanto outros tópicos lidam com questões mais gerais que são mais ou menos discutidas em relação a 9: 6-13 (relação de Paulo com o Judaísmo, predestinação e passagens cognatas). Ao longo da nossa história, vamos discutir cinco pontos gerais: (1) a interpretação patrística de Rom. 9: 6-13 destaca algumas das ambiguidades e possibilidades de interpretar essa passagem; (2) o leitura predestinacionista patrística de 9: 6-13 estava em dívida com as influências de Gnóstico e o Cristianismo Maniqueísta; (3) A interpretação de Orígenes destes versículos teve uma influência significativa em leituras subsequentes nas tradições Gregas e Latinas; (4) a leitura final de Agostinho sobre essas passagem não se desenvolveu simplesmente por “uma leitura mais cuidadosa e honesta de Paulo”; e (5) o apelo patrístico para passagens cognatas nas cartas de Paulo (ou seja, passagens contendo palavras semelhantes e ideias) indica um caminho promissor no desenvolvimento da interpretação de 9: 6-13. Desde que a nossa história faz referência frequente a Romanos 9, vamos supor que o leitor tenha lido atentamente este capítulo e está familiarizado com o fluxo básico do argumento de Paulo. Desde que os intérpretes patrísticos usaram suas próprias versões das Escrituras, usaremos suas versões traduzidas por seus tradutores.[4]

  1. ROMANOS 9: 6-13 NO PERÍODO PATRÍSTICO

1.1 A Tradição Grega

1.1.1 Cristãos Gnósticos (II – III Sec. C.E.)

A primeira interpretação existente de Romanos 9: 6-13 veio de um grupo de gnósticos Cristãos no final do segundo até o início do terceiro século. [5] A antiga religião Gnóstica foi um fenômeno incrivelmente diversificado, dificultando a definição, mas, ainda assim, foi unificada pelo conceito de γνῶσις (gnōsis, “conhecimento”), uma iluminação interior que libertou uma pessoa do mundo material e o retornou ao divino.[6] Formas Gnósticas do Cristianismo acabaram por se desenvolver e forma antagônicas no segundo e terceiro séculos. Mas contra essa oposição, muitos Cristãos Gnósticos apoiaram suas ideias através das cartas de Paulo e se tornaram os primeiros intérpretes sistemáticos do apóstolo. Sua interpretação de 9:6-13 foi preservada para nós indiretamente através do trabalho anti-gnóstico de Orígenes, Sobre os Primeiros Princípios (De principiis) (começo do III século ), onde ele resume os seguidores dos ícones do segundo século, Marcião, [7] Valentino e Basilides.[8] E, embora um viés possa levá-lo a deturpar seus pontos de vista, em breve veremos que o resumo é consistente o suficiente com o que encontramos em fontes Gnósticas e não Gnósticas. Para melhor entender como esses Cristãos Gnósticos interpretaram 9: 6-13, primeiro faremos um provável esboço de seu mito do cosmos, uma vez que seu mito determinava a direção de sua interpretação. Em particular, vamos nos concentrar em uma forma do segundo século do mito[9] “Valentiniano”.[10] Enquanto diferentes valentinianos deram diferentes versões do mito, Gnóstico e não Gnóstico, as descrições do mito compartilham os mesmos contornos gerais,[11] e são esses contornos gerais que vamos agora considerar.

No mito valentiniano, Deus é o Ser Supremo. No começo, ele continha em si Pensamento e Silêncio, que geraram a Mente e a Verdade, que por sua vez geraram a palavra e a vida e assim por diante. E como cada par formou outra realidade, um total de trinta seres foi gerado, com a Sabedoria sendo a última. A totalidade deste mundo divino perfeito foi chamado de Pleroma, e cada habitante do Pleroma foi chamado de aeon. Tudo foi harmonioso no Pleroma, até que finalmente ocorreu uma separação. Sabedoria, sem culpa própria, e certamente sem culpa de Deus, desejava conhecer a Deus, conhecer sua origem, mesmo isto sendo considerado impossível. Através de uma série de eventos, a separação foi acalmada, mas o resultado final foi que uma versão agora manchada da Sabedoria que foi expulsa do Pleroma, enquanto uma versão pura da sabedoria permaneceu. A Sabedoria Expulsa, chamada “Achamoth”, gerou o Demiurgo, o Criador do universo físico, e o Demiurgo criou um universo que consistia de um elemento psíquico (alma) e um elemento material (matéria). Desde a criação do Demiurgo de todas as coisas, incluindo o diabo, os valentinianos passaram a explicar a origem do mal e sofrimento.

Como os humanos se encaixam nessa grande história? Os valentinianos explicaram que a maioria dos humanos são compostos apenas de matéria e alma. Isso significa que eles são felizes neste mundo e em última análise, perecem com este mundo. Outros, no entanto, não são tão felizes. Na verdade, eles sentem uma profunda sensação de alienação. E a explicação para isso é que quando a Sabedoria foi expulsa, ela involuntariamente levou consigo um pouco do elemento espiritual (espírito) do Pleroma que depois foi distribuído para o Demiurgo e para o eu interior de apenas alguns seres humanos. Como resultado, esses humanos – os “pneumáticos” (ou seja, “espirituais”) – têm um senso interno de que eles realmente pertencem a outro mundo, e é por isso que eles não são felizes no mundo atual. É apenas através do gnōsis – conhecimento de sua origem e do destino final – que eles podem “ver o grande personagem ”e aprender a transcender o mundo material. Assim, de acordo com os valentinianos, a salvação não foi do pecado pela fé, mas da ignorância pelo conhecimento. Este conhecimento, no entanto, não poderia ser obtido por meio da investigação racional, mas apenas através da revelação. Assim, quando o Cristo pré-existente, um dos eons do Pleroma, desceu ao mundo material como Jesus, ele revelou este conhecimento salvador aos discípulos de confiança que então passaram para os espirituais.

Assim, de acordo com o mito valentiniano, a humanidade é dividida desde o nascimento nos espirituais e os não espirituais. Certas pessoas são, por sua própria natureza, destinadas à salvação enquanto outros não são. E foi precisamente essa crença que guiou a leitura de Rom. 9: 6-13 por um grupo de Cristãos Gnósticos. Embora Orígenes se opusesse a esses Gnósticos, parece que ele estava geralmente correto em seu resumo de sua posição. Orígenes disse: “há numerosos indivíduos” das escolas de Marcião, Valentino e Basilides “que. . . Ouvi dizer que existem almas de diferentes naturezas ”. Além disso, esses cristãos gnósticos argumentaram a partir de 9: 6-13 que “uma parte melhor no nascimento é o caso de alguns, e não de outros; como [Isaque], ou seja, é gerado de Abraão, e nascido da promessa; [Jacó] também de Isaque e Rebeca, e que, enquanto ainda no ventre. . . é dito ser amado por Deus antes de nascer. ”[12] Em outras palavras, esses cristãos gnósticos sustentavam que Isaque e Jacó eram predestinados a bênção porque nasceram com natureza espiritual, enquanto Ismael e Esaú foram rejeitados por causa de sua natureza não-espiritual.[13] Depois de fazer essa observação, esses cristãos gnósticos deram um passo interpretativo crítico. Para eles, a predestinação dos patriarcas em 9: 6-13 não era um detalhe incidental do texto. Nem foi a predestinação patriarcal exclusiva dos patriarcas. Em vez disso, a predestinação do patriarca era paradigmática para o modo como todos os seres humanos são predestinados. Todos os seres humanos nascem como espirituais ou não espirituais, assim como os patriarcas. Esses cristãos gnósticos assumiram que 9: 6-13 era sobre a predestinação de toda a humanidade, e essa suposição era necessária se esses versículos fossem apoiar seu mito.[14]

Assim, uma leitura predestinacionista de 9: 6-13 surgiu quando vários cristãos gnósticos tentaram usara estes versos para apoiar o seu mito. À medida que continuamos com a nossa história, argumentaremos que a sua opinião sobre 9: 6-13 – que diz respeito à predestinação – influenciaria muitos em todo o período Patrístico. Dois intérpretes que conscientemente leem 9: 6-13 em oposição a esses cristãos gnósticos são Irineu e Orígenes, e é para as interpretações deles que agora nos voltamos.

1.1.2 Irineu (Cerca de 130 – 202 dC.)

Como bispo de Lyon na França,[15] Irineu escreveu Contra as Heresias (Adversus haereses) durante a década de 180 dC., um trabalho de cinco volumes destinado à exposição e refutação das formas de Cristianismo Gnóstico. No quarto volume, ele forneceu a primeira citação conhecida de Rom. 9:10-12. Os Marcionitas argumentaram que o enfurecido deus-Criador do Antigo Testamento era um ser inteiramente diferente do deus amoroso do Novo Testamento,[16] e em resposta, Irineu ofereceu uma série de argumentos para mostrar que os deuses dos dois testamentos eram de fato um e o mesmo. Para este fim, ele usou 9: 10-12 para mostrar que o Cristianismo era prefigurado no Antigo Testamento: assim como a fé de Abraão prefigurou a fé dos Cristãos (Gálatas 3: 5-9), assim também os nascimentos de Jacó e Esaú (Romanos 9: 10-12) tiveram um significado futuro.[17]

De acordo com Irineu, Jacó e Esaú em 9: 10-13 não eram símbolos de toda a humanidade, mas de duas nações em particular: a Igreja e Israel. Ele chegou a esta conclusão, olhando para o contexto original da citação de Paulo de Gênesis 25:23 em Rom. 9:12 Paulo citou a conclusão do versículo, dizendo ” . . . o mais velho servirá ao mais novo ”, mas o versículo começou com Deus dizendo a Rebeca, “Duas nações estão em seu ventre e dois tipos de pessoas estão em seu corpo; e uma pessoa deve superar a outra. . . ”[18] Depois de citar este material adicional, Irineu identificou os duas nações como a Igreja e Israel: “[Jacó] recebeu os direitos dos primogênitos, quando seu irmão olhou para eles com desprezo; mesmo como também a nação mais jovem [i.e. a Igreja] recebeu a Ele, Cristo, o primogênito, quando a nação mais velha [ou seja, Israel] rejeitou-o, dizendo: “Temos nenhum rei senão César ‘[João 19:15]. ”[19] Como resultado, “ o último povo arrebatou as bênçãos do primeiro do Pai, assim como Jacó tirou a bênção deste Esaú. ”[20] identificando os gêmeos com a Igreja e Israel, Irineu foi capaz de argumentar que, como os gêmeos tinham um e o mesmo pai, assim também a Igreja e Israel dividiram um e o mesmo Deus: o Deus do Antigo e o Novo Testamento.[21]

Irineu não mencionou uma interpretação Gnóstica de Rom. 9: 6-13, como Orígenes, mas, no entanto, ele evitou qualquer noção de eleição que negasse o livre-arbítrio. Para Irineu, o motivo porque Deus amou Jacó e odiou Esaú (9:13) foi porque Deus é quem “sabe todas as coisas antes que elas possam acontecer. ”[22] O que Deus sabe de antemão? Presumivelmente, ele pré-conhece se uma pessoa vai escolher crer ou não. Em outro lugar, Irineu disse do Faraó em 9: 14-18 que Deus não faz com que as pessoas pequem, mas “Deus, conhecendo o número daqueles que não crerão, desde que ele pré-conhece todas as coisas, as entregou – à incredulidade. . . deixando-as na escuridão que eles escolheram para si mesmos. ”[23] Deus aceita ou rejeita pessoas com base em sua presciência de suas próprias escolhas, e pode-se esperar uma explicação semelhante da presciência de Deus em relação a Jacó e Esaú em 9: 10-13. No entanto, é curioso por que Irineu sentiu a necessidade de explicar a distinção pré-nascimento de Deus sobre os gêmeos, já que Jacó e Esaú simbolizaram duas nações, não todos os seres humanos em individual. É provável que Irineu, que conhecia a doutrina Gnóstica das naturezas, [24] estava salvaguardando contra como um Cristão Gnóstico poderia entender essa passagem. Esta polêmica anti-gnóstica contra a doutrina das naturezas é demonstrada no caso de Orígenes.

1.1.3 Orígenes (185-254 dC)

Nascido e criado em Alexandria, Orígenes começou a ensinar gramática e catecismo Cristão com a idade de dezoito anos.[25] Pouco antes de deixar sua cidade natal em 231 dC, ele escreveu um livro sobre Doutrina Cristã, Sobre os Primeiros Princípios (De principiis), [26] e durante sua subsequente residência em Cesaréia na Palestina, ele escreveu seu magistral Comentário sobre Romanos (Commentarii in Romano) entre 246 e 248 dC. [27] Ambas as obras são fortemente anti-gnósticas estão preocupados em defender o livre-arbítrio[28]. Nelas, temos nossas principais fontes para a interpretação de Rom. 9: 6-13 de Orígenes. Elas são preservadas para nós em alguns fragmentos Gregos, mas nós os possuímos principalmente através das traduções Latinas de Rufino no início do quinto século.[29] Dado a influência de Orígenes em comentários posteriores sobre Romanos, vamos expor suas opiniões em alguns detalhes. Além disso, desde que o seu Comentário trata 9: 6-13 e o seu contexto em sequência, usaremos o seu Comentário para estruturar o nosso resumo da leitura de Orígenes, acrescentando perspectivas a partir de Sobre os Primeiros Princípios, quando apropriado.

Orígenes explicou em seu Comentário que Paulo expressa sua sincera tristeza em 9: 1-5 sobre seus parentes Israelitas: tendo rejeitado o Messias, [30] eles estão perdidos e condenados. Ele poderia desejar que ele mesmo fosse separado de Cristo por causa deles (9: 3), visto que eles são Israelitas, o povo escolhido de Deus que herdou inúmeros dons, incluindo a promessa de bênção dada a Abraão (9: 4-5) .[31] E aqui reside o problema: se Deus prometeu abençoar Israel, então por que, na era messiânica Israel não está sendo abençoado? Deus quebrou sua promessa?

Ao contrário, Paulo diz em 9: 6a que “a palavra de Deus não falhou”: o comentário de Orígenes entende que isso significa que “a promessa que foi feita aos [Israelitas] não foi em vão”.[32] Pois essa promessa tem sempre se cumprido não naqueles que são meramente nascidos de Israel, mas naqueles que são “verdadeiramente de Israel” (9.6b).[33] Para Orígenes, “o verdadeiro Israel” consiste naqueles que veem – isto é, creem em – Deus, assim como Jacó se tornou Israel depois de ver a Deus (Gên. 32: 28,30).[34] E assim também na era messiânica, “aquele que não tem visto aquele que disse: “Aquele que me vê também vê o Pai ‘[João 14: 9] não pode ser chamado de Israel.”[35] Assim, quando Paulo lista os privilégios de Israel em 9: 4-5, ele estava listando os privilégios do verdadeiro, do Israel que crê, não os privilégios de todo Israelita por nascimento. Aqueles Israelitas que provaram ser infiéis foram efetivamente deserdados desses privilégios.[36]

Em seu Comentário, Orígenes viu o mesmo argumento em 9: 7-8, mas agora através das narrativas basilares de Israel. De acordo com Orígenes, Paulo disse em 9: 7a que nem todos os filhos naturais de Abraão são herdeiros da bênção prometida, pois esse não era o caso nos dias de Abraão.[37] Orígenes explica que, embora Abraão tivesse muitos filhos, somente Isaque, o assim chamado “filho da promessa”, foi contado como seu herdeiro (9: 7); [38] e assim também na era messiânica, é nos “filhos da promessa” (τὰ τέκνα τῆς ἐπαγγελίας, ta tekna tēs epaggelias) que a promessa está sendo cumprida (9: 8). O que significa ser um “filho da promessa”? Orígenes se inspirou na descrição dos herdeiros de Abraão em 4: 12-13 e disse que “os filhos da promessa de acordo com Isaque ”são os“ filhos” daquela fé pelos quais Abraão foi digno de receber a promessa da herança futura.”[39] Isto é, eles são aqueles como Isaque que receberam a promessa seguindo o exemplo de fé de Abraão (cf. Gn 26: 1-6). Ou mais simplesmente, eles são aqueles que creram que na promessa.[40] Assim, de acordo com a leitura de 9: 7-8 de Orígenes, Paulo enfatizou seu argumento em 9: 6b que as promessas foram dadas àqueles que creram; em 9: 6b os crentes foram chamados de “verdadeiro Israel”, em 9: 8 eles são chamados de “filhos da promessa”.

Uma semelhança adicional entre os herdeiros de Isaque e Abraão na era messiânica é que eles são gerados pela palavra e pelo poder de Deus.[41] Quando Paulo cita a promessa de Deus de Isaque em 9: 9,

Orígenes diz o seguinte:

Ele está dizendo, portanto, que não é no curso de um nascimento carnal que Isaque nasce, desde que Abraão já foi considerado como tendo um corpo adormecido e o útero de Sara estava morto, pois foi dito acima [Rom. 4:19]. Mas é através do poder daquele que disse: “Neste tempo eu virei e Sara terá um filho ”[Gen. 18:10, 14; Rom. 9: 9]. Portanto, ele é chamado um filho por mérito, não da carne, mas de Deus, que nasce da vinda e da palavra de Deus.[42]

Embora Rom. 9: 9 usou a promessa de Isaque em Gênesis 18:10, 14 para explicar que Isaque era um filho de promessa, Orígenes usou para explicar que Isaque era filho de Deus.[43] De acordo com Orígenes, Os herdeiros de Abraão sempre foram filhos de Deus como Isaque, porque nascem da palavra e poder de Deus.

