FEBE – DIAKONOS DA IGREJA EM CENCRÉIA?
Συνίστημι δὲ ὑμῖν Φοίβην τὴν ἀδελφὴν ἡμῶν, οὖσαν
recomendo[2] E[1] a vós Febe a irmã[2] nossa[1], sendo
[καὶ] διάκονον τῆς ἐκκλησίας τῆς ἐν Κεγχρεαῖς.
também diakonos da igreja da em Cencréia.
Em Romanos 16,1-2, o apóstolo Paulo faz uma breve recomendação aos cristãos romanos para que recebam Febe, que estava indo para Roma, com uma acolhida digna de uma representante da Igreja de Cristo. E Febe é, por ele, mencionada no exercício de uma função eclesiástica deveras importante naqueles dias: διάκονος (diakonos).
Em sua origem etimológica no grego, διάκονος significa “ministro, servo, mensageiro, atendente”. Transmite a ideia de alguém que executa os pedidos de outro, especialmente de um superior, como um servo.[1] O termo διάκονος é empregado neste sentido tanto na Septuaginta (Et 2,2; 6,3) como em todo o Novo Testamento, sendo neste utilizado 31 vezes. Destas, aparece por 21 vezes somente nas epístolas de Paulo.[2]
O termo grego διάκονος é transliterado por “diáconos” por quatro vezes no Novo Testamento (cf. Fl 1,1; 1Tm 3,8,12,13). Os autores bíblicos neotestamentários usam esta mesma palavra para descrever vários ministérios e serviços. Entre seus usos comuns, diakonos se refere a quem serve a refeição (Jo 2,5,9), servo do rei (Mt 22,13), servo armado de uma pessoa de autoridade, um oficial do tribunal da justiça (Jo 18,3,12,18,22). No mais das vezes, diakonos designa o papel de anunciadores do evangelho (1Co 3,5), ministro de justiça (2Co 11,15), ministro de Deus (Rm 13,4; 2Co 6,4; 1Ts 3,2), ministro de Cristo (2Co 11,23; Cl 1,7; 1Tm 4,6), fiel ministro do Senhor (Ef. 6,21; Cl 4,7), ministro da circuncisão (Rm 15,8), ministro de uma nova aliança (2Co 3,6), ministro do evangelho (Ef 3,7; Cl 1,23); servidores de Deus ou ministros (1Co 3,5), ministro do pecado (Gl 2,17).[3]
Visto que Febe é literalmente chamada de διάκονος da Igreja em Cencréia, imperioso contestar a tradução androcêntrica[4] frequentemente encontrada em Romanos 16,1, quando da leitura de certas versões bíblicas em língua portuguesa. Senão, vejamos:
“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia…” (ARA).
“Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual serve na igreja que está em Cencréia…” (ACF, ARC).
“Recomendo-lhes nossa irmã Febe, serva da igreja em Cencréia…” (NVI).
“Recomendo-vos, pois, Febe, nossa irmã, a qual é serva na igreja que está em Cencreia…” (SBTB).
“Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que é serva da igreja que está em Cencreia…” (IBB).
“Recomendo-vos nossa irmã Febe, que está a serviço da Igreja de Cencréia…” (BMD).
Ora, sempre que Paulo chama-se a si mesmo, a Apolo, a Timóteo ou Títico de διάκονος, os tradutores da Bíblia vertem este termo por “ministro”. Mas, quando o vocábulo se refere à Febe, uma mulher, traduzem-no por “serva” (NVI), “que está servindo” (ARA) ou “a qual serve” (ARC), entre outras traduções no mesmo sentido.
De acordo com Elisabeth Fiorenza, o vocábulo grego não permite semelhante estereotipificação feminina de Febe. Uma vez que ela é chamada de διάκονος da Igreja de Cencréia, porto de Corinto, recebe este título porque seu serviço e função eram influentes naquela comunidade.[5]
No caso, a ideia transmitida pelos tradutores/intérpretes é que Febe age como uma serva, isto é, serve a alguém. Acontece que, nesse texto, o termo grego διάκονος (diakonos) é um substantivo acusativo singular, não um verbo. É por este motivo que alguns linguistas traduzem o termo grego διάκονον por “diaconisa”.
Nesse sentido, a Bíblia de Jerusalém, em sua tradução, diz: “Recomendo-vos Febe, nossa irmã, diaconisa da Igreja de Cencréia”. No mesmo diapasão, seguem a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, a Bíblia Ave Maria, a King James Atualizada e a Edição Pastoral, entre outras.