Romanos 9: 10-13, para Orígenes, reforçou o mesmo argumento em 9: 6-9, mas desta vez através da história de Jacó e Esaú. A história deles ensinou que a eleição não é “pelas obras, mas por aquele que chama ”(9:11), que significou para Orígenes que não são “aqueles que são filhos da carne, mas aqueles que são filhos de Deus que são contados como descendentes.”[44] Enquanto em 9: 8 “o filho da carne” significou descendentes físicos de Abraão, aqui Orígenes aplicou o termo para significar aqueles que confiam em suas obras para a salvação. “O filho de Deus”, por outro lado, são aqueles que são chamados de acordo com o propósito de Deus, que Orígenes expõe em 8: 29-30: o propósito de Deus é chamar aqueles a quem ele pré-conheceu e predestinou.[45]

Como já vimos (seção 1.1.1), Orígenes tinha plena consciência de que muitos Cristãos Gnósticos estavam usando 9: 6-13 para apoiar sua doutrina predestinacionista das naturezas. E tanto quanto nós podemos dizer, sua primeira resposta a eles em Sobre os Primeiros Princípios não foi dar uma interpretação alternativa que já existia nos círculos Cristãos, mas para fornecer sua própria resposta original desenvolvida em resposta direta aos seus oponentes. Ao formular sua resposta, no entanto, ele prontamente aceitou a suposição deles de que 9: 6-13 era sobre a predestinação de todos os seres humanos. Isto não é surpreendente, pois Orígenes recebeu muito mais de seus adversários Gnósticos. De acordo com Peter Gorday, grande parte da polêmica anti-gnóstica de Orígenes em Sobre os Primeiros Principios foi encontrada em expoentes como Clemente de Alexandria e Irineu,

. . . mas o uso específico e cuidadoso das Escrituras, particularmente das passagens de Romanos, é novo e reflete o uso Valentiniano já existente de tais passagens. É talvez a essa conjuntura no desenvolvimento de seu pensamento de que Orígenes pode ser justamente descrito como um “Gnóstico”, isto é, como alguém cuja principal preocupação é descrever o processo da redenção pelo qual a alma caiu em materialidade e obtusidade, pode por iluminação encontrar seu caminho de volta à sua origem celestial e espiritual. O que o impede de cair essencialmente no campo Gnóstico, no entanto, é a convicção da indomável “bondade” e unidade do Deus bíblico e a convicção do livre-arbítrio radical na esfera humana[46].

Orígenes foi influenciado pela leitura dos seus oponentes sobre Romanos em geral, e a suposição de que 9: 6-13 diz que a predestinação foi um exemplo específico dessa influência. Em vez de chamar isso de hipótese em debate, ele prontamente aceitou depois de resumir a posição de seus oponentes. Como veremos, o principal interesse de Orígenes em Sobre os Primeiros Princípios não era tanto uma leitura de Paulo em seus próprios termos, mas sim a refutação de seus adversários Gnósticos e a preservação do livre-arbítrio. Para este fim, uma abordagem predestinacionista para 9: 6-13 era irrelevante, mas apenas se pudesse ser explicado de uma maneira que preservasse o livre-arbítrio. E, de fato, essa é a abordagem que Orígenes adotou. Sim, Deus predestina todas as pessoas no nascimento, mas em que base ele faz essa predestinação? Durante o curso de sua carreira, Orígenes deu duas respostas diferentes que lhe permitiram preservar o livre-arbítrio.

Em seus primeiros trabalhos, Orígenes propôs que a escolha pré-nascimento de Deus fosse baseada nos méritos da alma pré-existente. Em Sobre os Primeiros Princípios, Orígenes rejeitou a visão Gnóstica de que a diversidade do mundo poderia ser explicada por pessoas que têm naturezas diferentes, uma visão que apoiará a partir de Roma. 9: 6-13.[47] Em vez disso, Orígenes, influenciado pela noção Platônica da alma pré-existente (veja, e.g., Fédon 72e-73a; Mênon 81b-d; República X 617d-618b), sustentava que todas as almas em um estado desencarnado, usaram seu livre-arbítrio para mover-se para ou se afastar de Deus.[48] Então, quando Deus criou o mundo físico, ele deu a essas almas corpos diferentes dependendo dos méritos de sua vida anterior. Desta forma, antes de Jacó nascer ou fazer algo de bom ou ruim, “ele era dignamente amado por Deus, de acordo com os méritos de sua vida anterior.”[49] A mesma explicação é dada no Livro 2 do Comentário de Orígenes sobre o Evangelho Segundo João (Commentarii in evangelium Joannis): [50] “Se nós, portanto, não buscarmos as obras, antes desta vida, como é verdade que não existe injustiça em Deus quando o mais velho serve o mais jovem e é odiado, antes que ele tenha feito coisas digna de servidão e ódio?”[51] Essa teoria dos méritos pré-existentes vai muito além de qualquer coisa encontrado nas cartas de Paulo, reiterando que o principal interesse de Orígenes não era uma leitura de Paulo em seus próprios termos, mas a preservação do livre-arbítrio. Como resultado, ele poderia facilmente aceitar uma abordagem predestinacionista para 9: 6-13, desde que pudesse acomodar o livre-arbítrio. Além disso, teorias de méritos pré-existentes certamente levanta questões sobre como Orígenes interpretou Paulo observando que a eleição não é “por obras” (9:12), [52] mas, mesmo assim, deu-lhe uma leitura do livre arbítrio de 9: 6-13.

Em seu comentário posterior sobre Romanos, Orígenes mudou a base da eleição de Deus para sua presciência das obras de uma pessoa. [53] Até onde sabemos, Orígenes foi o primeiro a explicitamente interprete o tema predestinacionista em 9: 6-13 através de 8: 29-30.[54]

Pelo que já explicamos acima [em Rom. 8: 29-30] é igualmente cumprida neles [isto é, Isaque, Jacó e os filhos de Deus]: “Aqueles que ele pré-conheceu, estes ele também predestinou; e aqueles a quem ele predestinou, a estes também chamou; e aqueles a quem ele chamado, estes ele também justificou; e aqueles a quem ele justificou, estes também ele glorificou ”[Rom. 8: 29-30] .[55]

Assim, de acordo com Orígenes, Isaque e Jacó foram predestinados para a glória porque Deus os “conheceu de antemão”, enquanto Ismael e Esaú foram rejeitados porque não eram “conhecidos de antemão”. O que significa ser “conhecido de antemão”? Em seus comentários sobre Rom. 8:29, Orígenes explica que Deus pré-conhencendo pessoas não significa que ele sabe certas coisas sobre eles com antecedência, mas que ele já definiu sua afeição por elas.[56] O “conhecimento” de Deus aqui é um conhecimento íntimo, que é o paralelo de Orígenes a exemplos bíblicos como Gn 4: 1 (“Adão conheceu sua esposa Eva”) e 2 Tim. 2:19 (“O Senhor conhece aqueles que são seus”.[57] Assim, Deus predestinou Isaque e Jacó para a glória simplesmente porque ele intimamente os conhecia e amava antes de nascerem. Mas por isso ainda soar muito determinista, Orígenes acrescenta que Deus os amava antes de nascerem porque ele sabia qual tipo de pessoas eles seriam. [58] Em outras palavras, Orígenes baseia o pré-conhecimento amoroso de Deus em sua presciência factual: Deus sabe quais indivíduos demonstrarão uma “boa vontade. . . para a adoração de Deus ”[59] para que, no final, “a causa da salvação de cada pessoa seja. . . seu próprio propósito e ações.”[60] Da mesma forma, a razão pela qual Paulo foi “separado para o evangelho ” (Rom. 1: 3) foi porque “Deus previu que [ele] trabalharia mais do que todos os outros no evangelho”[61]. Ao explicar a predestinação em 9: 6-13 através 8: 29-30, Orígenes demonstrou sua teoria filosófica em Sobre os Primeiros Princípios e desenvolveu uma explicação que foi mais Paulina, e assim mais bíblica.

Como resultado de sua leitura de 9: 6-13, Orígenes compreendeu 9: 14-19 como outra discussão sobre o tema da predestinação. Dado o tom determinista em 9: 14-19, ele lutou para preservar uma leitura do livre arbítrio, mas ele finalmente resolveu duas interpretações mutuamente inconsistentes. Primeiro, em seu Comentário sobre Romanos, ele colocou 9:14-19 na boca de um oponente imaginário de Paulo.[62] De acordo com esta leitura, o adversário, reagindo a 9: 6-13, perguntou se Deus não é injusto (9:14) uma vez que, como as Escrituras sugerem (9:15, 17), ele arbitrariamente mostra misericórdia e endurece quem quer que seja. Ele deseja (9:16, 18). Além disso, como Deus poderia culpar aqueles a quem ele endurece (9:19)? Paulo finalmente responde em 9:20, “Quem és tu, ó homem, para questionar a Deus?” Desta forma, Orígenes estabeleceu a linguagem aparentemente predestinacionista de 9: 14-19 no oponente de Paulo, enquanto Paulo permaneceu um proponente do livre-arbítrio.

Em uma segunda leitura de 9: 14-19, encontrada tanto Sobre os Primeiros Princípios quanto no Comentário em Romanos, Orígenes explicou que quando estes versículos são apropriadamente compreendidos, eles não negam o livre-arbítrio a todos. Isso, no entanto, suscita a questão de por que Orígenes sentiu a necessidade de relegar versículos aparentemente deterministas para um adversário imaginário.[63] De acordo com Orígenes, Deus mostra misericórdia e endurece quem ele quiser (9:15, 18) não arbitrariamente, mas no sentido que ele tem escolhido para mostrar misericórdia àqueles que cumprem sua vontade e para endurecer aqueles que não a fazem.[64] Além disso, a salvação não é “daquele que quer ou corre, mas de Deus que mostra misericórdia” (9:16), não porque a vontade e o esforço humanos não têm parte a desempenhar na salvação, mas porque a misericórdia de Deus tem prioridade.[65] Como paralelos a essa ideia, Orígenes apela para Sal. 127: 1 (“A menos que o Senhor construa a casa, aqueles que a construíram trabalharam em vão”) e 1 Coríntios. 3: 6-7 (“Eu plantei, Apolo, regou, mas Deus deu o crescimento, para que nem o que planta nem o que rega seja qualquer coisa, mas Deus, que dá o crescimento.) [66] E, finalmente, é Deus que levantou Faraó para demonstrar nele, o que não significa que Deus cria certas pessoas para serem más, mas que Deus, pré-conhecendo que o Faraó usaria seu livre arbítrio para o mal, prudencialmente punindo Faraó para que outros possam ser salvos.[67] Dessa forma, Orígenes ofereceu uma segunda abordagem do livre-arbítrio para 9: 14-19.

Resumindo, a exegese de Orígenes de 9: 6-13 em seu Comentário sobre os romanos foi a mais antiga tentativa existente de interpretar estes versos à luz da angústia de Paulo sobre o Israel incrédulo. Ainda, sua interpretação também ocorreu ao lado de seu debate com seus adversários Gnósticos. Como resultado, ele leu 9: 6-13 como um texto sobre predestinação e esforçou-se por preservar o livre arbítrio, oferecendo uma solução baseado nos méritos preexistentes da alma em Sobre os Primeiros Princípios, e então uma solução baseada na presciência das obras em seu Comentário. Como veremos, o Comentário de Orígenes exerceu uma influência enorme em comentaristas posteriores sobre Romanos, e como resultado, muitos de seus elementos reaparecem.

1.1.4 De Acácio (d. 366 C.E.) para Genadio (d. 471 C.E.)

Considerando a nossa ignorância de como o trabalho de Orígenes passou para escritores posteriores, e dada a preservação de seu Comentário sobre os Romanos em Latim, muitas vezes é difícil saber se um escritor Grego posterior teve acesso direto a Orígenes. [68] No entanto, Schelkle, depois de examinar as interpretações primitivas de Romanos 1-11, concluiu que “muitos elementos significativos da interpretação de Orígenes contribuíram no desenvolvimento da tradição.”[69] Esses elementos são encontrados, por exemplo, em Eusébio de Cesaréia (263-339 dC), Eusébio de Emesa (cerca de 359 dC.), Acácio de Cesaréia (366 dC.), Apolinário de Laodicéia (Cerca de 310-392 dC), Atanásio de Alexandria (cerca de 296-373 dC), os Pais Capadócios, Cirilo de Jerusalém (313-386 dC.) e Cirilo de Alexandria (cerca de 376-444 dC). Na escola antioquena, as interpretações de Orígenes continuaram com Diodoro de Tarso (cerca de 392 dC), Teodoro de Mopsuestia (350-428 dC) e o principal líder dessa escola, João Crisóstomo (347-407 dC). Crisóstomo, por sua vez, tornou-se determinante para a tradição Grega posterior, que algumas vezes reproduzia até mesmo suas palavras. Esta tradição posterior incluiu Teodoro de Ciro (cerca de 393 – 458 dC), que era um aluno de Crisóstomo, Severiano de Gabala ( depois de 409 dC), Genadio de Constantinopla (471 dC), Fotio I de Constantinopla (cerca de 820-891 dC), Oecumenius (X sec. dC) Teofilato de Ohrid (d. 1107 dC), Euthymio Zigbeno (XII sec. dC), [70] e muitos outros.

Em Romanos 9: 6-13, grande parte da antiga interpretação Grega de Acácio de Cesaréia a Genadio de Constantinopla é preservada para nós em fragmentos.[71] Homilias sobre Romanos de João Crisóstomo são uma exceção, mas dada a sua proeminência na tradição Grega, nós comentaremos mais amplamente sobre suas opiniões posteriormente. No geral, a interpretação de 9: 6-13 de Acácio para Genadio reproduziu a abordagem de Orígenes. Dada a natureza fragmentária dessa evidência, nós resumimos suas observações sob quatro tópicos.[72]

(1) Romanos 9: 7-9: Isaque e os filhos da promessa. Como Orígenes, Diodoro de Tarso viram “os filhos da promessa” como aqueles modelados segundo o tipo de Isaque. Mas ao contrário de Orígenes, Diodoro não os definiu como “aqueles que herdam a promessa pela fé”; ao contrário, eles são aqueles que Deus promete como herdeiros porque ele pré-conhece que imitarão a piedade e a justiça de Isaque. [73] Assim, “os filhos da promessa”, para Diodoro, não se referiam àqueles que creem em uma promessa, mas àqueles que vêm a ser por uma promessa. Crisóstomo também viu Isaque como um paradigma para os filhos da promessa, mas ele vai entender o grupo de forma diferente.

(2) Os patriarcas como tipos da Igreja e Israel. Como vimos acima, Irineu viu Jacó e Esaú, respectivamente, como a Igreja e Israel. De acordo com Schelkle, Efraim da Síria acreditava que essa interpretação era evidente.[74] Diodoro de Tarso sugeriu brevemente a tipologia: “A promessa foi dada de acordo com uma decisão justa, e como foi para Isaque, assim também para os Gentios. ”[75] Crisóstomo também relata 9: 6-13 aos gentios e a Israel.

(3) Predestinação baseada na presciência das obras. Acácio de Cesareia rejeitava a visão inicial de Orígenes de que a predestinação era baseada nos méritos da alma pré-existente. Em vez disso, ele seguiu a visão posterior de Orígenes de que Deus escolheu Jacó com base na presciência das obras: ” . . . ele escolheu e preferiu Jacó a Esaú porque ele sabia de antemão as obras de ambos, como o próprio Paulo disse acima: aqueles que ele conheceu, ele também predestinou [Rom. 8:29]. ”[76] Como vimos com Diodoro de Tarso, Deus conhece a justiça e a piedade de uma pessoa. [77] Da mesma forma, um apelo à presciência das obras foi feito por Cirilo de Alexandria, [78] Teodoro de Mopsuestia, [79] Crisóstomo,[80] Teodoreto de Ciro, [81] e Genadio de Constantinopla. [82] Como Orígenes, muitos desses escritores (por exemplo, Teodoro de Mopsuestia, Crisóstomo) não concebiam “obras” como simplesmente o ato externo, mas como o resultado de um coração correto: Crisóstomo diz: “Pois não é uma mera exposição de obras que Deus procura em seguida, mas a dignidade da escolha e um temperamento obediente além disso. ”[83]

Consistente com uma predestinação baseada na presciência de Deus das obras, vários escritores entenderam o “propósito” em 9:11 de não se referir ao propósito de Deus, mas, como Orígenes entendeu a palavra em 8:28, para a intenção humana de se conformar a vontade de Deus. Então Diodoro de Tarso diz que “Deus não escolheu um, mas rejeitou o outro de acordo com seu próprio propósito. . . mas ele tomou a eleição de acordo com o propósito de cada um.”[84] ‘O propósito de Deus segundo a eleição’(ἡ κατ’ ἐκλογὴν πρόθεσις τοῦ θεοῦ) é, portanto, equivalente a eleição de acordo com o seu propósito’(ἡ κατὰ πρόθεσιν ἐκείνων ἐκλογή ) .[85] Crisóstomo diz algo similar (veja abaixo). E a doutrina de Teodoreto de Ciro também entende sob o “propósito” o propósito dos seres humanos.[86]

(4) Romanos 9: 14ff. não representa a posição de Paulo. A perspectiva de Orígenes que 9: 14-19 estava falando não de Paulo mas de um adversário imaginário e foi seguido por Diodoro de Tarso,[87] Teodoro de Mopsuestia, [88] Cirilo de Alexandria, [89] e Genadio de Constantinopla.[90] Crisostomo também não considera 9: 14ss como expressando o próprio ponto de vista de Paulo, mas, no entanto, ele vê o articulista desses versos como Paulo, não um oponente.

Como podemos ver, o Comentário de Orígenes sobre o Romanos exerceu uma forte influência na interpretação subsequente de Romanos 9 na tradição Grega. João Crisóstomo seria da mesma forma determinante para a tradição Grega depois dele, e dando a sua própria contribuição singular, agora nos voltamos para sua interpretação de 9: 6-13.

1.1.5 João Crisóstomo (347-407 dC)

João Crisóstomo proferiu suas Homilias sobre Romanos em algum momento entre 386 e 397 dC, enquanto servia como presbítero em Antioquia e antes de se tornar o bispo de Constantinopla.[91] Ele era um estudante de Diodoro de Tarso, que era aluno de Eusébio de Emesa, e assim não é de surpreender que ele seguiu a tradição grega em Rom. 9: 6-13 em vários pontos. No entanto, sua interpretação acrescentou vários novos elementos.

Semelhante a Orígenes, Crisóstomo viu o problema em Romanos 9, porque os não Judeus alcançaram a salvação enquanto os Judeus não: “Foi aos antepassados dos Judeus que ele fez a promessa, e ainda assim ele abandonou seus descendentes e concedeu a homens que nunca o conheceram, suas dadivas.”[92] Deus disse a Abraão:“ Eu lhe darei esta terra e a sua Semente ”(Gen. 12: 7), e os privilégios de Israel em 9: 4-5 indicaram que “Deus realmente desejou salvá-los. ”[93] Então, como tem Israel perdido a salvação na era messiânica? Alguns estavam acusando Deus, “Ele promete a um e dá a outro”.[94]

Paulo responde em 9: 6a que “não é como se a palavra de Deus tivesse falhado”, “A palavra de Deus”, de acordo com Crisóstomo, refere-se à promessa de Deus de abençoar os herdeiros de Abraão.[95] O entendimento de Crisóstomo sobre por que a palavra de Deus permanece verdadeira é o mesmo que o de Orígenes: Deus nunca deu a promessa de bênção a todos os israelitas; [96] ele somente a deu para o “verdadeiro Israel” (9: 6b) que viram a Deus (Gn 32:28, 30) .[97] Além disso, Crisóstomo diz que quando consideramos o caráter dos herdeiros de Abraão, como Paulo faz em 9: 7-13, vemos que Deus nunca prometeu abençoar todos os filhos naturais de Abraão.[98]

Em 9: 7-9, Crisóstomo viu Paulo “harmonizando as primeiras coisas com o presente”, [99] de modo que Isaque foi um tipo de herdeiro de Abraão na era messiânica. De acordo com Crisóstomo, os herdeiros de Abraão foram chamados “em Isaque” (9: 7b) para que “alguém possa aprender que aqueles que nascem depois da formação de Isaac, estes são no verdadeiro sentido os filhos de Abraão. De que maneira Isaac nasceu então? Não de acordo com a lei da natureza, não de acordo com o poder da carne, mas de acordo com o poder da promessa.”[100] Crisóstomo define assim “os filhos da promessa”(9: 8) como aqueles que nascem como Isaque pelo poder da promessa de Deus. Como Isaque veio da promessa de Deus, então os filhos da promessa na era messiânica vem da promessa de Deus feita através dos profetas (cf. 9: 25-29) .[101] Como Isaque nasceu do poder de Deus na velhice de Sara, os filhos de promessa nascem do poder de Deus na “velhice dos pecados”. [102] Como Isaque nasceu no ventre frio de Sara, assim os filhos da promessa nascem nas águas do batismo[103]. E como Isaque nasceu pelo poder da promessa, assim os filhos da promessa nascem pelo poder do Espírito (cf. Gál. 4: 28-29).[104] Assim, falando sobre o batismo, o Espírito e a promessa ditas através dos profetas de Israel, a definição de Crisóstomo sobre “os filhos da promessa” se aplica somente na era messiânica, não na era anterior, sob o pacto Mosaico. Sua definição do conceito paralelo do “verdadeiro Israel” (9: 6b), no entanto, se aplica em ambas as eras, antiga e nova.

Em 9: 10-13, Jacó e Esaú também prenunciaram os futuros herdeiros de Abraão. Seguindo seus antecessores, Crisóstomo explicou que Deus sabia de antemão qual criança seria boa e qual a criança seria má.[105] E assim também na era messiânica, Deus sabia de antemão que os Israelitas creriam e os salvariam consequentemente.[106] Consistente com essa interpretação, Crisóstomo substituiu “o propósito de acordo com a eleição” (ἡκατα ἐκλογὴν πρόθεσις) em 9:11 com “a eleição segundo a presciência” (ἡ ἐκλογὴ ἡ κατὰ πρόγνωσιν γενομένη) .[107] Assim, é provável que Crisóstomo tenha entendido o “propósito” em 9:11, como Orígenes fez em 8:28, como um propósito humano de se conformar à vontade de Deus.[108]

Em 9:14, Crisóstomo entendeu a acusação contra a justiça de Deus como uma acusação contra a sua atividade de predestinação arbitrária (assim também Orígenes). Mais especificamente, ele entendeu isso como uma acusação contra a escolha arbitrária de não Judeus adoradores de ídolos contra os judeus cumpridores da lei. De acordo com Crisóstomo, Paulo encontrou essa objeção em 9: 14-18 com casos ainda mais difíceis de eleição que o opositor, que é um Judeu que reverencia as Escrituras, não poderia explicar, provando que há algumas coisas que um ser humano simplesmente não pode entender sobre Deus.[109] Por exemplo, Crisóstomo explicou que enquanto alguém poderia argumentar que Jacó era bom e Esaú era mau, no caso do episódio do bezerro de ouro (Ex. 32), a partir do qual Paulo obtém sua citação em Rom. 9:15, todos os Israelitas foram considerados culpados e, no entanto, apenas alguns foram punidos. Por quê? Deus diz que ele tem misericórdia de quem ele quiser ter misericórdia (Ex. 33:19; Rom. 9:15), indicando que ele somente sabe julgar o coração humano. Assim, ao contrário de Orígenes, Crisóstomo não colocou 9: 14-19 na boca do oponente de Paulo.[110] Mas também não colocou esses versos no domínio das convicções de Paulo. Em vez disso, eles pretendiam intensificar a acusação da injustiça de Deus, de modo a fazer com que seu oponente judeu cedesse ao peso da Escritura sagrada.

A interpretação de Crisóstomo de 9: 6-13 expressou muitos elementos que poderiam ser rastreados até Orígenes, mas ao mesmo tempo ele adicionou novos elementos de sua própria autoria. Como dissemos anteriormente, Crisóstomo teve uma grande influência sobre o resto da tradição Grega, e assim com ele, concluímos nosso tratamento da antiga tradição grega.

Para resumir brevemente nosso tratamento da antiga interpretação Grega de Romanos 9: 6-13, vimos agora uma quantidade bem diversificada de interpretação de elementos-chave como “os filhos da promessa”; argumentamos que uma abordagem predestinacionista da passagem surgiu de leituras Cristãs Gnósticas do texto que teve uma influência formativa em Orígenes; e nós argumentamos que o Comentário de Orígenes sobre Romanos teve uma influência determinante no resto da tradição patrística Rrega. Podemos agora voltar nossa atenção para o Ocidente Latino.

1.2 A Tradição Latina

1.2.1 O Contexto Maniqueísta

A interpretação Latina de Paulo floresceu nos séculos IV e V, e isso se deveu, em grande parte, à tentativa de Cristãos Maniqueus e Nicenos em afirmar Paulo em seus próprios termos. O Maniqueísmo era uma forma neo-gnóstica do Cristianismo que traçava suas raízes ao profeta persa Mani (216-76 dC), enquanto o Cristianismo Niceno definia-se pelo Credo de Nicéia, desenvolvido durante o Concílio de Nicéia em 325 dC como padrão da crença ortodoxa. Tendo sido propagado rapidamente no mundo antigo, o cristianismo maniqueísta forneceu o maior desafio contra que os comentaristas de Nicéia que interpretaram Paulo. Em nosso tratamento da tradição latina, nos concentraremos em quatro figuras principais de Nicéia (os Maniqueus não forneceram uma interpretação de Rom. 9: 6-13) – Ambrosiaster, Jerônimo, Agostinho e Pelágio. Mas, para entender o significado do Cristianismo Maniqueísta em suas leituras de Rom. 9: 6-13, vamos primeiro delinear o mito Maniqueísta.

Ao contrário do mito valentiniano do segundo século, o mito maniqueísta postulou dois poderes coeternos, bem e mal, por detrás do universo.[111] De acordo com o mito, o mal fez uma atacar ao bem antes da criação do mundo. Perturbado pelo ataque do mal, Deus, que vive no reino da luz, enviou emanações de sua essência – conhecidas como o “Primeiro Homem” e seus “Cinco Filhos” (também conhecido como o “Jesus vulnerável”) – para ser consumido pelo reino das trevas, a fim de diluir e debilitar o poder do mal.[112] Mas, com vista de, finalmente, recuperar essa luz sacrificada enquanto mantendo o mal debilitado, Deus criou o universo de tal maneira que quando a luz foi separada das trevas, a luz seria libertada, enquanto o mal permaneceria preso no mundo natural. À medida que mais luz se torna livre e mais escuridão se torna aprisionada, a esperança é que o mal será permanentemente aniquilado.

Como Nicholas J. Baker-Brian comenta, é essa perda da essência divina para a escuridão e sua eventual recuperação que não só constitui o coração do mito maniqueísta, mas também determina a forma do relato maniqueísta dos seres humanos e da salvação[113]. Quando o primeiro homem e seus cinco filhos foram enviados para o reino das trevas, seus fragmentos foram espalhados e acabaria por constituir “o material das almas” – se esta coisa estivesse contida nas árvores, na comida ou no corpo humano. Assim, quando os primeiros humanos, Adão e Eva, foram criados, eles continham uma mistura de bem e mal: suas almas eram essencialmente boas, mas eram envoltos em corpos que eram opressivamente ruins. Um resultado dessa constituição dualista é que os humanos estão em guerra consigo mesmos, lutando contra as forças do mal que são contrárias às suas essencialmente boas naturezas. No entanto, o componente maligno é dominante sobre a alma fragmentada, assim que, desde o nascimento a alma de cada indivíduo está em sono, moralmente incompetente e incapaz de alcançar a sua própria libertação. No entanto, os seres humanos nascem com diferentes níveis de bem e mal, determinando o grau em que o mal governa em suas vidas, como Efraim da Síria testifica no quarto século:

Mas se [os Maniqueus] disserem que existem corpos que são mais malignos que outros corpos, e que as estruturas corpóreas são mais imundas do que outras. . . tais almas como oportunidades sobre os corpos perturbados são mais perturbadas do que outros que por acaso se tornam corpos brandos[114].

Assim, antes que os humanos tenham alguma escolha na matéria, o mal é feito para ser uma parte inevitável de sua experiência. Por essa razão, Agostinho entendeu que o Maniqueísmo o absolveria de qualquer responsabilidade por seus erros pessoais, [115] embora os próprios Maniqueístas mantivessem práticas como confissão e arrependimento e reconheceram a alma despertada por Deus como um agente responsável.[116]

Dado o estado debilitado da alma humana, a salvação da alma, de acordo com os Maniqueus, teve que ser iniciada unilateralmente por Deus. Ao longo da história humana, Deus tem enviado apóstolos para libertar as almas que têm maior concentração de luz. Mas antes desses apóstolos e sua “igreja” nascerem, cada apóstolo pré-seleciona quais almas serão libertadas. Esta doutrina da predestinação pode ser encontrada, por exemplo, em The Kephalaia of the Teacher, Documento Maniqueu datado do final do século III: [117]

Agora, é assim que você entende (sobre) as almas do [ele]/itos e os catecúmenos que receberão a esp[erança de] [118]Deus e entram na terra dos viventes. / Assim que suas formas poderiam ser escolhidas nas alturas: antes / que ele nascesse nesta carne humana e ant[es a] /de um apostolo se manifestasse na carne, ainda permanece [ndo. . . ] ele deve escolher as formas de toda a sua igreja e torná-los livres, seja dos eleitos ou dos catecúmen[os]. / Agora, quando ele escolhe as formas dos eleitos e [os] / catecúmenos, e libertá-los do alto [e], depois ele descerá imediatamente e os escolhera.[119]

Depois que uma alma é pré-selecionada para a salvação, ela tinha que ser eficazmente despertada de seu sono através de um ato de intervenção divina.[120] (Esse despertar espiritual envolveu a aquisição de conhecimento de si mesmo, ou seja, a gnose, e é por isso que o Maniqueísmo é classificado como um neo-gnóstico Na natureza do bem (De natura boni), Agostinho descreve essa doutrina de um “Despertar efetivo” que ele aprendeu como Maniqueísta:

A natureza divina está morta e Cristo a ressuscita. Está doente e ele a cura. . . . Está dominada e cativa e ele a liberta. . . . Perdeu o sentimento e ele a desperta. Está cega e ele a ilumina.[121]

Ou no The Kephalaia of the Teacher lemos:

[. . . A] Luz / [Mente] vem e encontra a alma. . . Ele soltará a m[ente da alma e liber/tará] a de seu corpo. Ele libertará a m[ente da alma] de sua essência; e ass[im] liga o pensamento [do pecado] a essencia. . . . É assim que ele libertará as partes da alma,/ e os libertará das cinco partes do pecado. . . . Ele deve corrigir as partes da alma; forma / purificá-los, e construir um novo homem deles, um filho [d] / a justiça.[122]

Aqueles que têm suas almas “despertadas” ou “corrigidas”, tornam-se os “ouvintes” Maniqueus e os “eleitos”, os primeiros tornando-se os últimos em um crescente progresso espiritual. Os ouvintes não estavam garantidos a salvação final na morte, mas eles poderiam atingir a libertação final, adotando a estilo de vida dos eleitos, que envolveu, entre outras coisas, práticas ascéticas estritas destinadas a aumentar a quantidade de luz residente em seus corpos (por exemplo, o Eleito se absteve de carne, que foi considerada ter uma alta concentração de matéria escura) .[123] Aquelas almas que atingem uma quantidade suficiente de luz finalmente retorna ao reino da luz, enquanto aquelas almas que permanecem fragmentadas se desfazem na morte e são posteriormente incorporados em novos corpos. Como a luz é reciclada desta maneira ao longo de muitas gerações, o ciclo de pré-seleção, desperta o divino e batalha cósmica continua até que mais e mais da essência divina seja recuperada. Enquanto alguma luz estiver permanentemente ligada ao mal, mantendo-o assim incapaz, a maior parte da luz será recuperada.

Esse foi o mito pelo qual os Maniqueus interpretaram o Novo Testamento. Intrigante, no entanto, é o fato de que eles não reivindicaram Rom. 9: 6-13 como propriamente seu, embora, à primeira vista, parecia que forneceria um forte apoio ao seu mito. A escolha de Deus, pré-nascimento de Isaque e Jacó a parte de suas obras poderia ter facilmente apoiado a visão Maniqueista da predestinação e impotência humana. Mas como Jason BeDuhn sugere, o retrato de Deus em Romanos 9 como um Deus aparentemente todo-poderoso, arbitrário e até mesmo maléfico (cf. endurecimento do coração de Faraó) não se encaixava bem com a visão Maniqueísta de Deus, [124] que era razoavelmente, todo-bom, e se empenhando para alcançar a salvação de todos. Além disso, os Maniqueus tinham uma visão subestimada das narrativas patriarcais (bem como do Antigo Testamento como um todo), eram preenchidos com histórias questionáveis de sacrifício de crianças, poligamia, engano, e assim por diante.[125] Como resultado, os exegetas de Nicéia não tiveram que contrariar uma interpretação Maniqueísta de 9: 6-13, simplesmente porque não havia nenhuma.

Embora os Maniqueus não fornecessem, tanto quanto sabemos, uma leitura de 9: 6-13, argumentaria, no entanto, que a interpretação Latina de Nicéia desta passagem foi influenciada pelo Maniqueísmo. O mito Maniqueísta falava de humanos nascidos com diferentes níveis de bem e mal, uma eleição antes do nascimento, e um chamado divino que unilateralmente despertou alguns e não outros. Um leitor familiarizado com o mito Maniqueísta poderia facilmente ler esses elementos em 9: 6-13, como muitos cristãos Gnósticos fizeram com seu mito no segundo e terceiro séculos. Não é muito surpreendente, então, que encontramos Ambrosiaster, Jerônimo, Agostinho (um ex-maniqueísta), e Pelágio cada um respondendo explicitamente aos elementos Maniqueus em sua interpretação de 9: 6-13.

No comentário de Ambrosiaster sobre a rejeição de Esaú em 9: 10-13, ele afirma que Saul e Judas Iscariotes – pessoas rejeitadas por Deus como foi Esaú- pode de fato ser “bom” por um período, mostrando que Deus nunca os rejeitou porque eles foram criados com uma natureza má (ou seja, um má substância), mas porque fizeram más escolhas com o seu livre-arbítrio. Nas primeiras (alfa) recensão de seu comentário, [126] Ambrosiaster disse:

Não é de admirar que esses homens fossem considerados bons, porque toda a natureza é boa e nenhuma substância é má, mas sim a transgressão, que surge da vontade [sic]. Isto é a vontade a qual é traída pelo erro.[127]

A insistência de Ambrosiaster de que a transgressão deve ser atribuída à vontade de cada um, e não a uma natureza, teria sido facilmente visto como uma declaração anti-maniqueísta. Como Juliano de Eclano disse a Agostinho: “Essa sempre foi à maior diferença entre os Maniqueus e os Católicos. . . . Porque atribuímos todo pecado a uma má vontade, mas eles a atribuem a uma natureza má. ” [128]

Na mesma linha, Jerônimo, discutindo 9:10-13 em seu comentário sobre Gal. 1:15, encontrei relevante para refutar a doutrina Gnóstica das naturezas mantida pelos oponentes de Orígenes, quase dois séculos antes. Ele disse o seguinte em 9: 10-13:

Aqui, uma posição é conquistada pelos hereges que simpatizam com duas diferentes, mas interdependentes naturezas, uma espiritual e resgatável, a outra material, semelhança-animal, e destinado a perecer. Nunca poderia ser o caso, eles argumentam, que um homem justo é escolhido por Deus antes de fazer o bem ou que um pecador é desprezado antes de pecar, a menos que os condenados e os salvos tenham naturezas diferentes.[129]

Como Andrew Cain observa, “o argumento de Jerônimo” neste momento “sem dúvida vem diretamente das páginas de Orígenes.”[130] E, com toda a probabilidade, ele achou relevante abordar a doutrina Gnóstica das naturezas por causa de sua semelhança com ideias em que seus contemporâneos colegas Nicenos consideravam a mais perigosa heresia, o Maniqueísmo. Jerônimo mencionou a doutrina das naturezas novamente em Gal. 6: 1, onde ele observou como “os hereges” usavam as boas e más árvores de Mat 7:17 (par. Lucas 6,43) para apoiar a sua doutrina[131]. Agostinho notou o mesmo uso de Mat.7: 17 pelos Maniqueus, [132] sugerindo que Jerônimo, enquanto se dirigia aos adversários de Orígenes, provavelmente também tinha em mente seus próprios oponentes Maniqueístas.