Interessante é que a versão Almeida Revista, Corrigida e Anotada, assim traduz o versículo 1: “Recomendo-vos, pois, Febe, nossa [querida] irmã, a qual serve (Gr. diakonon: diaconisa, ministra) na congregação que está em Cencréia”. (grifamos)
Digno de nota é a Tradução do Novo Mundo, que diz: “Recomendo-vos Febe, nossa irmã, que é ministra da congregação que está em Cencréia”. (grifamos)
Na tradução da Vulgata Latina não se fala de diaconisa, mas se diz da irmã Febe “quae est ministra ecclesiae, quae est Cenchreis”.
O problema aqui, então, é saber se este ministério era fixo ou não.
Stanley Grenz afirma que a referência a Febe é única em dois aspectos. Primeiro, Paulo se refere a ela usando a forma substantiva especificamente masculina (diakonos), em lugar de alguma alternativa feminina. Segundo, o apóstolo coloca o ministério de Febe numa congregação específica – “diakonos da igreja de Cencréia” –, sendo esta a única ocorrência da palavra no Novo Testamento, seguida de uma construção genitiva, ligando o serviço (diaconia) da pessoa a uma igreja local.[6] A conclusão é que Febe era uma diaconisa, cargo esse para o qual a congregação podia nomear tanto homens como mulheres.
O posicionamento contrário à ideia de ordenação de diaconisas alega que no grego existe uma palavra específica para designar diaconisa (diakonissa), mas que ela não é usada no Novo Testamento. Reconhecem que a irmã Febe foi chamada por Paulo de diakonon, uma forma masculina do substantivo, e que esse título era usado para falar de alguém que possuía um ofício ou função na sociedade. Argumentam, porém, que na Bíblia não há exemplos conhecidos desse termo sendo usado para falar de uma mulher, e que “a nossa irmã Febe” é a única exceção.[7]
De fato, a dupla função atribuída a Febe (diakonos e prostatis) não é dada a nenhuma outra mulher em o Novo Testamento e, a contrário sensu, isso nos conduz a outro aspecto até então desconsiderado por muitos estudantes da Bíblia: a diacronia[8] do termo diakonos. Em outras palavras, sua conotação não seria a mesma de diaconisa ou diácono, conforme se entende hoje, qual seja, de um cargo menor que o de presbítero.
De acordo com Elisabeth Fiorenza, qualificar Febe como uma diaconisa, no sentido que tornou séculos depois, ou seja, uma função subordinada ao bispo, é equivocado e anacrônico, pois não vislumbra o sentido empregado por Paulo para a função por ela ocupada na comunidade de Cencréia. E isso porque Paulo utiliza a palavra grega diakonos para descrever o seu próprio ministério da Palavra, quanto questiona aos coríntios: “Pois quem é Paulo e quem é Apolo, senão ministros [diakonoi] pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?” (1Co 3,5 – ARC). Ora, se a palavra diakonos, quando aplicada a homens, significava uma atividade ministerial e estava ligada à pregação e ao ensino da Palavra, o mesmo termo aplicado a Febe também deveria ter o mesmo significado e não outro! Portanto, conclui a autora, o termo diakonon, empregado a Febe, não transmite a ideia de uma simples servidora ou assistente da comunidade local, mas sim a de uma missionária dessa comunidade. Ela não apenas servia, mas estava à frente da Igreja de Cencréia, como uma verdadeira ministra do Senhor.[9]
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[1] THAYER, Joseph Henry. Thayer’s Greek-English lexicon of the New Testament. Grand Rapids: Hendrickson, 1996, p. 138.
[2] FABRIS, Rinaldo. Para ler Paulo. São Paulo: Loyola, 1996, p. 71.
[3] COENEN, Lothar; BROWM, Colin (Orgs.). Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1981, p. 448-452.
[4] Teoria androcêntrica é o ponto de vista segundo o qual o sexo masculino é essencial e o sexo feminino secundário no plano orgânico, que tudo está centrado, por assim dizer, no macho.
[5] FIORENZA, Elisabeth S. Em memória dela: as origens cristãs a partir da mulher. São Paulo: Paulus, 1992, p. 72-74.
[6] GRENZ, Stanley J. Mulheres na igreja: teologia bíblica para mulheres no ministério. São Paulo: Candeia, 1998, p. 96.
[7] RYRIE, Charles Caldwell. Teologia básica: ao alcance de todos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, p. 487.
[8] Diacronia é a descrição de uma língua ao longo de sua história, com as mudanças que sofreu. A diacronia refere-se, portanto, à evolução de uma determinada língua no tempo.
[9] FIORENZA, Elisabeth S. Op. cit., p. 220.
Via Daniel Miranda Gomes.