Como Ambrosiaster e Jerônimo, Agostinho, em sua Miscellany of Eighty-Three Questions 68 (um de seus primeiros escritos sobre Romanos 9), descartou a possibilidade de Esaú ser injustamente rejeitado porque foi determinado por uma natureza má:

Deus não faz nada injustamente, nem existe qualquer natureza que não seja devida a Deus por sua existência, porque a Deus é devida toda a sua dignidade e beleza e harmonia de suas partes, e se você analisou isto [isto é, a dignidade, beleza e harmonia de uma dada natureza] e removeu todos os elementos dos seus traços finais, não há nada que permanece.[133]

Contra os Maniqueus, [134] Agostinho afirma que não havia má natureza em Esaú que tenha sido a causa de sua rejeição, porque todas as naturezas são boas, uma vez que todas as naturezas vêm de Deus. Da mesma forma, alguns anos depois, em To Simplician, Agostinho excluiu a possibilidade de que Jacó e Esaú fossem diferenciados com base em naturezas diferentes:

Eles eram de alguma forma de natureza diferente? Quem poderia reivindicar isso, na medida em que eles tinham o mesmo pai e a mesma mãe, vieram de um único ato sexual e o mesmo criador? Como o mesmo criador trouxe da mesma terra vida diferente e seres auto-reprodutores, ele da mesma união e enlace de [dois] seres humanos gerou descendentes diferentes em gêmeos, um a quem ele amava e outro a quem ele odiava?[135]

Como Jacó e Esaú compartilhavam essencialmente a mesma origem, Agostinho não encontrou base para a alegação que eles tinham naturezas diferentes.

Finalmente, de acordo com Pelágio, a objeção em Rom. 9:14 veio de alguém imaginando que Paulo estava dizendo em 9: 6-13 que “Deus faz alguns bons, outros maus”. Essa pessoa objetou que “[é] injusto punir aqueles que não pecaram de livre e espontânea vontade.”[136] Na linguagem de Pelágio uma pessoa sendo feita boa ou má e sem livre-arbítrio o que certamente soa como se tivesse o Maniqueísmo em mente. Assim, parece que Ambrosiaster, Jeronimo, Agostinho e Pelágio, em seus comentários em 9: 6-13, argumentaram explicitamente contra a ideia maniqueísta de que alguns humanos são criados com uma natureza má que os predestina para a destruição. No entanto, como veremos, esses intérpretes de Nicéia, como Orígenes, afirmavam que 9: 6-13 era uma passagem sobre a predestinação. Essa perspectiva foi sem dúvida em parte encorajada por sua consideração do mito Maniqueísta. No entanto, novamente como Orígenes, a rota que tomaram para preservar o livre-arbítrio foi basear a predestinação na presciência divina.

Ao considerar a relevância do Maniqueísmo para as leituras de Nicéia de 9: 6-13, devemos também situar a leitura do livre-arbitrio desta passagem no contexto de um amplo debate sobre o livre-arbitrio no final do quarto século. Como Jason BeDuhn coloca: “De seu considerável terreno comum dentro da tradição Cristã, o Maniqueísmo e a ortodoxia dominante emergente tinham em parte desenvolvidos e vieram a definir-se distintamente um do outro sobre este assunto [i.e. livre-arbítrio]. ”[137]

Antes dos debates entre Agostinho e Pelágio no início do quinto século, qualquer menção a questão do livre-arbítrio / determinismo entre os Cristãos no final do século IV foram situados nos debates entre o Cristianismo Maniqueísta e Niceno. Além disso, Ambrosiaster, Jerônimo, Agostinho e Pelágio repetidamente argumentaram contra a negação Maniqueísta do livre-arbítrio, de modo que quando chegamos à sua interpretação do livre-arbítrio de 9: 6-13, é quase impossível não ver isso como outra instância de sua polêmica anti-maniqueísta.

Nós argumentamos que os exegetas Niceno-Latinos estavam conscientes e influenciados por Crenças Maniqueístas como eles interpretaram Rom. 9: 6-13. O mito Maniqueísta incentivou uma abordagem predestinacionista à passagem e obrigou os intérpretes de Nicéia a responder. Mas nós não devemos supor que os Maniqueus foram a única grande influência na leitura dos Nicenos de 9: 6-13. Afinal, toda a tradição grega de Orígenes em diante já havia defendido o livre-arbítrio na leitura da passagem contra uma tradição Gnóstica que compartilhava muitas semelhanças com o Maniqueísmo. Assim, depois de examinar a interpretação Nicena Latina de 9: 6-13, voltaremos à questão de saber se os exegetas Latinos mostram ou não evidências de influência de seus pares Gregos (secção 1.3).

1.2.2 Ambrosiaster (fl. 370s-380s dC)

O primeiro comentário Latino sobre Romanos foi escrito por Marius Victorinus em Roma durante os anos360s dC., mas apenas seus comentários sobre Gálatas, Filipenses e Efésios sobreviveram até hoje.[138] Para o mais antigo comentário Latino existente sobre Romanos, devemos nos voltar para um autor anônimo que produziu um conjunto de Comentários sobre as Cartas Paulinas e Questões sobre o Antigo e o Novo Testamento (Quaestiones Veteris et Novi Testamenti).[139] Posteriormente a autoria de Ambrosiano dos Comentários foi anulada pelos humanistas no século XVI, [140] nosso autor anônimo foi chamado “Ambrosiaster” (ou seja, “pseudo-Ambrósio”) no dia sec. 17.[141] Ele foi provavelmente um presbítero[142] em Roma, [143] e deu várias referências temporais em suas obras, [144] seu uso do Commentaries Pauline de Victorinus, [145] e seus contatos com Jerônimo no anos de 380s dC, [146] muitos concordam que seus escritos pertencem aos anos 370 e 380s dC [147]

O Commentary on Romans de Ambrosiaster existe em três recensões principais, listadas na edição CSEL[148] como alfa ), beta (β) e gama (γ). A produção deste Commentary estava provavelmente em andamento na década de 370s C.E., com parte da recensão beta respondendo às críticas feitas por Jerônimo em sua letter 27 de 384 dC[149], há um crescente consenso de que o próprio Ambrosiaster era responsável pelas três recensões, [150] assim como outros escritores Cristãos primitivos editaram e reeditaram suas obras.[151] O estilo da recensão alfa é “mais parecido com uma série” de notas de aula do que um comentário acabado”, [152] enquanto as recensões beta e gama tentam esclarecer obscuridades.

Algumas das revisões mais extensas revelam “um escritor profundamente envolvido com eventos atuais e dispostos a adaptar ou expandir sua exegese à luz de novas situações ou novas informações.”[153] Sobre Rom. 9: 6-13, no entanto, uma comparação das recensões não mostra grandes mudanças. Tendo introduzido Ambrosiaster e seu commentary on Romans, podemos agora voltarmo-nos para sua exegese.

Em Rom. 9: 1-5, Ambrosiaster explicou que Paulo sofria com seus parentes Judeus “que privaram-se da bênção eterna e salvadora pela sua incredulidade”, e perderam privilégios listados em 9: 4-5: “por não aceitar o Salvador, eles perderam o privilégio de seus pais e o mérito das promessas ”. [154]

De acordo com Ambrosiaster, a descrença de Israel não significa que a palavra de Deus falhou (9: 6a), pois a palavra de Deus diz: “Em Isaque a tua semente será chamada” (9: 7b) .[155] Para Ambrosiaster, 9: 7b falou sobre o futuro, e indicou que os herdeiros de Abraão na era messiânica seriam “Aqueles que aceitaram a fé pela qual Isaque nasceu.” [156] Ambrosiaster raciocina que, assim como Abraão foi abençoado por acreditar no que Deus disse sobre Isaque, então os futuros herdeiros de Abraão são aqueles que compartilham sua fé e acreditam no que Deus disse sobre Cristo (cf. Rom. 4: 18-25). [157] O paralelo é estabelecido porque “Isaque nasceu como um tipo do Salvador”, pois “foi dito a Abraão que todas as nações seriam abençoadas em sua descendência ”, mas“ isso não aconteceu em Isaque, mas naquele que foi prometido a Abraão em Isaque, isto é, a Cristo ”(cf. Gl 3.16). [158] Como Schelkle observa, Ambrosiaster avançou rapidamente para uma leitura Cristológica.[159]

Paulo tornou explícitas as implicações de 9: 7b em 9: 8 chamando “os filhos da promessa” como os herdeiros de Abraão. Ambrosiaster definiu “os filhos da promessa” como aqueles “a quem Deus conheceu que receberiam sua promessa, sejam judeus ou Gentios”[160] e, para ele, a promessa que deve ser crida é a promessa de Cristo (o tipo de Isaque) para Abraão para a salvação de todas nações.[161] Duas observações podem ser feitas sobre essa definição. Primeiro, esta definição é muito semelhante a de Orígenes. Como Orígenes, Ambrosiaster afirmou que “os filhos da promessa” são “aqueles que aceitaram a fé pela qual Isaque nasceu.”[162] Também semelhante à definição de Orígenes do “verdadeiro Israel”, Ambrosiaster afirmou que os filhos da promessa “são” os que merecem ser chamados Israelitas, isto é, aqueles que viram a Deus e creram.”[163] Uma segunda observação é que Ambrosiaster parece ter visto uma correlação entre “os filhos da promessa” e 8: 28-29, onde ele deu a mesma definição para os eleitos de Deus. Em 8:28, Ambrosiaster comentou: “Aqueles que são chamados de acordo com a promessa [em vez da palavra de Paulo, “propósito”] são aqueles a quem Deus sabiam que seriam verdadeiros crentes no futuro. ”[164] Ou novamente, ele comentou em 8:29: “Aqueles que Deus pré-conheceu que creriam nele, ele também escolheu para receber as promessas.”[165] Como seus antecessores Gregos, Ambrosiaster baseou a predestinação de Deus em pré-conhecimento, mas ao contrário de seus antecessores, ele falou da presciência da fé e não de obras. Por exemplo, acabamos de ver que Ambrosiaster definiu “os filhos da promessa” (9: 8) como aqueles “que antes conheceu receberia sua promessa” .[166] E dado a correlação de 9: 8 e 8: 28-29 de Ambrosiaster, “receber” a promessa é feita pela fé. Assim também com Jacó e Esaú (9: 10-13), Deus predestinou um e não o outro para a salvação “sabendo o que cada um deles se tornaria. ”[167] No entanto, Ambrosiaster também imbuiu Jacó e Esaú com significado nacional, recordando a interpretação de Irineu: [168] “Jacó e Esaú nasceram como tipos de dois povos, crentes e incrédulos, que vêm da mesma fonte, mas são, no entanto, muito diferente. ”[169]

Considerano 9: 6-13, a acusação contra Deus em 9:14 tinha a ver com Deus amando alguns e odiando outros antes de nascerem. Ao contrário de Orígenes e da subsequente tradição Grega, Ambrosiaster foi o primeiro a ver a voz e o ponto de vista em 9: 14ff. como o próprio Paulo.[170] E consistente com sua abordagem a 9: 6-13, ele leu 9: 14ff através das lentes da presciência. Por exemplo, faraó foi condenado porque Deus sabia de antemão que ele não iria mudar.[171] Ou novamente, 9:15 realmente significa: “Terei misericórdia. . . sobre aquele que eu conheço de antemão que vou mostrar misericórdia, porque sei que ele se converterá e permanecerá comigo.”[172] Ao contrário, Ambrosiaster leu 9:16 (“Portanto, não depende da vontade ou do esforço do homem, mas da misericórdia de Deus”) de uma maneira similar a Orígenes: “Corretamente, porque não é a vontade daquele que pede, mas a decisão daquele que dá o que há para ser dado ”.[173]

Ambrosiaster, portanto, compartilha muitas semelhanças com a tradição Grega, mas ele também adiciona um número de elementos distintos para a interpretação de 9: 6-13.

1.2.3 Jerônimo (Cerca de 347-420 dC.)

Depois de Ambrosiaster, o próximo grande comentarista sobre Paulo foi o asceta, tradutor e erudito bíblico Jerônimo. Embora ele não tenha escrito um comentário sobre Romanos, ele escreveu quatro comentários Paulinos dentro de um período de quatro meses em 386 dC (Filemon, Gálatas, Efésios e Tito) que logo depois encontrariam o caminho para as mãos de Agostinho. Como dissemos na seção 1.2.1, Jerônimo discutiu Rom. 9: 10-13 em seu Commentary on Galatians e extraiu diretamente de Orígenes.[174] Notamos sua primeira interpretação de 9: 6-13 como um exemplo claro de alguém que transmitiu as ideias de Orígenes para o Ocidente Latino. Em sua interpretação de Gal. 1:15, onde Paulo diz que ele foi separado por Deus desde o ventre, Jerõnimo lembrou o caso semelhante de Jacó e Esaú em Rom. 9: 10-13. Jerônimo diz que “os hereges” tomam essa passagem para apoiar sua doutrina das naturezas, e como dissemos anteriormente (seção 1.2.1), “os hereges” provavelmente representam uma fusão dos adversários Gnósticos de Orígenes no início do século III e os oponentes Maniqueístas de Jerônimo no final do quarto século. Em resposta a esses oponentes, Jerônimo apelou para o uso da presciência de Orígenes para explicar 9: 10-13:

Existe uma solução fácil para esse enigma. A presciência de Deus permite que ele ame quem ele sabe que será justo, mesmo antes de sair do ventre, e odiar quem ele sabe será pecador mesmo antes de cometer um pecado.[175]

Além disso, Jerônimo rejeitou a solução dos méritos da alma pré-existente, que poderia ser remontada a Orígenes.[176] Assim, em mais de uma maneira, a interpretação de Jerônimo de 9: 6-13 foi influenciado por Orígenes.

1.2.4 Agostinho (354-430 C.E.)

[…]

Tradução: Antônio Reis

[1] William Sanday and Arthur C. Headlam, A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans (ICC; 5 ed.; Edinburgh: T & T Clark, 1902), 269-75.

[2] Karl H. Schelkle, Paulus Lehrer der Väter: Die altkirchliche Auslegung von Römer 1-11 (Düsseldorf: Patmos-Verlag, 1956)

[3] Assim também John Piper, The Justification of God: An Exegetical and Theological Study of Romans 9:1-23 (2d ed.; Grand Rapids: Baker, 1993), 16.

[4] Salvo indicação em contrário, todas as traduções do grego e do alemão são minhas.

[5] Para possíveis alusões a Romanos tanto no Novo Testamento taardio como nos Pais Apostólicos, veja Sanday e Headlam, Romans, lxxiv-lxxxv.

[6] Veja Roelof van den Broek, Gnostic Religion in Antiquity (New York: Cambridge University Press, 2013), 1-12.

[7] Se o próprio Marcião era ou não um Gnóstico pode ser debatido, mas seus seguidores parecem ter assumido mais elementos Gnósticos (Hans-Josef Klauck, The Religious Context of Early Christianity: A Guide to Graeco-Roman Religions [trad. Brian McNeil; Minneapolis: Fortress Press, 2003], 451).

[8] Orígenes, On First Principles 2.9.5 (ANF 4:291).

[9] Nosso resumo do mito valentiniano é extraído do resumo acessível de M. Eugene Boring em A Introduction to the New Testament: History, Literature, Theology (Louisville: Westminster John Knox Press, 2012), 158-162. Também foram consultados Broek, Gnostic Religion in Antiquity, 136-20, e o abrangente trabalho de Thomassen sobre os Valentinianos, The Spiritual Seed.

[10] De acordo com Einar Thomassen, The Spiritual Seed: The Church of the ‘Valentinians’ (NHMS 60; Leiden: Brill, 2006), 4-5, o termo “valentiniano” foi um termo usado por seus oponentes. Tanto quanto sabemos, eles não usam este termo para si. Thomassen cita Justino Mártir, o primeiro a ter usado o termo, e diz que o próprio Justino admite que eles se chamavam cristãos (Diálogo com Trifão 24: 2,6).

[11] Um texto Gnóstico que preserva utilmente os principais contornos do mito valentiniano é The Tripartite Tractate de Nag Hammadi Codex I / 5, que Thomassen (The Spiritual Seed, 505) data da segunda metade do terceiro século C.E. (veja sumário do texto e discussão em Thomassen, The Spiritual Seed, 166-187). Veja também o resumo do mito valentiniano baseado no Apócrifo Copta de João do Códice de Nag Hammadi II / 1 de Klauck, cujo o antecedente Grego Klauck coloca no segundo século dC (Religious Context, 461-98, p. 462 para a data). Para descrição não Gnóstica do segundo século do mito valentiniano e suas variedades, veja o Livro 1 Contra as Heresias de Irineu.

[12] Orígenes, sobre os primeiros princípios 2.9.5 (ANF 4.291)

[13] Da mesma forma, o Faraó em Rom. 9: 14-18 era incapaz de salvação por causa de sua natureza destruída (Ibid., 3.1.8 [ANF 4: 308]).

[14] Elaine H. Pagels fornece uma reconstrução plausível de como os valentinianos poderiam ter entendido Rom. 9: 1-13 (The Gnostic Paul: Gnostic Exegesis of the Pauline Letters [Philadelphia: Fortress Press, 1975], 37-38). Segundo sua reconstrução, Paulo, em Rom. 9: 1-5, expressou sua preocupação com os não espirituais (“Israelitas”), embora reconhecendo que tanto ele como o Cristo, embora sejam espirituais, foram gerados, como o não espirituais, do Demiurgo (ou seja, ambos descendiam dos israelitas [9: 3, 5]). A situação atual do não espiritual não significa que o “logos de Deus” tenha falhado (9: 6), pois nem todos os que parecem ser não espirtuais (“De Israel”) são na verdade não espirituais (“Israel”). Enquanto os “filhos da carne” não espirituais não são realmente filhos de Deus, os “filhos da promessa” espirituais vêm do Demiurgo e podem assim às vezes passarem despercebidos. Para dar conta dos diferentes tipos de descendentes que o Demiurgo criou, Paulo ofereceu a alegoria de Jacó e Esaú

[15] Pouco se sabe sobre a história biográfica de Irineu. Para uma breve discussão, veja Eric Osborn, Irenaeus of Lyons (Cambridge: Cambridge University Press, 2001), 2-7. Um cronograma útil é dado por Sara Parvis e Paul Foster, eds., Irenaeus: Life, Scripture, Legacy (Minneapolis: Fortress Press, 2012), xv.

[16] Cf. Irineu, Contra as Heresias 1.27.2 (ANF 1: 352).

[17] Ibid., 4.21.1-2 (ANF 1:492-3).

[18] Ibid., 4.21.2 (E 1: 493). Em nossa citação de traduções, atualizaremos qualquer idioma arcaico (por exemplo, “seu” em vez de “teu”, “ele sabe (knows)” em vez de “ele sabe (knoweth )”, etc.).

[19] Ibid., 4.21.3 (ANF 1:493).

[20] Ibid.

[21] Ibid., 4 21.2 (ANF 1:493).

[22] Ibid.

[23] Ibid., 4.29.2 (ANF 1:502)

[24] Ibid., 4.37 (ANF 1: 518-21)

[25] Para detalhes biográficos sobre a vida de Orígenes, ver Joseph W. Trigg, Origen (Nova York: Routledge, 1998), 1-66; veja também a nota introdutória de Frederick Crombie às obras de Orígenes em ANF 4: 224-30.

[26] Eusébio, História Eclesiástica, 6,24 (NPNF2 1: 272) diz que Sobre os Primeiros Princípios foi escrito antes da partida de Orígenes de Alexandria, que ocorreu em 231 C.E.

[27] Thomas P. Scheck, introdução a Origen: Commentary on the Epistle to the Romans, Livros 1-5, por Orígenes (trad. Thomas P. Scheck; FC 103; Washington, DC: Catholic University of America Press, 2001), 8-9

[28] Já vimos Orígenes resumir uma interpretação Gnóstica determinista de Rom. 9: 6-13 em Sobre os Primeiros Princípios (2.9.5) com o propósito de refutá-los (veja seção 1.1.1). Quanto ao seu comentário sobre Romanos, Orígenes diz em seu prefácio que a interpretação de Romanos é especialmente difícil porque, com respeito a numerosas passagens, “os hereges [i.e. Cristãos Gnósticos]. . . estão acostumados a acrescentar que a causa das ações de cada pessoa não deve ser atribuída ao próprio propósito, mas a diferentes tipos de natureza. E de uma boa quantidade de textos desta carta eles tentam subverter o significado de toda a Escritura, que ensina que Deus deu liberdade a vontade humana” (“ Prefácio [de Orígenes] ”em FC 103: 53).

[29] Embora os acadêmicos considerem as traduções de Rufino infiéis, o crescente consenso é de que elas são geralmente confiáveis. Para a história da erudição sobre a confiabilidade da tradução de Sobre os Primeiros Princípios, de Rufino, veja Ronnie J. Rombs, “Uma Nota sobre o Status do Princípio de Orígenes em Inglês,” VC 61 (2007): 21-24. Veja também o prólogo de Rufino a Sobre os Primeiros Princípios (ANF 4: 237-38) para sua própria declaração sobre seu método de tradução. Quanto a confiabilidade da tradução de Rufino do Comentário sobre os Romanos de Origines, ver Scheck, “Introdução”, 10-19; Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 443-48. Sobre a confiabilidade do Rufino como tradutor em geral, veja Ronald E. Heine, introdução a Origen: Homilies on Genesis and Exodus, por Orígenes (trad. Ronald E. Heine; FC 71; Washington, D.C .: Catholic University of America Press, 1982), 30-39 (esp. Pp. 34-35, onde Heine resume os tipos de mudanças que Rufino fez ao traduzir). De qualquer forma, como veremos abaixo, as ideias distintas de Orígenes sobre Romanos 9 (por exemplo, os méritos preexistentes da alma; predestinação baseada em presciência) podem ser corroborados seja por suas outras obras ou pela tradição de comentários subsequentes baseada em suas obras.

[30] Orígenes, Comentário em Romanos 7.13.4 (FC 104:106).

[31] Ibid., 7.13.6-8 (FC 104:107-8).

[32] Ibid., 7.14.2 (FC 104:110).

[33] Ibid.

[34] Ibid., 7.14.2 (FC 104:110-11).

[35] Ibid., 7.14.2 (FC 104:111).

[36] Para esta leitura de Orígenes, cf. Ibid., 7.13.7 (FC 104: 108), onde Orígenes diz que em toda história de Israel, o pecado fez com que os Israelitas fossem rejeitados e deserdados, e tão frequentemente quanto Deus era propiciado, eles eram novamente registrados como herdeiros. Veja também 7.13.8 (FC 104: 108), onde Orígenes definiu as “promessas” em Rom. 9: 4 como “aquelas que foram feitos pelo pais e que se espera que sejam dados àqueles que, pela fé, são chamados filhos de Abraão” (itálico meu). As promessas e privilégios em 9: 4-5 foram sempre dados ao Israel da fé. Para uma leitura semelhante de Orígenes, veja Peter Gorday, Principles of Patristic Exegesis: Romans 9-11 in Origen, John Chrysostom, and Augustine (SBEC 4; New York: Edwin Mellen Press, 1983), 76-77.

[37] Orígenes, Commentary on Romans 7.14.3 (FC 104:111).

[38] Ibid. 7.14.3–7.15.2 (FC 104:111-12).

[39] Ibid. 7,14,3 (FC 104: 111). Cf. 7.13.8 (FC 104: 108), onde Orígenes diz que as promessas feitas para Abraão “é esperado que seja dado àqueles que, pela fé, são chamados filhos de Abraão”.

[40] Cf. Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 354.

[41] Orígenes, v Comentário em Romanos 7.15.2 (FC 104:111-12); Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 354.

[42] Orígenes, Comentário em Romanos 7.15.2 (FC 104:111-12).

[43] Pode-se argumentar que para Orígenes, ser filho de Deus é parte do que significa ser um filho da promessa, para que “os filhos da promessa” possam ser descritos como aqueles que nasceram da promessa e poder de Deus como Isaque foi. No entanto, isso levaria a um equívoco no entendimento de Orígenes sobre os filhos da promessa: eles são filhos que acreditam em uma promessa ou filhos nascidos por promessa? Orígenes não dá indicação de que ele pretende tantos significados.

[44] Orígenes, Comentário em Romanos 7.15.3 (FC 104:112).

[45] Ibid. 7.15.4 (FC 104:112-13).

[46] Gorday, Principles, 97.

[47] Orígenes, Sobre os Primeiros Princípios 2.9.5 (ANF 4:291).

[48] Ibid., 2.9.6 (ANF 4:292).

[49] Ibid., 2.9.7 (ANF 4:292).

[50] Os livros 1-32 do Comentário sobre João de Orígenes foram compostos ao longo de uma grande parte da vida de Orígenes, em Alexandria e Cesaréia-Palestina. O livro 2, no entanto, foi provavelmente escrito em 230-231 dC., na mesma época que Sobre os Primeiros Princípios. Para a datação das partes do comentário, veja a introdução de Ronald E. Heine Origen: Commentary on the Gospel According to John, Livros de 1-10, de Orígenes (trad. Ronald E. Heine; FC 80; Washington, D.C .: Catholic University of America Press, 1989), 4-5.

[51] Orígenes, Comentário sobre João 2.191-192 (FC 80:146-47).

[52] Orígenes tomou “não por obras” para excluir somente aquelas obras depois que uma pessoa nasceu? Ou ele pegou a frase para excluir apenas as obras da lei judaica (E.g., a circuncisão, sábado, leis alimentares)? Nós não sabemos, mas seja qual for o caso, parece que ele não tomou a frase para excluir obras em princípio.

[53] Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 336-37 levanta a questão de saber se Orígenes mudou de opinião ou se Rufino alterou o comentário. Parece mais provável, como Schelkle sugere, que Orígenes mudou suas visões como seu sistema filosófico em Sobre os Primeiros Princípios deu lugar a uma interação mais cuidadosa com as cartas de Paulo. Além disso, o fato de que a tradição de comentários oriunda de Orígenes explica a eleição de Deus através da presciência sugere que essa visão veio do próprio Orígenes.

[54] Se Rom. 9: 6-13 é sobre predestinação, pode-se facilmente entender o apelo de Orígenes para 8: 28-30, que fala sobre o mesmo tema. Além disso, observe que 9: 1-13 segue logo após 8: 28-30, e que as duas passagens compartilham muitas semelhanças no vocabulário (cf. “propósito” [8:28; 9:11], “eleito” / “eleição” [8:33; 9:11], “chamar” [8:30; 9:12]) .

[55] Orígenes, Comentário em Romanos 7.15.4 (FC 104:113).

[56] Ibid. 7.8.3 (FC 104:88-9).

[57] Ibid.

[58] Orígenes literalmente diz “porque ele sabia que tipo de pessoas eles eram” (itálico meu) (Comentário sobre Romanos 7.8.3 [FC 104: 89]), mas que ele pretende se referir ao conhecimento de Deus sobre o futuro é esclarecido por sua discussão sobre Rom. 1: 1, onde ele apela para 8: 29-30 (1.3.1-4).

[59] Ibid., 7.8.4 (FC 104:89).

[60] Ibid., 7.8.6 (FC 104: 91). Com o fundamento da salvação nas ações / obras de um Reformadores (e.g., Lutero, Melanchthon, Calvino, etc.) acusaram Orígenes de ser o precursor de Pelágio. Mas como muitos estudiosos têm sido cautelosos, devemos reconhecer que Orígenes estava envolvido em problemas diferentes daqueles de épocas posteriores. Para fundamentar a predestinação de Deus no livre-arbítrio e nas obras humanas, Orígenes se opunha à doutrina Gnóstica das naturezas, não à noção de que a salvação é completamente de Deus. Além disso, Orígenes tem declarações que às vezes afirmam e às vezes rejeitam a “justificação pela fé somente”, de modo que ele não se encaixa facilmente nas categorias dos debates subsequentes. Para mais informações sobre a visão de justificação de Orígenes, veja Scheck, “Introduction,” 29-41; idem Origen and the History of Justification: The Legacy of Origen’s Commentary on Romans (Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2008), 13-62.

[61] Orígenes, comentário sobre Romanos 1.3.1-4 (FF 103: 64-6). Dado o entendimento de Orígenes da eleição pela presciência das obras, parece que ele não entendeu a insistência de Paulo de que a eleição “não é por obras” Rom. 9:12 para excluir obras em princípio. Nem ele excluía as obras de justiça que resultam da fé. Isto É possível que ele estivesse excluindo as obras judaicas da lei (e.g., a circuncisão, leis alimentares, etc.) (assim também Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 337; cf. Scheck, “Introdução”, 41-42, que cita as seções 3.6 e 8.9 no Comentário sobre Romanos de Orígenes com duas passagens em que Orígenes vê as obras que não justificam como aspectos cerimoniais da lei judaica), embora isso criasse tensão com a exclusão de Paulo de quaisquer ações, quer boas ou más (9:11).

[62] Origenes, Comentário em Romanos 7.16.3-4 (FC 104:114-15).

[63] Enquanto consideramos as duas explicações de Orígenes sobre Rom. 9: 14-19 como mutuamente inconsistente, Gorday, Princípios, 77, é mais generoso e os considera complementares. Criando um adversário imaginário para falar 9: 14-19, Gorday diz que o desafio foi proposto a Orígenes (e Paulo) para explicar como as citações bíblicas contidas nesses versos poderiam ser entendidos de uma maneira que preservasse o livre-arbítrio. Mas se Orígenes não estava fazendo nada mais do que prover interpretações alternativas das citações bíblicas, então por que ele sentiu a necessidade de prover uma interpretação alternativa de 9:16, que não era uma citação bíblica, mas a interpretação do adversário imaginário? Uma avaliação mais precisa parece ser que Orígenes estava fornecendo uma interpretação alternativa de 9: 14-19 no caso destes versos terem sidos realmente falados por Paulo. As duas interpretações de Orígenes de 9: 14-19 revelam assim um esforço desesperado para preservar o livre-arbítrio por todos os meios possíveis.

[64] Em Sobre os Primeiros Princípios 3.1.10 (ANF 4: 310), Orígenes apela a Heb. 6: 7-8 e compara a misericórdia de Deus a chuva, que cai igualmente sobre todos, deixando a responsabilidade ao solo para produzir bons frutos ou espinhos. Na mesma forma, os seres humanos devem usar seu livre-arbítrio para responder à misericórdia de Deus em obediência ou desobediência. Portanto, “Por uma operação Deus tem misericórdia de um homem enquanto Ele endurece outro”. No Comentário sobre Romanos 7.16.8 (FC 104: 118), Orígenes diz que “[is]so não é. . . que Deus endurece quem ele quer, mas aquele que não está disposto a obedecer com paciência é endurecido.” Além disso, “podemos ser bons ou maus depende de nossa vontade; mas que o mal homem deve ser designado para punições de algum tipo e o homem bom para a glória de algum tipo, depende da vontade de Deus.”

[65] Orígenes, Sobre os Primeiros Princípios 3.1.18 (ANF 4:320-23); idem, Comentário sobre Romanos 7.16.5 (FC 104:115- 16)

[66] Orígenes, Comentário em Romanos 7.15.5 (FC 104:115-16)

[67] Ibid., 7.16.6-7 (FC 104:116-17).

[68] Assim Gorday, Principles, 103.

[69] Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 414.

[70] Ibid.; Sanday e Headlam, Romans, 270.

[71] Muitos desses fragmentos são preservados para nós em Karl Staab, Pauluskommentare aus der griechischen Kirche: Aus Katenenhandschriften gesammelt und herausgegeben (NTA 15; Münster: Aschendorff, 1933).

[72] Estou particularmente grato a Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 336-61, pela organização deste material.

[73] Diodoro diz, “Em Isaque sua semente será chamada, isto é, através da promessa de acordo com o tipo de Isaque, que era justo e um tipo dos justos “(Staab, Pauluskommentare, 97:( “ἐν Ἰσαὰκ κληθήσεταί σοι σπέρμα, τοῦτ’ ἔστι δἰ ἐπαγγελίας κατὰ τὸν τοῦ Ἰσαὰκ τύπον, ὃς ἦν δίκαιος καὶ τύπος δικαίων “). Além disso, esta promessa em relação aos filhos da promessa foi a eterna predestinação baseada na presciência: “a promessa de Deus foi dada de acordo com a presciência “(Ibid. “κατὰ πρόγνωσιν ἡ ἐπαγγελία τοῦ θεοῦ . . .”).

[74] Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 356.

[75] Staab, Pauluskommentare, 97: “ἡ δὲ ἐπαγγελία κατὰ δικαιοκρισίαν, καὶ ὡς ἐπὶ τοῦ Ἰσαάκ, οὕτω καὶ ἐπὶ τῶν ἐθνῶν.”

[76] Ibid., 54. “προέθετο γὰρ καὶ προέκρινε τοῦ Ἡσαῦ τὸν Ἰακὼβ διὰ τὸ προγινώσκειν ἀμφοτέρων τὰ ἔργα, ὥσπερ αὐτὸς ὁ Παῦλός φησιν ἀνωτέρω ὅτι οὓς προέγνω, καὶ προώρισεν.”

[77] Ibid., 97.

[78] Cirilo de Alexandria, Explanatio in Epistolam ad Romanos (PG 74:836).

[79] Staab, Pauluskommentare, 143-44

[80] João Crisóstomo, Homilies on Romans 16 (NPNF1 11:464-66).

[81] Teodoreto de Ciro, Interpretatio epistolae ad Romanos (PG 82:153).

[82] Staab, Pauluskommentare, 390.

[83] Crisóstomo, Homilies on Romans 16 (NPNF1 11:466).

[84] Staab, Pauluskommentare, 97-98: “οὐ γὰρ κατὰ τὴν οἰκείαν πρόθεσιν ὁ θεὸς τὸν μὲν ἐξελέξατο, τὸν δὲ ἀπώσατο . . . ἀλλὰ κατὰ τὴν ἑκατέρου τούτων πρόθεσιν τὴν ἐκλογὴν ἐποιήσατο.” A autoria deste fragmento em Rom. 9:11 não é inteiramente certa, mas Staab atribui a Diodoro com base no estilo, conteúdo e nome para quem o comentário é atribuído (“Theodul” [Θεοδούλου]; Diodoro às vezes aparece sob o nome de “Teodoro”).

[85] Ibid.

[86] Theodoret of Cyrus, Interpretatio epistolae ad Romanos (PG 82:153).

[87] Staab, Pauluskommentare, 98.

[88] Ibid., 144-47.

[89] Cirilo de Alexandria, Explanatio in Epistolam ad Romanos (PG 74:836).

[90] Staab, Pauluskommentare, 391.

[91] Charles Marriott, prefácio a Homilies on Romans de Crisostomo em NPNF1 11:331. Para um relato sobre a vida de Crisostomo, veja Wendy Mayer e Pauline Allen, John Chrysostom (New York: Routledge, 2000), 4-11.

[92] Crisostomo, Homilies on Romans 16 (NPNF1 11:461).

[93] Ibid. (NPNF1 11:462).

[94] Ibid. (NPNF1 11:461).

[95] Ibid. (NPNF1 11:460).

[96] Ibid. (NPNF1 11:463-64).

[97] Ibid. (NPNF1 11:464).

[98] Ibid. (NPNF1 11:462).

[99] Ibid. (NPNF1 11:463).

[100] Ibid.

[101] Ibid.

[102] Ibid.

[103] Ibid.

[104] Ibid.

[105] Ibid. (NPNF1 11:464-65).

[106] Ibid. (NPNF1 11:465).

[107] Ibid. (NPNF1 11:466).

[108] Ibid. 15 (NPNF1 11:453).

[109] Ibid. 16 (NPNF1 11:466-67).

[110] Contra Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 343.

[111] Nosso relato do mito maniqueísta é extraído de Nicholas J. Baker-Brian, Manichaeism: An Ancient Faith Rediscovered (Nova York / Londres: T & T Clark International, 2011), 110-18, e Jason David BeDuhn, Augustine’s Manichaean Dilemma (2 vols; Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 2012-2013), passim (esp. 1: 75-96).

[112] Como observa Jason BeDuhn, “os Maniqueus transferiram para um evento primordial o mesmo sacrifício do “filho” de Deus colocado na crença Cristã dominante’’ (BeDuhn, Augustine’s Manichaean Dilemma, 1:80). Baker-Brian, Manichaeism, 111.

[113] Baker-Brian, Manichaeism, 111.

[114] Efraim da Siria, Fifth Discourse Against the False Teachings, cxviii (Mitchell).

[115] Agostinho, Confessions 5.10.18.

[116] Assim BeDuhn, Augustine’s Manichaean Dilemma, 1:143-44; cf. Augustine, A Debate with Fortunatus 21.

[117] Iain Gardner, The Kephalaia of the Teacher: The Edited Coptic Manichaean Texts in Translation with Commentary (NHMS 37; Leiden/New York/Köln: Brill, 1995), xix.

[118] Lit. “palavra.”

[119] Keph. 90, 224.28–225.5 (Gardner; o material entre parêntese é original para Gardner). Veja também 1, 10.8–11.2; 1, 11.35–12.8; 9, 40.24-33; Hom. 3:24-28.

[120] Para mais debates, veja BeDuhn, Augustine’s Manichaean Dilemma, 2:288-302 (esp. 291-97).

[121] Agostinho, The Nature of the Good 41 (Burleigh); veja também idem, Confessions 7.2.3.

[122] Keph. 38, 96.8-97.27 (o material entre parênteses é original para Gardner). Veja também 56, 142.12ff .; 86, 215.1-4.

[123] Sobre o uso maniqueísta do corpo como uma “meio resgatador de luz”, ver Jason David BeDuhn, The Manichaean Body: In Discipline and Ritual (Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2000).

[124] BeDuhn, Augustine’s Manichaean Dilemma, 2:283-84.

[125] Veja, e.g., Agostinho, Answer to Faustus 22.5 (WSA I/20: 299-300).

[126] Discutiremos as recensões na seção 1.2.2 abaixo.

[127] Ambrosiaster, Comentário sobre Romanos 9:13 (Bray). Na segunda (beta) recensão de seu comentário, o texto diz o seguinte: “Não é possível que o bem de alguém seja totalmente exterminado, pois a própria natureza não pode ser mudada, mas apenas a vontade, mas mesmo assim não em tudo, porque permanece na natureza humana algo que continua a dar testemunho do Criador ”(Ibid., n. 7 [Bray]). Em ambas as recensões, Ambrosiaster preserva a distinção da natureza / vontade e insiste na liberdade da vontade de fazer o bem ou o mal.

[128] Agostinho, Unfinished Work in Answer to Julian 1.24 (WSA I/25:65, Teske).

[129] Jerônimo, Commentary on Galatians 1.1.15-16a (FC 121:83, Cain).

[130] Ibid. (FC 121: 83, n. 134, Cain). Cain aponta para passagens como On First Principles 2.9.5; 3.1.6; Comentário sobre Romanos 1.3.3; 2,4,7; 2.10.2; 4.12.1; 8.8.7; 8.11.2.

[131] Jerõnimo, Commentary on Galatians 3.6.1 (FC 121:247).

[132] Agostinho, Sermon on the Mount 2.24.79.

[133] Agostinho, Miscellany of Eighty-Three Questions 68.6 (WSA I/12:121, Ramsey; material entre parênteses é original para Ramsey).

[134] Agostinho se referiu aos Maniqueus anteriormente em sua resposta à questão 68 também, quando ele falou de “Alguns hereges e adversários da lei e dos profetas” (Ibid. 68.1 [WSA I / 12: 116, Ramsey]). Como mencionamos anteriormente (seção 1.2.1), os Maniqueus tinham uma visão subestimada do Antigo Testamento.

[135] Agostinho, Miscellany of Questions in Response to Simplician 2,4 (WSA I/12:188-89, Ramsey).

[136] Pelagio, Commentary on Romans 9:14, (o material entre parênteses é original para de Bruyn).

[137] BeDuhn, Augustine’s Manichaean Dilemma, 1:270.

[138] Victorino também escreveu comentários sobre 1 e 2 Coríntios. Para mais informações sobre Victorino, veja a introdução por S.A. Cooper em Marius Victorinus’ Commentary on Galatians: Introduction, Translation, and Notes (Oxford: Oxford University Press, 2005).

[139] Ambrosiaster, Commentarius in Epistulas Paulinas (CSEL81); idem, Quaestiones Veteris et Novi Testamenti (CSEL 50). Para traduções em Inglês dos comentarios, veja idem, Commentaries Romans and 1-2 Corinthians (trad. e ed. Gerald L. Bray; Downers Grove: InterVarsity Press, 2009); idem, Commentaries on Galatians-Philemon (trad. e ed. Gerald L. Bray; Downers Grove: InterVarsity Press, 2009).

[140] A autoria agostiniana das Questions não seria questionada até o séc 17., Mas não seria até 1905 quando Alexander Souter provou definitivamente que os Commentaries e as Questions foram escritos pelo mesmo autor (Alexander Souter, A Study of Ambrosiaster [Texts and Studies 4; Cambridge: Cambridge University Press, 1905], 23-160.).

[141] Para uma discussão mais detalhada sobre o desenvolvimento da identidade sob o pseudônimo de Ambrosiaster, veja Sophie Lunn-Rockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology (New York: Oxford University Press, 2007), 29-32. Embora várias tentativas tenham sido feitas para descobrir a verdadeira identidade de Ambrosiaster, nenhuma foi bem-sucedida, levando muitos a considerar a busca um esforço inútil. Veja Ibid., 33-62 (esp. 33-44) para um número de propostas e seus problemas.

[142] Ambrosiaster conhece, por exemplo, os costumes relacionados com o ofício da igreja; muitos das Questions parecem ser homilias que se dirigem a uma audiência na segunda pessoa; ele é crítico dos diáconos romanos; etc. Para mais discussões, veja David G. Hunter, “On the Sin of Adam and Eve: A Little-Known Defense of Marriage and Childbearing by Ambrosiaster,” HTR 82 (1989): 285-6; Lunn-Rockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology, 83-86.

[143] Ambrosiaster sugere em vários escritos que ele está escrevendo de Roma. Seu commentary on Romans 16: 4 fornece um exemplo: “Entende-se que todo o povo a quem Paulo saúda como meio de dar a estabilidade romana, estavam presentes aqui, isto é, em Roma ” (traduzido por Lunn-Rockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology,16; “Nam ad confirmationem Romanor hi omnes quos Salutat, hic, id est Romae, fuisse intelleguntur” [gamma revisão]). Para mais exemplos, veja David G. Hunter, “On the Sin of Adam and Eve,” 284-85; LunnRockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology, 12-17, 44-62.

[144] Por exemplo, Ambrosiaster menciona em seu Commentary on 1 Timothy 3.15 que o dirigente da igreja no tempo foi Dâmaso, cujo reinado durou de 366-384 dC. Para mais exemplos de referências temporais, veja LunnRockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology, 12-15.

[145] Sobre a influência de Victorino sobre Ambrosiaster, veja Cooper, Marius Victorinus’ Commentary, ch. 6.

[146] Veja David G. Hunter, “The Significance of Ambrosiaster,” JECS 17 (2009): 6-7, 9-13.

[147] Lunn-Rockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology, 16, coloca as obras de Ambrosiaster na década de 370 e 380s dC. Hunter, “The Significance of Ambrosiaster,” 7, opta pelo início dos anos 380.

[148] Ambrosiaster, Commentarius in Epistulas Paulinas (CSEL 81).

[149] Então Heinrich Vogels, “Ambrosiaster und Hieronymus”, RBén 66 (1956): 14-19, citado em Hunter, “The Significance of Ambrosiaster,” 10. Hunter resume a conclusão de Vogel, observando que ele ganhou ampla aceitação: “Ambrosiaster primeiro criticou as revisões bíblicas de Jerônimo [i.e. A revisão de Jerônimo do Novo Testamento com base em códices Gregos] na versão alfa do comentário, Jerome respondeu na Carta 27 e, em seguida, Ambrosiaster reeditou a versão beta com sua defesa mais bem desenvolvida do texto do Latim antigo. ”

[150] Veja Heinrich Vogels, prefácio a CSEL 81, pp. xxi ff; Lunn-Rockliffe, Ambrosiaster’s Political Theology, 15; Hunter, “The Significance of Ambrosiaster,” 9.

[151] O estudo clássico sobre autores patrísticos editando e reeditando seus trabalhos é Gustave Bardy, “Éditions et rééditions d’ouvrages patristiques,” Rbén 47 (1935): 356-80, citado em Hunter, “The Significance of Ambrosiaster,” 9, n. 27.

[152] Gerald L. Bray, introdução ao Commentaries on Romans and 1-2 Corinthians, por Ambrosiaster (trad. Gerald L. Bray; Downers Grove: InterVarsity Press, 2009), 17.

[153] Hunter, “The Significance of Ambrosiaster,” 9-13.

[154] Ambrosiaster, Commentary on Romans 9:1-5 (Bray).

[155] Ibid. 9:6-7.

[156] Ibid. (Bray).

[157] Ibid.

[158] Ibid. (Bray). Cf. O comentário de Ambrosiaster sobre Rom. 9: 9: “Isto prefigura Cristo, porque Cristo foi prometido a Abraão como futuro filho, em quem a palavra da promessa seria cumprida, que todas as nações da terra seriam abençoada nele. Pois quando a promessa foi feita a Abraão e ele ouviu que em sua semente todas as nações seriam abençoadas, Cristo também foi prometido a ele na linhagem de Isaque, em quem vemos esta promessa cumprida.”

[159] Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 355.

[160] Ambrosiaster, Commentary on Romans 9:6-7 (Bray).

[161] Ibid. (Bray): “Assim, quem crer que Jesus Cristo foi prometido a Abraão é um filho de Abraão e um irmão de Isaque. Foi dito a Abraão que todas as nações seriam abençoadas em sua descendência. Isso não aconteceu em Isaque, mas naquele que foi prometido a Abraão em Isaque, isto é, Cristo, em quem todas as nações são abençoadas quando eles creem.”

[162] Ibid., 9:6-7 (Bray).

[163] Ibid. (Bray).

[164] Ibid., 8:28 (Bray).

[165] Ibid., 8:29 (Bray)

[166] Ibid., 9:6-7 (Bray).

[167] Ibid., 9:11-13 (Bray).

[168] Assim também Schelkle, Paulus Lehrer der Väter, 356.

[169] Ambrosiaster, Commentary on Romans 9:10 (Bray).

[170] Sanday and Headlam, Romans, 271.

[171] Ambrosiaster, Commentary on Romans 9:14.

[172] Ibid. 9:15 (Bray).

[173] Ibid. 9:16 (Bray).

[174] Jerõnimo deixou claro no prefácio ao Livro I de seu comentário que ele estava muito agradecido a Orígenes: “Eu. . Tenho seguido os comentários de Orígenes. Ele escreveu cinco volumes extraordinários às epístolas de Paulo aos gálatas e completou o décimo livro de suas Miscellanies com uma breve seção explicando-o. Ele também produziu vários homilias e tratados que seriam suficientes por si só ”(Commentary on Galatians, prefácio ao Livro I [FC 121: 57, Cain]). Ele continua mencionando outras influências da tradição de comentários Gregos (Didymus o cego, Apolinário de Laodicéia, “o antigo herege Alexandre”, Eusébio de Emesa e Teodoro de Heráclea, mas sua dívida mais substancial era com Orígenes. Para uma discussão mais aprofundada sobre as várias maneiras em que o Commentary on Romans de Orígenes influenciou Jerônimo, veja Andrew Cain, introdução a St. Jerome: Commentary on Galatians, por Jerônimo (trad. Andrew Cain; FC 121; Washington, D.C .: Catholic University of America Press, 2010), 27-30. Nas palavras de Cain, “A presença de [Orígenes] pode ser sentida em praticamente todas as páginas” (p. 27).

[175] Jerõnimo, Commentary on Galatians 1.1.15-16a (FC 121:83, Cain).

[176] Ibid. (FC 121:84).

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Teologia

A APOSTASIA EM HEBREUS

A Epistola aos Hebreus foi escrita Provavelmente, antes da destruição do templo em Jerusalém, no ano 70 d.C,tendo como propósito,a principio enfatizar aos judeus de que Jesus era o Cristo,o filho de Deus,e o Redentor profético prometido nas Escrituras,inclusive em 1.1-2, nos dar uma introdução diferente do que se costuma ver nas demais Epistolas quando diz :
Sobre sua Autoria,baseando-se em Clemente de Alexandria e em Orígenes,a Igreja Oriental creditou o livro ao Apóstolo Paulo,com base no Papiro 46 do século 3,como a Igreja não tinha certeza,Orígenes certa feita fez uma frase a respeito quando afirma:
Esta Epistola nos mostra explicitamente que em nenhum outro livro nas Escrituras falam do sacerdócio de Cristo de maneira tão clara e genuína sobre o sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por meio de sua morte,que tão ricamente trate do uso das cerimônias tanto quanto de sua remoção e,em uma só palavra possa explicar plenamente que Cristo de fato é o cumprimento da lei.
Podemos perceber que o autor pretende demonstrar a verdadeira identidade de Jesus Cristo,sendo superior aos anjos (1.4-6),aos líderes religiosos (3.1; 4.13) e a qualquer sacerdote (4.14; 7.28).
Que o cristianismo transcende o judaísmo justamente por ter um concerto em tudo superior (8.1-13),um santuário (9.1-10),um sacrifício (9.11; 10.18),e assim sucessivamente.
O público ouvinte é exortado a se firmarem na fé e a guardarem a volta de Cristo (10.19-25).
Simultaneamente recebem advertências para que não rejeitem o sacrifício de Cristo (10.26-31),assim como também são lembrados de que serão galardoados em caso de fidelidade (10.32-39).
E prossegue em explicar como proceder firmemente na fé citando exemplos de homens e mulheres fiéis na história de Israel (11.1-40),encorajando-os e exortando-os quanto ao cotidiano cristão (12.1-17).
Assim sendo,o tema central de Hebreus é Cristo,ele é Supremo e está acima dos Anjos ( Cap.1),acima de Moisés ( 3.1-6),acima de Josué ( 4.9 ) e de Melquisedeque ( Cap.7 ).
AS ADVERTÊNCIAS
Ocorrem em (2.1-3;3.6-8;3.12-14;4.14;6.1-6;10.26-31).
Os Capítulo 6.4-6 e 10.26-31,são onde iremos abordar sobre o tema,pois fazer uma análise gramatical de todos os versículos cansa o leitor,e queremos ser objetivos.
Logo de inicio do Capítulo 6,no v.1-3,temos uma exortação do autor para que os irmãos prossigam em crescer em perfeição e amadurecendo-os na fé,não voltando aos (αρχής =principios ),elementares,rudimentos inicias,mas crescer em maturidade.
No Versículo 4 temos o verbo ( φωτισθεντας de φωτιζω),foram Iluminados,o verbo aqui é um Particípio aoristo,um evento que de fato ocorreu no passado,e não uma hipótese,além de o verbo também está na voz passiva,significando assim que Deus é o sujeito que realiza a ação da iluminação,é Deus quem inicia o processo de salvação aqui,em outras palavras,houve um período em que em algum momento eles de fato foram iluminados,algumas versões até dizem”de uma vez por todas”,fazendo assim alusão á realidade da experiência, além do fato de que:
Ainda no verso v.4 temos o verbo ( γευσαμένους de γευομαι=provaram )temos aqui mais um Participio aoristo,mais uma vez indicando fato ocorrido,agora o verbo está na voz média,alguns de posições totalmente confessional Interpretam o ( provaram),aqui,afirmando que os indivíduos aqui mencionados provaram apenas um pouco da graça de Deus e receberam algumas centelhas da Iluminação,a Igreja da Reforma, sempre preocupada com a perseverança final dos santos, aderiu, de forma corajosa à opinião de Calvino.
Porém á luz do contexto e Gramatical percebe-se que provar aqui é “no sentido de participar,experimentar plenamente.
Percebe-se que como a voz média indica o sujeito participando da ação,significa dizer que eles tiveram e participaram de uma experiência real e não hipotética, percebe-se que o mesmo termo é usado em Hb 2.9, quando lemos que Cristo ( γευομαι= provou ) a morte por todos:
Assim sendo, caso o termo provou em Hb 6.4 fosse apenas uma experiência hipotética,os defensores da situação hipotética também teriam que dizer o mesmo em relação a Cristo.

Ainda no v. 4,temos o adjetivo ( μετόχους de μέτοχος)
,parceiro ou companheiro,se fizeram participantes do Espirito Santo,está no caso acusativo,o Espirito Santo está envolvido,os defenssores da opinião hipotética,se esquecem que nenhum pecador é participante do Espirito Santo ( Rm 8.9-16 ),segundo Jennings,é quase uma blasfêmia acusar o Espirito Santo de parceiro e companheiro de pecadores,Jesus disse que os pecadores não podem receber o Espirito Santo ( Jo 14.17 ).

No V. 5,temos o mesmo verbo ( provaram)do v.antecedente,também sendo um Participio Aoristo na voz média,provar a boa Palavra de Deus é ser salvo como está em ( Mt 13.20-23;Lc 8.13-15;Jo 15.3;At 2.41;4.4;8.14;11.1;17.11;Rm 10.9-10;Ef 5.26;Tg 1.18-25;1 Pd 1.18-23 ),ou seja,alguém que provou essa experiência,teve uma experiência real e não hipotética.

No v. 6 temos o termo grego ( παραπεσόντας de παραπιπτω )[caíram ],mais uma vez temos um Particípio aoristo ,dando a idéia de fato ocorrido no passado,além da voz ativa em que o sujeito aqui cometeu a ação.

Champlim comentando sobre este versículo,faz o seguinte comentário
” e cairam,este verbo também é usado para indicar [ cometer apostasia],e é este sentido que deve ser entendido aqui,tal palavra é usada como equivalente á que se encontra em Hb 3.12,de onde se deriva nossa moderna palavra apostasia,na Septuaginta,ambas essas palavras indicam que quem abandona a Cristo como Salvador,não o reputando mais como Senhor,se revertem ao paganismo ou ao Judaísmo que são Religiões inferiores,porém essa revolta e abandono são provocados pelo seu desvio moral,pela sua indisposição como viver em Hb 5.11-6.2″.
Segundo Kaiser,alguns solos e tipos de chão,por exemplo,são revigorados e umidecidos pela chuva,produzindo lavoura excelente,outros solos produzem apenas espinhos e ervas daninhas,EMBORA CAIA SOBRE ELES A MESMA CHUVA(Caixa alta minha),a solução seria mandar mais chuva?( MAIS GRAÇA?MAIS ILUMINAÇÃO?),não,porque o que acontece é que quando os olhos de alguém foram realmente abertos e em seguida essa pessoa recusa e rejeita tudo aquilo que lhe foi mostrado,revelado,só há duas decisões a serem tomadas,ou cresce em direção á maturidade Cristã,ou cai em Apostasia voltando ao caminho dos impios.

EXORTAÇÃO A PERSEVERAR NA FÉ ( HB 10.26-31 ).

Hebreus 10: 26. Porque se voluntariamente continuarmos no pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados.

o termo grego ( εκουσιως),indica pecar de própria e livre vontade,voluntariamente,a verdade é que os crentes verdadeiros pecam,mas não persistem no pecado,então o que acontece com aqueles que voltam as costas ao conhecimento da verdade? tão somente ” uma terrível expectativa de juízo e fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus ( 10.27),e ” já não resta mais sacrifício pelo pecado” ( 10.26).

Hebreus 10: 29. de quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança, com que foi santificado, e ultrajar ao Espírito da graça?

O termo grego(καταπατήσας de καταπατέω=pisa,pisotear,um particípio aoristo ativo no que está no caso Nominativo,a palavra indica tratar com o maior desprezo,o que fizeram é semelhante ao que o A.T.chama de pecar com mão altiva ( Nm 15.30-31).

Neil R.L Resume

“O paralelo entre os judeus abandonando o Deus verdadeiro e os cristãos deixando o Cristo vivo é de grande significado,se a pessoa que violasse a lei de Moisés morria sem misericórdia, sem o direito de
apelação ou suspensão da sentença, de quanto mais severo castigo julgai vós,pergunta o autor, apelando para o bom senso dos leitores, será considerado digno aquele que o calcou.”

Orton Wiley também Resume o verso 29 da seguinte maneira:

“CALCOU PISOU aos pés o Filho de Deus,O verbo katapatesas, pisar, espezinhar, quando aplicado a uma pessoa, denota a pior forma de desdém possível.
Alguns entendem que significa aquela forma de desprezo que ignora outrem, tratando-o como a poeira sobre a qual se pisa,a enormidade da falta se evidencia quando vemos que não foi apenas a Lei de Moisés que foi espezinhada, mas a pessoa que a deu, o infinito e exaltado Filho de Deus,que se identifica com o próprio Deus.
PROFANOU o sangue da aliança com o qual foi santificado,a palavra koinon, comum, quer dizer profano, portanto não-sagrado,este sangue, que [sendo sagrado] foi considerado profano, foi o da nova aliança, que nos assegurou o gracioso privilégio de redenção do pecado e a comunhão eterna com Deus,Foi por este mesmo sangue que aquele que vivia no pecado,tido como inimigo de Deus, foi santificado,o verbo grego hegiasthe, no particípio passivo aoristo, significa o que uma vez foi santificado,e este, que já havia sido santificado, passa a considerar esse sangue algo comum, como o de qualquer outra pessoa, inclusive o dos malfeitores crucificados ao lado de Cristo. Este seria o ápice do sacrilégio!
ULTRAJOU O ESPIRITO DA GRAÇA
O termo charis, graça, usado aqui ao lado da palavra Espírito, é uma paráfrase de Espírito Santo, o Espírito que é graça,evidentemente visando a salientar a natureza pessoal e graciosa dele.A palavra enubrisas, ultraje, só aparece aqui no Novo Testamento,nela, o termo hubris mesmo sem a preposição, é definido como combinação de insulto e injúria, ultraje insolente (por Vaughan), o que torna esse ato especialmente ofensivo
quando em contraste com o caráter gracioso do Espírito,e este que administra a graça de Cristo e realiza o trabalho de santificação em
nosso coração, e insultar um Espírito afável como este é um ultraje insolente, absurdo.Vimos claramente que, quando o sangue de Cristo é rejeitado,não resta mais sacrifício pelos pecados; assim também, depois que a graça do Espírito é desdenhada, não restam meios para aproximação
com ele,este é o pecado contra o Espírito Santo, o qual jamais será perdoado (Mt 12.31,32; Mc 3.28,29; Lc 12.10).

Vale Ressaltar, que no que tange á eleição se é Passível de perder ou não, acredito como Armínio que faz a Distinção entre eleito e crente,onde ele afirma que o crente é aquele que creu,caminhou na fé por certo tempo,mas de acordo com a parábola do Semeador,ele faz parte daquelas pessoas que naufragam na fé devido as coisas do mundo que o sufoca,e não tem Raiz para perseverar na hora da provação.Enquanto o Eleito sob Presciência Divina ele tem a possibilidade de perder a Salvação mas não perderá,isso significa que ele não perderá por conta de uma eleição incondicional,onde o indivíduo não tem liberdade de escolha e é Simplesmente um Robô,mas ele não perderá a Salvação sob ótica da Presciência Divina no que tange á constatação que Deus teve de sua perseverança  quando o indivíduo  na oportunidade de receber a oferta do evangelho,Deus viu ele recebendo e perseverando até o fim.Vale Ressaltar que o eleito ele pode cair da Graça por algum tempo Tipo,ele pode no meio da caminhada  por desânimo ou qualquer outro motivo,se desviar por um momento, porém Deus em sua Presciência já viu tudo isso,que mesmo ele tendo estes momentos de negligência espiritual,Deus viu em sua Presciência que ele ao ser admoestado através da Palavra ou conselho,ou até mesmo por castigo de Deus,onde a Bíblia diz que ele castiga a qualquer que recebe por filho,e este castigo é visando o bem ,sabendo que através deste castigo ele irá reconhecer e se arrepender e sucessivamente voltar para Cristo,Deus ver tudo isto na vida do eleito,e ver também na vida do não  eleito,a diferença gira em torno da reposta de cada um.
Por: Madson Junialysson
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Walter C.Kaiser Jr.
R.N.Champlim
Orton Wiley
D.Jennings
Novo Testamento Analítico ( Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti)
Chave Linguística do Novo Testamento.

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Teologia

BATISMO NO ESPIRITO SANTO,OU BATISMO NO FOGO COMO JUÍZO?

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BATISMO NO ESPIRITO SANTO OU JUIZO?

Matthew 3: 10. ηδη δε και η αξινη προς την ριζαν των δενδρων κειται παν ουν δενδρον μη ποιουν καρπον καλον εκκοπτεται και εις πυρ βαλλεται 11. εγω μεν βαπτιζω υμας εν υδατι εις μετανοιαν ο δε οπισω μου ερχομενος ισχυροτερος μου εστιν ου ουκ ειμι ικανος τα υποδηματα βαστασαι αυτος υμας βαπτισει εν πνευματι αγιω και πυρι 12. ου το πτυον εν τη χειρι αυτου και διακαθαριει την αλωνα αυτου και συναξει τον σιτον αυτου εις την αποθηκην το δε αχυρον κατακαυσει πυρι ασβεστω


Mateus 3: 10. E também já está posto o machado à raiz das árvores; portanto, toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. 11. Eu, na verdade, vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. 12. A sua pá ele tem na mão, e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apagará.


Estamos diante de um dos importantes textos biblicos onde muitos tem interpretado este texto tendenciosamente em prol de sua Teologia,todavia vale ressaltar que o papel do intérprete não é colocar no texto o que não está no texto,o que chamamos de (eixegese),mas sim extrair do texto o que de fato contém nele,o que chamamos de (Exegese).

Muitas Vezes,tanto Pentecostais quanto Tradicionais querendo assim defender sua Teologia,que no que diz respeito aos Dons,Pentecostais Clássicos são continuistas,e Tradicionais geralmente são cessacionistas,porém nem todo Tradicional é necessariamente cessacionista,acabam as vezes fazendo uma interpretação equivocada e muitas vezes aos extremos do que o que de fato está no texto,aqui principalmente nos conectivos dos versículos 10-12.

No Versículo 11,Pentecostais interpretam o “ele vos batizará com o Espirito Santo e com fogo”se referindo ao Pentecostes,enquanto Tradicionais defendem que aqui se trata de uma referência a um duplo batismo,um Batismo para os crentes (Batismo no Espirito Santo),e outro para os incrédulos (Batismo de fogo, acarretando juízo e condenação eterna),muitos por um zelo de natureza simplesmente confessional e, muito mais por um anti-pentecostalismo radical, não levam em conta que estão fugindo das regras da Hermenêutica exigidas na interpretação de um texto bíblico.


Infelizmente há até mesmo aqueles que usam uma estratégia ensinada por Arthur Schopenhauer para se ganhar um debate. Schopenhauer ensinou como se ganhar um debate, mesmo sem ter razão.

De acordo com ele quando alguém está em desvantagem em um debate, isto é, não tem razão, a única forma de tentar vencê-lo é acusando ou ironizando o desafiante,e de fato muitos recorrem a esse método para tentar desqualificar a hermenêutica pentecostal,contudo devemos interpretá-los á luz do contexto e seus conectivos,interpretando o texto de maneira honesta.


VAMOS AO TEXTO


Antes,se faz relevante ressaltar que o fogo nas Escrituras,ele tem seus significados literais e simbólicos, do Ponto de vista simbólico,muitas vezes o fogo representa Juizo,[ Gn 19.24;Lv 10.1-2;Nm 16.35;Dt 4.24;Is 9.18-19;Is 29.6;Is 66.16;Ml 3.2;Mc 9.47-48;Hb 12.29;Ap 16.8-9;Ap 18.8;Ap 19.20 ]. O fogo nas Escrituras também representam a presença de Deus [ Ex 3.2(uma teofania)e Também Ex 13.21;Ex 19.18;Lv 9.24;Nm 9.16;2 Cr 7.1;2Cr 7.1;Zc 2.5]. Ainda vale ressaltar que o fogo da parte de Deus também é Purificador [ Nm 31.23;1Pd 1.7;Ap 3.18 ]. Depois de termos esta realidade em mente,temos condições de Interpretar o texto em seu contexto de maneira imparcial e honesta com o texto.
No contexto dos versículos 1-12,podemos notar que de acordo com Isaías 43.3,João Batista é este precursor do cumprimento desta Profecia de preparar o caminho do Senhor, João prega uma mensagem de condenação exortando-os ao arrependimento,(v.2,arrependei-vos), João estava batizando em águas,onde também se fazia presente muitos dos Saduceus e Fariseus legalistas,para estes ele é bastante enfático e intolerante com o legalismo ao ponto de chamá-los de (Raça de Víboras,v.7 ) e no versículo 8 ele os recomenda,( Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento ),gosto da paráfrase que faz o William.W Sobre os versículo 7 e 8 quando diz (filhos de víbora,quem levou vocês a pensar que podem escapar do juízo de Deus sem uma conversão de mente e coração?portanto produzam frutos que se harmonizem com uma verdadeira conversão ),e é justamente isto que nos informa o texto,uma exortação a uma vida de verdadeiro arrependimento e conversão.


Em seguida no versículo 9,também temos a paráfrase do William.W,( não confiem na vossa descendência física de Abraão,como se tal coisa pudesse salvá-los,se Deus quer filhos de Abraão dignos desse nome,ele não precisa de vocês,ele pode suscitar filhos dessas pedras que jazem por aqui.


O versículo 10 a versão Grega do Texto Receptus,diz que o machado,( repousa ), [ κειται ],significando junto ao pé ou ao lado da árvore apenas no aguardo,esperando o momento certo para o uso do machado,um juízo iminente.
O A.T,muitas vezes emprega a figura das árvores para juizo contra as Nações,[ Is 10.34-35;Ez 31.2-18;Am 2.9;],e contra Israel,[ Is 10.18-19;Jr 11.16;Ez 15.6].

No v.11,temos (ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo).
Aqui é onde há maior controvérsia, há quem diga que aqui no v.11,há dois batismos,um no Espirito Santo,para os crentes,e outro no fogo para os incrédulos,porém há um consenso entre os eruditos que essa interpretação de duplo batismo é conhecida a partir de Orígenes.

O expositor bíblico Johan Friedrich von Meyer (1800-1873) defende a tese do duplo batismo e credita a Orígenes a paternidade desse entendimento.


Porém á luz da regra da Hermenêutica sadia,seguindo um método Histórico gramatical,podemos Perceber que o pronome pessoal (ύμας=vos),está no acusativo,que indica o objeto direto,se perguntarmos para o verbo da frase,( ele vos batizará com o quê?)a resposta é ( com o Espirito Santo e com Fogo)logo,a Desinência do pronome ( ύμας ),no acusativo, comprova que o acusativo está indicando aqui o objeto direto,significa que o Espirito Santo e o fogo são o objeto direto do Batismo,dando a idéia de que se trata de um único batismo, além do fato de que não há nenhuma preposição antes da Palavra Fogo, aludindo assim que aqui no v.11 o Espirito Santo e o fogo serão recebidos pelas mesmas pessoas,ainda ressaltando que no N.T não há nenhuma referência de Batismo Duplo ou opostos,(um no Espirito,e outro para condenação) Sempre que o N.T faz referência do fogo aos condenados,se faz uso do verbo( βαλλο =lançar),(MT 3.10;7.19;13.42;Mc 9.45;Ap 20.10;20.14-15). Já o termo βαπτιζο, é usado apenas em relação aos salvos.

O conceito de um único batismo ainda se reforça quando percebemos que a conjunção,(Kai = e),[πυρι=fogo],está funcionando como uma conjunção coordenada ou conectiva,ou seja,é uma conjunção aditiva,essa ligação resulta de que temos aqui uma oração independente,que poderia ter uma conjunção aditiva ou adversativa que dar a idéia de contraste,aqui a conjunção é aditiva,complementando,adicionando e corroborando com o mencionado anteriormente,deixando explicito de que a conjunção( Kai = e),[πυρι=fogo],estão conectadas fazendo alusão a um único batismo,e não a um duplo batismo como afirmam alguns,temos aqui o conceito unificado de batismo na imersão do Espirito Santo com poder Purificador,isso tem Respaldo em seu contexto remoto,como mencionamos anteriormente no que diz concernente ao fogo que purifica. G.Campbell Morgam no entendimento deste texto,faz uma excelente paráfrase ao dizer ” ele irá dominar você com o fogo purificador e dominador do Espirito Santo,que queima e expulsa o pecado da vida da pessoa,e a recria”.

No V.12,temos [A sua pá ele tem na mão,e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apagará. Aqui o grão era debulhado ao céu aberto,sendo pisado pelos bois,( Dt 25.4),ou socado através de instrumentos(Is 28.27),para separar o grão da palha,uma (pá),ou (rastelo),era usado,como se jogava o material na direção do vento,a palha era levada para longe e o grão caia no chão,o grão algumas vezes era peneirado depois de separado,( Lc 22.31),o resto então era queimado e o grão era guardado,isto foi usado para ilustrar o julgamento em vários textos no decorrer das Escrituras ( Jó 21.17-20;Sl 1.4;Is 29.5,41.16). Aqui sim temos um texto comprovando o juízo,o grão será ajuntado,mas a palha(casca exterior),é inútil,será queimada,isso fica comprovado quando percebemos a conjunção aqui agora não é aditiva,e sim adversativa,(το δε αχυρον κατακαυσει πυρι ασβεστω),( mas queimará a palha com fogo que nunca se apagará),a conjunção adversativa (δε =mas),aqui temos a idéia de contraste,e portanto aqui sim temos o trigo sendo recolhido e guardado no celeiro ou armazém,mas temos a palha inútil para ser queimada.

Portanto á luz de uma interpretação honesta e imparcial,o v. 10 e 12,fazem referência a um juízo de condenação eterna para o grupo que ouviu a mensagem do evangelho mas que não deu lugar ao sincero arrependimento e conversão,estes serão como a palha, serão queimados no fogo,enquanto no V.11,temos o Espirito Santo e o fogo como o objeto direto do Batismo,dando a idéia de que se trata de um único batismo, além do fato de termos ainda na mesma frase uma oração independente com uma conjunção Aditiva,conectando e unificando o batismo no Espirito Santo na imersão de um fogo purificador,esse batismo são para os do grupo que ouvem o Evangelho e crêem com um sincero arrependimento,serão como trigo guardados no celeiro.

Por : Madson Junialysson

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Biblia Sagrada ( Texto Receptus) D.F.Jennings
Comentário Histórico Cultural (Craig.S.K )
Enciclopédia Temática da Biblia Dicionário de Referência Biblica
Novo Testamento Analítico (Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti).
Chave Linguística do Novo Testamento (Fritz Rienecker e Cleon Rogers).

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ESCATOLOGIA

ESCATOLOGIA
QUEM É O QUE O DETÉM?
DE 2 TESSALONICENSES 2.6-7.

2 Thessalonians 2: 6. και νυν το κατεχον οιδατε εις το αποκαλυφθηναι αυτον εν τω εαυτου καιρω 7. το γαρ μυστηριον ηδη ενεργειται της ανομιας μονον ο κατεχων αρτι εως εκ μεσου γενηται.

2 Tessalonicenses 2: 6. E agora vós sabeis o que o detém, para que ele seja revelado a seu próprio tempo. 7. Pois o mistério da iniquidade já opera; somente há um que agora o detém, até que do meio seja tirado.



A Princípio,devemos considerar,que o Apóstolo Paulo já havia tratado a respeito em sua primeira Epístola sobre a (Παρουσια,vinda), de Cristo,e que agora em sua segunda Epístola,o Apóstolo está tentando resolver um equivoco de Interpretação por parte dos Tessalonicenses no que se diz concernente ao ensino sobre a iminência da vinda de Cristo,e este equivoco era que alguns pelo fato de perceberem tamanha perseguição ferrenha á Igreja,achavam eles que esta perseguição se dizia concernente ao dia do Senhor,eles estavam acreditando que esse dia do Senhor já havia chegado,Paulo lembra-os que eles já sabiam sobre a verdade ensinada por ele (2.5),ele os assegurou que não mudará sua doutrina e os incentivou a permanecerem na verdade (2.15-17.

Paulo os corrige mostrando que á Apostasia e o Anticristo precederão ao dia do Senhor, e que o Arrebatamento da Igreja precederá o Anticristo.(2.1-12.

Esta realidade fazia com que muitos irmãos ficassem simultaneamente entusiasmado quanto pertubados,2Ts 2.2 quando diz”Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto.”essa realidade gerava assim incertezas distraindo as pessoas de sua vida normal.


A resposta de Paulo é que em meio á essas perseguições e aflições,os Tessalonicenses ao suportarem tais provas,eles eram dignos da Graça e Reino porvir,muitos dos ensinos de Paulo no Campo da Escatologia ecoa como os ensinos de jesus em Mc 13,onde ele adverte duramente contra o ser enganado por falsos mestres [Mc 13.5].


Havia um engano no que se diz concernente á [Παρουσια,Vinda],e o Apóstolo agora em sua segunda Epistola tenta resolver essa questão ainda que de forma implicita para o Leitor hodierno,porém o versículo 6 do capitulo 1 aqui nos informa que os Leitores aos quais a Epistola é endereçada sabiam do que se tratava as Palavras do Apóstolo quando diz “e agora,vós o sabeis o que o Detém.
O Termo grêgo aqui para (Detém),é κατέχον de (κατέχω )=Impedir,segurar,ou seja,algo está segurando,impedindo o homem do pecado(o Anticristo).


No Versículo 7,temos a frase,[έως έκ μέσον γένηται],Até que do meio seja (TIRADO),o verbo tirar aqui ( γένηται) de γινομαιζ=Removido=TIRADO COM VILÊNCIA,é onde iremos concluir com a análise Etimológica juntamente com o contexto remoto,mas antes disto,vale ressaltar que o termo aqui [γένηται] de [γινομαι] ,está no Aoristo do Subjuntivo médio,ou seja,uma ação simples indefinida onde se faz uma afirmação duvidosa,incerta,está relacionada basicamente com o tempo futuro mostrando o fato de que frequentemente a incerteza surge apenas porque a ação ainda não foi concretizada.


E é justamente isso que acontece no texto aqui,lembrando que como a voz média aqui no texto,o sujeito age sobre si mesmo,ou a respeito de si mesmo,e como no português não temos voz média,e é justamente por isto que se dá a dificuldade de se traduzir com elegância ou de forma explicita,gerando assim muitas controvérsias na interpretação do texto,ressaltando ainda que essa dificuldade aumenta quando a forma simples de [γινομαι] por se tratar de uma palavra que denominamos de [Polissemia],Poli= muitos-semia=significados,ou seja,o termo [γινομαι] aqui é passível de muitos Significados e traduções em diferentes contextos,ou seja,vai depender do contexto,o que nos obriga por via de regra fazer uma análise Morfológica baseada em seu contexto imediato e remoto, o” tirado”aqui á luz do contexto só pode se referir a algo que está impedindo a manifestação do anticristo.

MAS DE FATO, QUEM É O QUE O DETÉM?

Vamos a algumas das mais conhecidas Interpretações:algums afirmam ser
Governos,outros a Igreja,outros o Espirito Santo.

SERIA GOVERNOS?Os Governos não pode ser porque simplesmente os governos não serão tirados,e o anticristo reinará sobre muitos reinados e governos,( Dn 7.24,11.40-45),além de outros reis mesmo depois de que aquele que o Detém for tirado, outros reis governarão (Ap.11.15;16.13-16).

O ESPIRITO SANTO?


O Espirito Santo apesar de ser o responsável pela permanência da Igreja na terra, ele estará aqui durante toda a tribulação,e segundo o texto aqui em referência,ele não pode ser este algo que será tirado com violência porque ele estará na terra durante toda a Tribulação,mesmo de forma não atuante como antes,mas estará ( jo 14.16;At.2.16-21;ap.12.17;19.10;Zc 12.10-13.1).


Além do fato de que muitos serão salvos pelo Espírito Santo mesmo durante a grande Tribulação (Ap.6.9-11;7.1-21;12.17;15.2-4;204-6),então com base nesta premissa,o Espirito Santo age e atua por meio da Igreja,e sucessivamente é o agente Impulsionador de a Igreja Impedir a manifestação do Anticristo,a Igreja impede por meio do Espirito Santo,Porém pós arrebatamento,o Espírito Santo ainda atuará na terra.

A IGREJA?

Como mencionei anteriormente,as dificuldades para interpretar o texto de maneira explicita,gira em torno de termos aqui palavras Polissêmicas,assim sendo,iremos abordar uma análise léxico sintática,respondendo a algumas objeções.

Há quem diga que não pode ser a igreja porque simplesmente há no texto o artigo indefinido (um)no Versículo 6( somente há UM,que o Resiste),acreditando e afirmando assim alguns que a Igreja não pode ser definida pelo artigo (um),por ser a igreja a noiva de Cristo,aludindo ao gênero feminino e que portanto aqui não poderia ser a igreja identificada com um artigo masculino,esta premissa eu acredito ser inválida porque tanto o artigo masculino indefinido (um),como o artigo masculino definido (o), também são utilizados para se referir á Igreja que é do (gênero feminino).

VAMOS AOS TEXTOS

1Coríntios 12.12-13
Porque, assim como (O) corpo é (UM), e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam (UM) só corpo, assim também é Cristo, Pois em (UM) só Espírito fomos todos nós batizados em (UM)só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres; e a todos nós foi dado beber de (UM) só Espírito.

1 Cor.12.27. Ora, vós sois (O) corpo de Cristo, e individualmente seus membros.

Efésios 1: 23. que é(O) seu corpo, o complemento daquele que cumpre tudo em todas as coisas.
Além de Cl.1.18,24,e Etc.

Assim sendo,tanto o artigo masculino indefinido (um ),quanto o artigo masculino definido (o)pode sim ser mencionado e relacionado á Igreja,e que portanto quem define é o contexto o uso mais apropriado.

Vamos concluir com a análise etimológica,percebe-se que o termo usado aqui ( γένηται) de ( γινομαι )
reforça a idéia de tirado com violência,o que nos faz lembrar de algo como sinônimo aqui de complementação,a Palavra Grêga ( Άρπαξω)que significa(arrebatar,tirar ou raptar com violência),nos leva a entender a Semelhança de Significado dentro de um contexto remoto,em outras palavras,ainda que não podemos dar o veredito final de Forma explicita em seu contexto Imediato,acreditamos que em seu contexto remoto podemos afirmar,não categoricamente,mas de forma a entender que o (que o Detém),á luz das Premissas maiores,mencionadas anteriormente, Colaboram com a evidência de que há uma enorme probabilidade de que seja de fato a Igreja (não sozinha,)
mas juntamente por ela ter o Espirito Santo,ela é quem é esse algo que vai ser Tirado com violência,á luz do que se percebe aqui,de todas as interpretações mais próximas,a Igreja é a unica que pode ser este algo que vai ser tirado da terra com violência,á luz de (Άρπαξω)e (γινομαι).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Biblia Almeida Recebida
I.Howard Marshall
D.F.Jennings
Gramática D.B.Wallace
Craig.S.Keener
Novo Testamento Analítico(Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti)

Madson Junialysson.

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Teologia

ESCATOLOGIA: QUEM É O CAVALEIRO DO CAVALO BRANCO DE APOCALIPSE 6.2?

Revelation 6: 2. και ειδον και ιδου ιππος λευκος και ο καθημενος επ αυτω εχων τοξον και εδοθη αυτω στεφανος και εξηλθεν νικων και ινα νικηση

Apocalipse 6.2 – E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer.

Vamos ao propósito.

A imagem dos quatro cavaleiros é extraída de Zacarias 1.7-11 e Apocalipse 6.1-8, em que quatro carruagens são puxadas por cavalos vermelhos, pretos, brancos e baios ou vermelho marrom,em Zc 1.8).
Em Zacarias, as carruagens percorrem toda a terra e a encontram “toda tranquila e em descanso”.
Há um contraste deliberado com os cavaleiros, nesse texto, que saem para espalhar guerra e praga sobre a humanidade. Além disso, o simbolismo das cores difere.
Em Zacarias, elas simbolizam os quatro ventos, ao passo que, em Apocalipse,representam a morte e a destruição associadas aos juízos. Poirier (1999: 260-61),acrescenta que a imagem também é inspirada em Jeremias 15.2 e Ezequiel 5.12
LXX.
As três passagens têm os mesmos temas: cativeiro, espada, fome e morte.
Esses quatro cavaleiros andam juntos, à medida que a ação passa da ambição pela conquista para a guerra civil e a fome, chegando até a praga e a morte.
Nesse sentido, Deus está permitindo que a depravação deles complete o próprio ciclo, mais do que derramando seu juízo sobre a terra (assim 0 ’Donovan 1986: 71-73).
Esse é um tema comum no livro, mostrando como o pecado se volta contra si mesmo e é autodestrutivo.

(l) Primeiro cavaleiro — branco (6.1,2)

A fórmula de abertura liga fortemente esse texto com o “Cordeiro que é digno”do capítulo 5, que agora passa a abrir os selos, um de cada vez. O texto começa com o Kai εΐδον (kai eidon, e vi) característico, marcando uma transição suave para uma nova seção. O uso do advérbio temporal ότε (hote, quando) à primeira vista parece inadequado, porém, ele inicia cada selo, de modo que se torna um marcador secundário conduzindo a cada um deles,todo evento, nos juízos dos selos, é iniciado com a ação do Cordeiro de abrir o selo.
Como juiz divino, ele inaugura a ação, em conformidade com o capítulo 5. Enquanto João “vê” o Cordeiro abrindo o selo, ele “ouve” a ordem do ser vivente. Ao longo de todo o livro,todos os sentidos de João estão envolvidos nessas visões. O mesmo ocorre em 6.5,6, como também no capítulo 7, quando João “vê” os anjos detendo os ventos de destruição e “ouve” o número dos santos que são selados. Após o rompimento do “primeiro”selo, um dos “quatro seres viventes”,uma voz como de trovão), profere a ordem que também determina os eventos decorrentes dos quatro primeiros selos: (erchou,Vem!).
Ao longo do livro de Apocalipse, os seres viventes lideram a adoração celestial (4.8,9;5.8-10,14; 19.4), fazem parte da comitiva do trono (4.6; 5.6,11; 7.11; 14.3) e implementam os juízos divinos (6.1,3,5,6,7; 15.7). Como cada visão dos quatro “cavalos” é introduzida pelo ser vivente com o número correspondente, sabemos que os juízos vêm do trono de Deus. A presença dos seres viventes também liga esses quatro juízos iniciais, formando uma unidade completa, e a progressão de um selo para outro se torna ainda mais impactante.
A imagem de uma “voz como de trovão” é repetida em 14.2 e 19.6, sendo ambas as passagens cenas de adoração. Aqui, ela pode evocar a ideia de uma teofania tempestuosa (em 4.5,6,a teofania tempestuosa leva à aparição dos quatro seres viventes), já que Deus aparece emjuízo. O presente do imperativo, “vem”, provavelmente não tem aqui um sentido contínuo, mas signifique: “Vem agora mesmo”.

MAS DE FATO,QUEM É O CAVALEIRO DO CAVALO BRANCO?

ANTES DE MAIS NADA VALE RESSALTAR,QUE NÃO PODEMOS CONFUNDIR O CAVALO BRANCO DE 6.2 COM O DE 19.11-21.
EM 6.2 é simbólico,em 19.11-21 é literal,em 6.2 é o anticristo,em 19 11-21 é Cristo em pessoa,em 6.2 se inicia uma séria de eventos na terra em 19.11-2, encerra esses eventos.
Este cavaleiro em 6.2, é futuro e será o primeiro dos 68 eventos da 70° semana de Daniel após o Arrebatamento.

TEMOS AQUI AINDA ALGUMAS PROVAS DE QUE O CAVALEIRO DE 6.2 NÃO SE TRATA DE CRISTO, MAS DO ANTICRISTO.

Primeiro,ele vem em um cavalo branco imitando Cristo e dizendo-se ser ele,Confira (v2;MT 24.4-5;Jo 5.43;DN 9.27;11.37).
Um Arco em linguagem simbólica em relação ao homem descreve desígnios e conquistas do mal(Sl.72.12;11.2;37.14;46.9;58.7;Jr 49.35)
Além do fato de que Cristo é sempre simbolizado como alguém que tem uma Espada e não um arco,(1.16;19.15,21).
O Anticristo é a única pessoa prenunciada nas Escrituras que sai para conquistar neste momento específico começando na 70° semana de Daniel (DN 7.7,20,21,23,24;8.23-25;9.27;11.36-45;Ao 6.1),Este cavaleiro provocará guerra(6.3,8).
Ele leva os primeiros três anos e meio da 70° semana ou os últimos sete anos desta era, para assumir os futuros dez reinos ,ele primeiro derruba três desses reinos (DN 7.23-24).
No meio das semanas,os dez reinos se submetem a ele sem mais guerras, então ele reina sobre os dez reinos por três anos e meio e peleja contra Cristo no Armageddon (Ap 13.1-5;17.8-17;19.11-21.

Exegetas como (e.g., Rissi 1964: 414-17; Johnson; Thomas; Wong 1996:
221-25; Beale; MacLeod 1999a: 210) acreditam, ainda, que o cavaleiro é uma figura satânica, possivelmente o Anticristo, e que os quatro primeiros selos introduzem temas de guerra cósmica e de conquista, que serão desenvolvidos em detalhes posteriormente no livro.6 Rissi (1964: 414) chama os quatro cavaleiros de “agentes demoníacos de destruição” e vê o paralelo mais adequado para eles em Gogue de Ezequiel 38—39. Essa proposta é viável, pois, em Apocalipse13.7, Deus permite à besta “atacar” os santos e “vencê-los”. Se a coroa e o arco em 6.2 são usados como símbolos de Apoio, um deus associado à profecia e à adivinhação, isso também seria possível.
Eu creio, no entanto, que a coroa e a
taça representem os partos,e não há evidência suficiente para uma interpretação tão específica no presente ponto do livro,e é melhor interpretar essa imagem de uma forma mais geral:

OS CAVALEIROS ESTÃO RELACIONADOS AO DESEJO HUMANO PELA GUERRA E ÀS SUAS CONSEQUÊNCIAS (ASSIM SWEET, MORRIS, ROLOFF, BEASLEY-MURRAY, METZGER, TALBERT, GIESEN, MOUNCE,AUNE).

NESSES QUATRO SELOS INTERPRETADOS, O JUÍZO DE DEUS É PERMITIR QUE A DEPRAVAÇÃO HUMANA SIGA SEU CURSO, NÃO SÃO FORÇAS DEMONÍACAS, E SIM HUMANAS.

Tal mensagem seria especialmente impactante no século primeiro, quando a Paz Romana não era, de forma alguma, a verdadeira “paz” romana, mas uma fachada alcançada pela espada romana, isto é, seu controle militar sobre as nações conquistadas.

O VOCABULÁRIO É PARTICULARMENTE IMPORTANTE.

Primeiro.

o cavaleiro é descrito com a expressão incomum (ho kathêmenos, “o que estava assentado”, ARC; em outras versões, como na A21, “cavaleiro”), um paralelo direto com a descrição de Deus “assentado” no trono, em 4.2,3,9,10. Este cavaleiro,portanto, representa a humanidade colocando a si mesma em uma posição de superioridade no lugar de Deus.

Em seguida, aparece o importante termo (edothê, foi dada), que é um passivo divino indicando que Deus está no controle do processo. O VERBO É BASTANTE USADO NO LIVRO (6.11; 7.2; 8.2,3; 9.1,3,5; 11.1,2; 12.14; 13.5,7,14,15; 16.8) E NESTA SEÇÃO (6.2,4,8), DENOTANDO O PODER SOBERANO DE DEUS SOBRE TODA A CRIAÇÃO, INCLUSIVE SOBRE AS FORÇAS DO MAL.
Todas as coisas que Satanás e seus subordinados fazem no livro ocorrem somente por meio da permissão divina (Beale 1999: 377)chama isso de “autorização divina para a realização de uma função”).
A descrição do cavaleiro se assemelha fortemente aos partos, a única força
militar no mundo antigo que era temida pelos romanos (assim Swete, R. Charles,Lohse, Boring, Mounce, Harrington, Aune), pois eles tinham derrotado uma parte do exército romano, em 55 a.C. e em 62 d.C. Eles eram uma federação guerreira de tribos e residiam a leste do Eufrates (a fronteira oriental do Império Romano), sendo especialmente famosos por sua cavalaria, pois tinham desenvolvido a habilidade de atirar flechas com muita precisão, mesmo montados sobre um cavalo em movimento.
Como o cavaleiro recebeu um “arco” e “saiu como vencedor, decidido a vencer”, os partos apresentam um pano de fundo natural.
Eles haviam feito várias incursões nas terras romanas nas décadas de 60 e 70.
ALÉM DISSO, A “COROA” INDICARIA SUA INDEPENDÊNCIA DE ROMA. Entretanto, deve-se destacar que os partos apenas fornecem o pano de fundo da imagem, não sendo esta uma referência somente a eles, mas também à propensão generalizada dos seres humanos pecadores ao seu desejo de conquista.
A EXPRESSÃO (nikõn kai hina nikêsê, vencedor e para vencer) É UMA EXPRESSÃO IDIOMÁTICA QUE UTILIZA UM PARTICÍPIO CIRCUNSTANCIAL E UMA ORAÇÃO GRAMATICAL DE FINALIDADE, PARA DESTACAR QUE A ATIVIDADE SUPREMA E O PROPÓSITO DESSE PERSONAGEM SÃO a CONQUISTA MILITAR. O VERBO É UM DOS TERMOS IMPORTANTES DO LIVRO, CONCLUINDO CADA UMA DAS SETE CARTAS NOS CAPÍTULOS 2 e 3, BEM COMO DESCREVENDO A GUERRA ENTRE SATANÁS E O POVO DE Deus. Passagens centrais no uso desse verbo são Apocalipse 12.12ss. e 13.7, que contêm a ironia de que, quando a besta pensa que está “vencendo” os santos (13.7), são eles que, na realidade, a derrotam.

Esse grande combate cósmico é introduzido aqui com uma descrição da intensidade com que a guerra se torna a expressão máxima da depravação humana.

Fontes :
Bíblia sagrada Almeida Recebida
Comentário Histórico Cultural da Bíblia(NT Craig S.Keener) Novo Testamento Interlinear Analítico( Paulo Sérgio Gomes e Odayr Olivetti)
G.R.Osborn
D.F.Jennings
Compilação e texto em caixa alta
Madson Junialysson.